
Professores da Escola Politécnica elaboraram um documento visando contribuir para o estabelecimento do Mapa do Caminho, cujo objetivo é a substituição dos combustíveis fósseis, um dos temas mais discutidos na COP30. O documento foi enviado para os ministérios de Minas e Energia, Meio Ambiente e Mudança de Clima, Fazenda e Casa Civil.
Quando se olha mais atentamente para o consumo de energia total no Brasil hoje, aproximadamente 50% vem de energias renováveis, o que dá uma posição muito confortável para o País num cenário de mudanças climáticas. Em relação específica ao transporte – foco principal do trabalho dos professores acima –, a nação também ocupa uma posição confortável, uma vez que 50% da energia utilizada é igualmente renovável.
“A nossa proposta é continuar com os combustíveis renováveis (etanol, biodiesel), que são soluções que nós entendemos olhando não só para uma fonte de energia nova, mas para toda cadeia de suprimentos, de maturidade tecnológica, de parque industrial, garantia do fornecimento de energia, todas essas questões que no Brasil – para o etanol, por exemplo – já são bastante consolidadas, [considerando] todos os veículos de passeio flex que nós já temos”, revela o professor Guenther Krieger Filho, que atua na área de engenharia automotiva do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli.
“Nós temos também uma possibilidade de aumentar essa participação dos combustíveis renováveis com o etanol, saindo das aplicações de carros de passeio para veículos maiores, como os de transporte coletivo, urbano e de carga, e aí com a tecnologia de veículos híbridos, elétricos e motor de combustão interna.”
Três tipos de veículos receberam atenção especial para o aprimoramento dos motores: os de passeio (predominantemente do tipo flex), os comerciais urbanos (ônibus, caminhões pequenos e médios) e os pesados (ônibus e caminhões rodoviários, tratores e máquinas de mineração), cada um deles com sua própria especificidade no tocante às formas de energia utilizadas até chegar à eliminação total do combustível fóssil.
“Hoje, metade da energia dos veículos de passeio vem da gasolina e a outra metade, do etanol. A área utilizada para a produção do etanol é de 8,8 milhões de hectares, mas acreditamos que precisaríamos nem chegar a dobrar, porque nós vamos ter o aumento da eficiência dos motores. Acreditamos que com mais 7 milhões de hectares a gente já conseguiria substituir a gasolina”, explica o professor Antonio Laganá, também atuando na área de engenharia automotiva da Engenharia Mecânica da Poli. “Agora, indo para o diesel, supondo que 50% [seja] substituído por etanol e 50% substituído por biodiesel, esses 50% de etanol requerem aproximadamente uma produção de 45 bilhões de litros, e hoje nós produzimos 38 bilhões de litros de etanol. Seriam aproximadamente mais uns 9 milhões de hectares.” Já em relação ao biodiesel, segundo ele, “com 20, 25 milhões de hectares adicionais, nós conseguiríamos produzir todo o biocombustível necessário para substituir o diesel e o etanol”.
Aprimorar sempre
Ambos os professores concordam que é necessário aprimorar o que já foi feito, com a pretensão de evoluir, melhorando o desenvolvimento dos motores de combustão interna, mas para tanto pesquisas se fazem necessárias. “Nessa linha, essas ações do Programa Mover, que já tem apoiado as universidades”, frisa o professor Krieger, lembrando que hoje é possível desenvolver um motor novo, otimizado para etanol, no Brasil, o que se torna inviável no exterior, seja na Europa, seja nos EUA.
De acordo com ele, é muito importante esse apoio para que universidades e empresas trabalhem juntas para melhoria dos motores de combustão interna, “mas com retorno rápido, em alguns anos, para uma melhora significativa nessa linha”, o que vale também para os motores elétricos. “Basicamente, é manter a visão de que a transição energética não pode abrir mão do etanol, o que, para o Brasil, seria um contrassenso. Nossa proposta é essa, continuar, aumentar os incentivos para o desenvolvimento tecnológico, porque nós sabemos que isso também tem implicação direta na economia, geração de emprego, industrialização do País, basicamente seria isso. A continuação de projetos de desenvolvimento tecnológico, utilizando etanol e biodiesel”, finaliza Krieger, frisando sempre que se trata de uma contribuição para o Brasil se orientar, visando a uma melhora na diminuição da dependência dos combustíveis fósseis.
Fonte: Jornal USP