O gargalo invisível da cana: por que as soqueiras travam a produtividade

A cana-de-açúcar, cultura semi-perene por definição, carrega uma contradição estrutural que impacta diretamente a rentabilidade do setor: enquanto a cana-planta recebe manejo intensivo e altamente tecnificado, as soqueiras — responsáveis por cerca de 85% da área produtiva — ainda operam sob um modelo de menor investimento e, muitas vezes, baixa eficiência agronômica.

Na prática, o sistema produtivo trata a cana-planta como prioridade absoluta, com correção de solo, adubação localizada e controle rigoroso de pragas, doenças e plantas daninhas. Já as socas seguem um caminho mais restritivo: recebem adubação superficial, pouca ou nenhuma correção e, em muitos casos, dependem exclusivamente das condições climáticas para manter sua produtividade.

O resultado é conhecido — e aceito — pelo mercado: quedas progressivas de produtividade ao longo dos cortes.

Perdas estruturais já incorporadas ao modelo econômico

A redução de produtividade entre cana-planta e soqueiras não apenas ocorre, como já está precificada. Instituições financeiras, ao estruturarem linhas de crédito, consideram essa perda como parte do risco operacional da atividade.

Modelos produtivos típicos indicam produtividades decrescentes ao longo de cinco cortes, com médias variando entre 52 t/ha e 72 t/ha. As perdas acumuladas podem chegar a:

17% a 25% em sistemas menos intensivos
13% a 20% em sistemas mais tecnificados

O paradoxo é evidente: a atividade convive há décadas com perdas relevantes de produtividade, sem que soluções estruturais tenham sido amplamente implementadas.

O vazio técnico: falta de pesquisa em soqueiras

Grande parte do conhecimento agronômico disponível sobre adubação de cana-de-açúcar foi construída com base em estudos realizados em cana-planta. Já as soqueiras permanecem como uma lacuna técnica relevante. Os poucos experimentos conduzidos no Brasil — especialmente no Nordeste, nas décadas de 1980 — apontam um dado estratégico:
as soqueiras respondem mais intensamente à adubação nitrogenada e potássica do que a própria cana-planta. Além disso, esses estudos indicaram que:

A forma de aplicação dos fertilizantes pode gerar ganhos de produtividade entre 9% e 30%
O simples aumento de dose tem efeito limitado
A incorporação dos nutrientes no solo é decisiva para eficiência

Mesmo assim, essas evidências ainda não foram plenamente incorporadas ao manejo em larga escala.

Ureia: eficiência comprometida pela prática de superfície

O uso crescente de fertilizantes concentrados, especialmente a ureia, trouxe um novo desafio agronômico. Por conter nitrogênio na forma amídica, a ureia depende de processos de transformação no solo para se tornar disponível às plantas. Nesse caminho, há uma etapa crítica: a formação de amônia (NH₃), que pode se volatilizar rapidamente. Em condições típicas de campo — alta temperatura, umidade e atividade da enzima urease — as perdas podem chegar a:

30% a 40% do nitrogênio aplicado
Até 60% em cenários extremos

Essas perdas ocorrem, principalmente, nos primeiros quatro dias após a aplicação, especialmente quando o fertilizante não é incorporado ao solo.

O erro histórico: exclusão do fósforo nas soqueiras

Outro ponto crítico do manejo atual é a exclusão quase generalizada do fósforo (P₂O₅) nas adubações de soqueiras. A prática, ao que tudo indica, surgiu de decisões pontuais — seja por ausência de resposta visual imediata ou pelo alto custo do insumo — e acabou sendo replicada até se tornar padrão de mercado. No entanto, a ausência de resposta aparente não necessariamente significa ausência de necessidade agronômica. A exclusão sistemática do nutriente, sem base experimental robusta, pode estar contribuindo silenciosamente para a queda de produtividade.

Caminho técnico: mais experimento, menos suposição

O setor enfrenta um desafio clássico: tomar decisões agronômicas com base em lacunas de informação. A solução é direta, embora ainda pouco executada: instalação massiva de experimentos de campo em soqueiras. Para gerar recomendações confiáveis, seriam necessários:

Ensaios com NPK em diferentes doses e formas de aplicação
Avaliações com calcário e gesso agrícola
Pelo menos 50 áreas experimentais por linha de estudo

A vantagem operacional é clara: experimentos em soqueiras são mais rápidos, baratos e fáceis de conduzir do que em cana-planta — e seus resultados têm maior impacto, já que abrangem a maior parte da área cultivada.

Água: o fator decisivo negligenciado

Entre todos os fatores de produção, um segue sendo determinante e, muitas vezes, subestimado: a disponibilidade hídrica. A mitigação do estresse hídrico nas soqueiras, especialmente nos períodos mais quentes e ensolarados, é apontada como o principal vetor de ganho produtivo. Sem água, não há eficiência nutricional, nem resposta agronômica consistente.

Conclusão: produtividade passa, inevitavelmente, pelas soqueiras

Se o objetivo é elevar a produtividade da cana-de-açúcar no Brasil — e especialmente em regiões como o Nordeste — o caminho é inequívoco: revisar o manejo das soqueiras. Mesmo sem avanços experimentais imediatos, algumas medidas já se mostram estratégicas:

Incorporação de fertilizantes ao solo
Redução do estresse hídrico
Reavaliação das fórmulas nutricionais

Uma meta inicial factível seria reduzir as perdas entre cana-planta e soca para cerca de 10%. O ganho potencial é direto: mais produtividade, maior volume colhido e aumento de faturamento — exatamente onde hoje está o maior gargalo do sistema.

Fonte: Cana Online – Veja a matéria na íntegra aqui