Geopolítica, regulação e margens redefinem o foco dos mercados

O que realmente mudou nesta semana?


• O petróleo encerrou julho em forte alta, sustentado pela restrição dos fluxos no Estreito de Ormuz e pela ampliação dos riscos sobre outras rotas e instalações de energia.
• A indefinição da EPA sobre as isenções às pequenas refinarias aumentou a volatilidade dos RINs e do óleo de soja nos Estados Unidos.
• A produção brasileira de biodiesel cresceu 9,9% no primeiro semestre, acompanhada por maior diversificação das matérias-primas.
• A Abiove elevou as projeções de esmagamento e produção de óleo de soja, enquanto margens mais apertadas colocaram a rentabilidade do produtor no centro das atenções para a próxima safra.
• Nos Estados Unidos, as condições das lavouras de soja recuaram, mas o desenvolvimento permanece adiantado e ainda sustenta a expectativa de ampla oferta.

“A geopolítica ainda determina a volatilidade de curto prazo, mas regulação, demanda por biocombustíveis e rentabilidade da soja começam a definir os fundamentos dos próximos meses.”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Petróleo mantém prêmio de risco e amplia preocupação com os derivados

O petróleo encerrou julho em forte valorização, com ganhos acumulados de aproximadamente 22% para o Brent e 20% para o WTI. Na sexta-feira, o Brent fechou a US$ 90,12 por barril, após alcançar US$ 93,31 durante o dia anterior. Apesar das oscilações provocadas por avanços e retrocessos diplomáticos, o fluxo pelo Estreito de Ormuz continuou muito abaixo da normalidade, sustentando o prêmio de risco.

As preocupações também se estenderam a outras regiões estratégicas. Ataques afetaram uma refinaria saudita e uma unidade da refinaria russa de Perm, responsável por 34% da capacidade local. Ao mesmo tempo, os estoques comerciais americanos de petróleo caíram para 404,5 milhões de barris, menor nível desde 2018, enquanto a Reserva Estratégica atingiu o patamar mais baixo desde 1983.

Para o mercado de diesel, o cenário tornou-se ainda mais sensível. A combinação entre oferta internacional mais vulnerável, elevado nível de utilização das refinarias e menor capacidade de resposta a novas interrupções amplia a atenção sobre a paridade de importação e os custos de abastecimento no Brasil, especialmente se persistirem as restrições às exportações russas e os riscos logísticos no Oriente Médio.

Safra americana perde qualidade, mas segue adiantada

As condições das lavouras de soja dos Estados Unidos apresentaram nova deterioração. O percentual classificado como bom ou excelente caiu de 66% para 63%, oferecendo algum suporte às cotações internacionais. Agosto, no entanto, será o mês decisivo para o enchimento dos grãos e a definição do potencial produtivo da safra.

Apesar da piora, o desenvolvimento das lavouras continua acima da média histórica. Segundo o USDA, 80% das áreas estavam em floração, ante média de cinco anos de 74%, enquanto 47% já apresentavam formação de vagens, acima da média histórica de 39%. Até o momento, a perda de qualidade ainda não altera a expectativa de uma safra abundante. A confirmação desse potencial dependerá das condições climáticas nas próximas semanas e do comportamento da demanda internacional, especialmente da China.

China reorganiza estoques e mercado acompanha demanda pela soja americana

O esmagamento semanal chinês alcançou 2,34 milhões de toneladas, elevando os estoques de óleo de soja para 1,23 milhão de toneladas e os de palma para 850 mil toneladas. A maior disponibilidade doméstica pode limitar as importações de óleos vegetais no curto prazo.

Paralelamente, a estatal Sinograin antecipou seu programa de rodízio de estoques. No primeiro leilão, vendeu 248,6 mil toneladas das 503,7 mil toneladas ofertadas e já anunciou nova operação. O movimento busca abrir espaço para futuras cargas americanas, mas a colocação de menos da metade do volume mostra que a substituição da soja brasileira não será automática.

As exportações dos Estados Unidos também continuam abaixo do ritmo considerado necessário para sustentar as projeções atuais. As vendas da safra 2026/27 somaram 520 mil toneladas na semana, abaixo da faixa estimada entre 700 mil e 800 mil toneladas. O comportamento dos próximos leilões chineses será importante para avaliar o espaço das cargas americanas e seus possíveis efeitos sobre a demanda pela soja brasileira.

Regulação americana amplia a volatilidade do óleo de soja

O mercado de óleo de soja permaneceu pressionado pela expectativa em torno da decisão da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) sobre os pedidos de isenção para pequenas refinarias no âmbito do programa americano de combustíveis renováveis. Caso as isenções sejam concedidas em larga escala, haverá redução das obrigações de conformidade do programa, diminuindo a demanda por créditos RIN e por matérias-primas destinadas à produção de biodiesel e diesel renovável.

O contrato de dezembro do óleo de soja encerrou a semana cotado a 67,26 cents/lb, uma queda de 8,45%, pressionado também pelo clima favorável nos Estados Unidos, pelo recuo pontual do petróleo e pelo ritmo das exportações. Enquanto a decisão regulatória não for conhecida, esse tema continuará influenciando os RINs, as margens do biodiesel e o complexo de óleos vegetais.

No mercado físico sul-americano, entretanto, os basis apresentaram recuperação, sinalizando maior firmeza da demanda mesmo diante da queda dos futuros em Chicago. Em Paranaguá, o preço FOB do óleo de soja apresentou apenas leve variação negativa na semana, refletindo a valorização do basis, que compensou parte relevante da queda da bolsa, conforme mostra o gráfico:

B50 sustenta a demanda por palma, apesar da correção semanal

A Indonésia elevou para 16,75 milhões de m³ a alocação de biodiesel para 2026, volume 6,8% superior ao inicialmente previsto para o B40. A revisão busca acomodar a entrada do B50 e deve ampliar a retenção doméstica de óleo de palma, reduzindo o excedente disponível para exportação.

Na Malásia, as exportações de produtos de palma cresceram 19,5% em julho, para 1,60 milhão de toneladas. Apesar disso, a recuperação da produção sazonal e a menor demanda europeia limitaram os preços, com o contrato de outubro encerrando a semana próximo de US$ 1.135 por tonelada.

Brasil amplia esmagamento, mas margens do produtor ganham importância

A Abiove revisou para cima suas projeções para 2026 e passou a estimar esmagamento recorde de 63,3 milhões de toneladas de soja no Brasil. A entidade também elevou a previsão de produção de óleo de soja para 12,75 milhões de toneladas e a de exportações para 1,7 milhão de toneladas. Entre janeiro e maio, o processamento acumulou 23,36 milhões de toneladas, avanço de 7,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

Os números reforçam a ampla disponibilidade de matéria-prima para a indústria nacional de biodiesel e para o mercado exportador. Ao mesmo tempo, um novo fator passa a ganhar relevância para a próxima safra. Segundo reportagem do Valor Econômico, margens mais apertadas, crédito mais seletivo e custos elevados podem reduzir a capacidade de investimento dos produtores em tecnologia e manejo.

Nesse contexto, o mercado passa a acompanhar não apenas o potencial produtivo da safra 2026/27, mas também os impactos da menor rentabilidade sobre o ritmo de comercialização da soja, os investimentos nas lavouras e a disponibilidade da oleaginosa ao longo do ciclo.

Preços do biodiesel mantêm-se estáveis no Brasil

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras, entre 20 e 26 de julho, foi de R$ 5.101,13/m³, alta de 0,34% em relação à semana anterior.
Regionalmente, apenas o Centro-Oeste registrou recuo nos preços (-0,22%), enquanto a maior valorização ocorreu na Região Norte (+4,09%). No acumulado de 2026, o mercado mantém trajetória de queda, com recuo de 13,87% nos preços médios do biodiesel.

O levantamento da SCA Brasil apontou forte retração do mercado spot na semana, com volume reportado de 1.030 m³, queda de 69,7% frente à semana anterior. O preço médio ficou em R$ 6.032/m³, alta de 0,41%.

Biodiesel cresce e amplia a diversificação das matérias-primas

A produção brasileira de biodiesel alcançou 4,99 milhões de m³ no primeiro semestre, avanço de 9,9% sobre 2025. O consumo total de matérias-primas chegou a 5,05 milhões de m³, maior volume já registrado para o período.

O óleo de soja permaneceu dominante, com 3,71 milhões de m³, mas sua participação recuou de 75% para 73,5%. O principal destaque foi o sebo bovino, cujo consumo cresceu 29,2%, para 333,8 mil m³, elevando sua participação para 6,6%. Outros materiais graxos também avançaram, enquanto o óleo de palma cresceu 81%, embora ainda represente somente 0,9% do mix.

Destaque: O que observar na próxima semana

Na análise de Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – SCA Brasil, as atenções do mercado permanecerão voltadas para a evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz e os impactos das interrupções no refino sobre a oferta global de diesel. Também seguirá no radar uma possível decisão da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) sobre os pedidos de isenção para pequenas refinarias, tema com potencial para influenciar a demanda por óleo de soja e as margens do setor de biocombustíveis.

No mercado agrícola, agosto será decisivo para a definição do potencial produtivo da safra norte-americana de soja, enquanto os próximos leilões da estatal chinesa Sinograin deverão indicar o ritmo de recomposição dos estoques e o espaço para as exportações dos Estados Unidos.

No Brasil, o mercado continuará acompanhando os efeitos do esmagamento recorde de soja sobre a oferta de óleo, a evolução dos preços do biodiesel e a liquidez do mercado spot. Também permanecerão em foco as condições de crédito e os custos de produção, fatores que poderão influenciar as decisões de investimento dos produtores para a safra 2026/27.

DE OLHO NO BIODIESEL
BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – SCA Brasil
27 a 31/07/2026