Petróleo rompe US$ 100 e reacende alerta para o biodiesel global

O que realmente mudou nesta semana?

• O petróleo voltou a liderar os movimentos do mercado após a escalada das tensões no Oriente Médio, levando o Brent a superar momentaneamente US$ 100/barril.
• O complexo de óleos vegetais permaneceu sustentado não apenas pelo petróleo, mas também por fundamentos próprios, com destaque para o óleo de palma, o aumento da demanda asiática e o fortalecimento do mercado de matérias-primas para biocombustíveis.
• No Brasil, os dados de junho confirmaram uma produção de biodiesel acima do crescimento esperado pela elevação da mistura obrigatória, embora as margens das usinas permaneçam pressionadas.
• O mercado doméstico voltou a acompanhar com atenção o diesel, diante da alta do preço de importação, da redução das exportações russas e do início da retirada gradual dos subsídios governamentais.
• As primeiras projeções para a safra brasileira de soja 2026/27 indicam desaceleração da expansão da área cultivada, inaugurando uma nova fase de crescimento mais seletivo.

“Mesmo com o petróleo dominando os preços no curto prazo, os fundamentos do mercado mundial de biocombustíveis continuam oferecendo sustentação ao complexo de óleos vegetais.”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Petróleo mantém protagonismo

O mercado internacional voltou a concentrar suas atenções na escalada do conflito entre Estados Unidos, Irã e grupos aliados no Oriente Médio. Os riscos ao Estreito de Ormuz e ao Mar Vermelho elevaram significativamente o prêmio geopolítico do petróleo, levando o Brent a superar momentaneamente US$ 100 por barril, pela primeira vez em dois meses.

Apesar da realização de lucros em alguns pregões, o mercado permanece extremamente sensível à evolução do conflito. A redução do tráfego marítimo nas principais rotas de exportação mantém elevado o risco de interrupções no abastecimento global e sustenta a volatilidade dos preços.

Óleos vegetais seguem sustentados, mas com fundamentos distintos

Embora o petróleo continue sendo o principal direcionador dos preços, os fundamentos dos diferentes óleos vegetais seguem trajetórias distintas.

O óleo de soja encerrou a semana cotado a 73,47 cents/lb, com leve recuo de 0,62%. O mercado foi pressionado pelas boas perspectivas para a safra norte-americana, pela expectativa de ampla oferta e pelo enfraquecimento das exportações dos Estados Unidos e do Brasil.

Na Argentina, o esmagamento de soja alcançou 4,14 milhões de toneladas em junho, volume 1,9% superior ao registrado no mesmo mês de 2025, enquanto a produção de óleo cresceu 5,7% na comparação anual.

No Brasil, a queda do basis compensou parte da valorização observada em Chicago, mas o óleo de soja FOB Paranaguá voltou a registrar alta na semana, conforme o gráfico:

O óleo de palma acumulou a terceira valorização semanal consecutiva, atingindo o maior patamar em 15 semanas. Além da alta do petróleo, os preços seguem sustentados pela expectativa de menor disponibilidade exportável da Indonésia com o programa B50, pelo aumento da demanda chinesa e pela perspectiva de crescimento das importações indianas entre julho e outubro.

Na Europa, o esmagamento total de oleaginosas recuou 16,3% em junho, refletindo principalmente a transição da safra de canola. Em contrapartida, o processamento de soja permaneceu 15,6% acima do registrado há um ano e 18,4% superior à média dos últimos cinco anos.

Outras matérias-primas também ganharam relevância. As exportações chinesas de óleo de cozinha usado cresceram 52% em junho, alcançando 473,1 mil toneladas, enquanto os embarques para os Estados Unidos avançaram 125%. No Brasil, as novas tarifas americanas sobre o sebo bovino podem ampliar a disponibilidade doméstica dessa matéria-prima, aumentando sua competitividade frente ao óleo de soja na produção de biodiesel.

Safra brasileira entra em nova fase de crescimento

As primeiras projeções para a safra brasileira de soja 2026/27 apontam para uma possível redução da produção em relação ao recorde anterior, refletindo a estabilização da área plantada e a expectativa de retorno da produtividade para níveis mais próximos da média histórica.

Segundo o Rabobank, não se trata de uma mudança estrutural, mas de uma nova etapa de crescimento mais seletivo, influenciada por margens mais apertadas, crédito restritivo e aumento dos custos de produção. Caso esse cenário se confirme, poderá contribuir para um mercado global de soja mais equilibrado na próxima temporada.

Produção de biodiesel cresce, mas margens seguem pressionadas

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a produção brasileira de biodiesel cresceu 9,9% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2025.

O desempenho continua sendo impulsionado principalmente pela elevação da mistura obrigatória, enquanto o consumo de diesel mantém crescimento moderado. O Centro-Oeste segue liderando a expansão da produção nacional, enquanto o Sudeste foi a única região a registrar retração em junho. Veja o gráfico:

Mercado brasileiro mantém baixa liquidez

Ainda segundo a ANP, entre 13 e 19 de julho, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras foi de R$ 5.083,96/m³, recuo de 0,43% na semana. O Nordeste apresentou a maior alta (1,95%), enquanto o Sudeste registrou a maior queda (-1,27%). No acumulado do ano, os preços recuam 14,16%.

Levantamento da SCA Brasil aponta recuperação do mercado spot, embora a liquidez permaneça reduzida:

Volume: 3.400 m³ (+62,29%), sendo 60% originados no Paraná;
Preço médio: R$ 6.008/m³ (-0,79%).

Mercado de diesel volta ao centro das atenções

O diesel voltou ao centro das atenções no Brasil. A alta das cotações internacionais elevou o custo de importação, enquanto a redução das exportações russas, provocada pelos ataques à infraestrutura de refino, restringiu parte da oferta global.

Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, alterações no mercado internacional tendem a impactar diretamente os preços e o abastecimento doméstico.

Ao mesmo tempo, o governo iniciou a retirada gradual das medidas emergenciais de apoio adotadas durante a recente escalada do petróleo, mantendo apenas parte da subvenção ao diesel.

“Em um mercado estruturalmente dependente das importações, o comportamento das cotações internacionais continuará sendo um dos principais fatores de atenção nas próximas semanas”, analisa Cunha.

O que observar na próxima semana

  • Evolução do conflito no Oriente Médio e seus impactos sobre petróleo e diesel.
  • Comportamento dos fluxos logísticos pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho.
  • Continuidade da valorização do óleo de palma diante da implementação do B50 na Indonésia.
  • Evolução dos preços do diesel importado e seus possíveis reflexos sobre o mercado brasileiro.
  • Desenvolvimento da safra norte-americana de soja, que entra em período decisivo para definição do potencial produtivo.

SCA Brasil – DE OLHO NO BIODIESEL
BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – SCA Brasil
Boletim Semanal – 20 a 24/07/2026