Petróleo rompe US$ 100 e acende alerta para diesel e biodiesel

DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 07 a 13/09/2026

O que realmente mudou nesta semana?

• A escalada no Oriente Médio levou o Brent novamente acima de US$ 100/barril, com alta de 8,65% na semana, enquanto a escassez de diesel se tornou ainda mais crítica.
• No fim de semana, um ataque interrompeu o principal oleoduto saudita utilizado para contornar Ormuz, aumentando o risco de perda efetiva de oferta.
• O IRS confirmou as novas regras do 45Z, reforçando a vantagem das matérias-primas produzidas na América do Norte e o suporte à demanda por óleo de soja americano.
• A China comprou aproximadamente 1 milhão de toneladas de soja americana, enquanto o WASDE elevou a produção dos EUA, mas reduziu a projeção de estoques finais.
• Os estoques de palma na Malásia atingiram 2,82 milhões de toneladas, máxima de oito meses, pressionando o mercado apesar dos riscos climáticos e do B50 indonésio.
• No Brasil, o governo ampliou a subvenção ao diesel em um momento de forte aumento do custo das importações e menor disponibilidade do produto russo.

“A crise de energia deixou de ser apenas um prêmio de risco. As restrições às rotas de escoamento e à capacidade de refino começaram a afetar fisicamente a oferta, enquanto a política americana de biocombustíveis continua ampliando o suporte ao óleo de soja.” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

O petróleo voltou a subir fortemente durante a semana

O Brent encerrou a sexta-feira cotado a US$ 104,61/barril, alta de 8,65%, enquanto o WTI avançou 9,37%, para US$ 100,05/barril. Além das restrições persistentes no Estreito de Ormuz, o avanço dos houthis passou a ameaçar também Bab el-Mandeb, principal rota marítima alternativa utilizada diante das limitações no Golfo Pérsico.

O mercado de derivados permanece ainda mais pressionado. Segundo a IEA, a escassez de produtos refinados é, atualmente, mais aguda do que a própria restrição na oferta de petróleo bruto. O diesel nos Estados Unidos chegou a superar US$ 200/barril, aproximadamente 94% acima dos níveis anteriores ao conflito, enquanto as margens de refino atingiram níveis recordes na Bacia do Atlântico.

Durante o fim de semana, o cenário ganhou um novo fator de risco: a Arábia Saudita interrompeu o East-West Pipeline após ataques de drones. O oleoduto vinha transportando cerca de 4 milhões de barris/dia até Yanbu, no Mar Vermelho, funcionando como uma das principais rotas para contornar as restrições em Ormuz. Caso a interrupção se prolongue, as exportações sauditas poderão sofrer nova redução.

As expectativas de uma rápida normalização diplomática também perderam força. As negociações regionais sobre a segurança do Estreito de Ormuz, previstas para esta segunda-feira, foram adiadas, enquanto novos ataques mantêm elevada a incerteza sobre os fluxos de petróleo e derivados provenientes do Golfo.

Na avaliação da SCA Brasil, o mercado entrou em uma fase na qual novas interrupções logísticas tendem a produzir impactos mais diretos sobre os preços, uma vez que os estoques e as rotas alternativas apresentam capacidade cada vez menor para absorver novos choques de oferta.

45Z amplia suporte ao óleo de soja americano

A Receita Federal dos Estados Unidos (IRS, na sigla em inglês) publicou, nesta semana, a regulamentação para 2026 do Crédito de Produção de Combustíveis Limpos (45Z), confirmando que os combustíveis produzidos após 31 de dezembro de 2025 deverão utilizar exclusivamente matérias-primas originárias dos Estados Unidos, México ou Canadá para terem acesso ao benefício.

A regra também exclui as emissões indiretas decorrentes de mudanças no uso da terra do cálculo da intensidade de carbono e cria mecanismos para considerar determinadas práticas agrícolas e de manejo de dejetos. Na prática, a regulamentação favorece matérias-primas produzidas na América do Norte, especialmente o óleo de soja, em relação ao óleo de cozinha usado (UCO) e a outros insumos importados de fora da região.

A mudança também produz reflexos no mercado brasileiro de matérias-primas. As exportações de sebo bovino recuaram 34,9% entre janeiro e agosto, com as tarifas norte-americanas reduzindo a competitividade do produto brasileiro nos Estados Unidos. Combinada às novas regras do 45Z, essa dinâmica pode resultar em maior disponibilidade de sebo no mercado doméstico.

Em Chicago, o contrato de dezembro do óleo de soja encerrou a semana cotado a 69,19 cents/lb, com valorização de 0,44%. No Brasil, o óleo de soja FOB Paranaguá também avançou no período, apesar do recuo do basis, que limitou parte dos ganhos decorrentes da valorização observada em Chicago. Veja o gráfico:

China acelera compras, enquanto WASDE mantém safra americana elevada

A China acelerou as compras de soja americana, com aproximadamente 1 milhão de toneladas negociadas durante a semana, principalmente pelas estatais Sinograin e COFCO, às vésperas da expectativa de encontro entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump.

O movimento, entretanto, ainda está concentrado nas empresas estatais. A tarifa adicional de 10% sobre a soja americana e as margens pressionadas continuam limitando uma retomada mais ampla das compras pelas esmagadoras privadas chinesas.

O WASDE de setembro confirmou a perspectiva de uma safra elevada nos Estados Unidos. O USDA aumentou a estimativa de produtividade de 52,7 para 52,8 bu/acre e a produção de 4,519 para 4,535 bilhões de bushels. Ao mesmo tempo, elevou a projeção de exportações de 1,660 para 1,685 bilhão de bushels, reduzindo os estoques finais de 320 para 310 milhões de bushels.

Para o óleo de soja, o balanço praticamente não mudou: o USDA manteve a projeção de 17,8 bilhões de libras destinadas aos biocombustíveis em 2026/27 e o preço médio em US¢ 70/lb.

A safra norte-americana continua grande, mas o aumento das exportações e a retomada das compras chinesas reduzem parte do conforto que uma produção elevada sugeriria isoladamente.

No Brasil, as exportações também permanecem fortes. O país embarcou 9,8 milhões de toneladas em agosto, recorde para o mês, elevando o volume acumulado entre janeiro e agosto para 92,8 milhões de toneladas, alta de 7,2% em relação ao mesmo período sobre 2025.

Estoques pressionam óleo de palma, mas fundamentos limitam queda

O óleo de palma recuou 2,25% na semana, pressionado principalmente pelo aumento dos estoques na Malásia. Segundo o MPOB, os estoques atingiram 2,82 milhões de toneladas em agosto, alta de 7,48% no mês e o maior nível em oito meses. A produção avançou 1,39%, para 1,82 milhão de toneladas, enquanto as exportações recuaram 7,5%, para 1,29 milhão de toneladas.

O balanço mais folgado exerce pressão sobre os preços no curto prazo. Entretanto, a implementação do B50 na Indonésia, os riscos climáticos associados ao El Niño e os custos logísticos mais elevados na Ásia continuam limitando uma perspectiva estruturalmente baixista para o óleo de palma.

Além disso, o prêmio do óleo de palma em relação ao óleo de soja para embarques no quarto trimestre já começa a influenciar as decisões dos compradores. De acordo com Cunha, o movimento tem favorecido a substituição entre os óleos vegetais, especialmente na Índia, ampliando a competitividade do óleo de soja no mercado asiático.

Mercado spot continua com baixa liquidez

Levantamento da SCA Brasil apontou baixa liquidez no mercado spot de biodiesel, embora o volume tenha se concentrado no final da semana. O total negociado aumentou em 1.520 m³, para 1.685 m³, enquanto o preço médio subiu 1,91%, para R$ 6.391/m³.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) não divulgou na sexta (11) os preços médios do biodiesel.

Alta internacional amplia defasagem do diesel brasileiro

A forte valorização internacional dos derivados aumentou rapidamente a defasagem do diesel brasileiro. O governo anunciou nova subvenção de R$ 1,00/litro, que temporariamente se soma aos R$ 1,12/litro já existentes, levando o benefício potencial a R$ 2,12/litro até o final de setembro.

A medida busca limitar o impacto da alta sobre o consumidor em um momento de forte elevação do custo de reposição. As importações brasileiras de diesel recuaram 18,3% em agosto, para pouco menos de 1,2 milhão de m³, enquanto o preço médio do produto importado atingiu US$ 991,52/m³, alta de 71,4% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A Rússia, anteriormente principal origem do diesel importado pelo Brasil, respondeu por apenas 65,8 mil m³ no mês. Com a mudança nos fluxos internacionais, os Estados Unidos passaram a representar 70,8% das importações brasileiras, enquanto a Índia respondeu por aproximadamente 20%.

O cenário mantém elevada a atenção sobre a política de preços da Petrobras e a capacidade do programa de subvenção de conter o repasse da valorização internacional do diesel ao mercado doméstico.

O que observar na próxima semana?

• Energia: duração da interrupção do East-West Pipeline, negociações em Omã e evolução dos fluxos por Ormuz e Bab el-Mandeb.
• Soja: reação do mercado ao WASDE e continuidade, ou não, das compras chinesas.
• Óleos vegetais: impacto do 45Z sobre a demanda americana e possibilidade de maior substituição de palma por óleo de soja.
• Brasil: eventual reajuste do diesel, regulamentação da nova subvenção e comportamento do custo de importação.
• Regulação: início da consulta da ANP sobre a metodologia de individualização das metas do RenovaBio.

SCA Brasil
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