Energia recua, mas o risco continua: o que isso significa para o biodiesel?
A semana trouxe um aparente alívio para o mercado global de energia, mas o pano de fundo segue frágil. A reabertura do Estreito de Ormuz derrubou o prêmio de risco do petróleo, enquanto os óleos vegetais mostram dinâmicas divergentes — e o biodiesel brasileiro continua operando sob pressão de custos e liquidez. O momento exige leitura fina: a volatilidade não acabou, apenas mudou de vetor.
Petróleo: alívio técnico, risco estrutural permanece
A reabertura de Ormuz durante o cessar-fogo reposicionou o mercado. O Brent recuou para USD 90,38/bbl (-9,1%) e o WTI para USD 83,85/bbl (-11,5%), refletindo a retirada de prêmios de risco acumulados nas semanas anteriores.
Apesar da queda expressiva, o mercado segue ancorado em incertezas geopolíticas. A oferta ainda enfrenta restrições no Golfo Pérsico, e os danos à infraestrutura energética mantêm um piso de risco relevante. No curto prazo, EUA x Irã continuam sendo o principal driver — qualquer ruptura pode rapidamente reprecificar o barril.
Óleo de soja: demanda forte sustenta preços globais
O óleo de soja segue com fundamentos construtivos, sustentado principalmente pela demanda doméstica americana ligada ao biodiesel.
Esmagamento nos EUA atingiu 6,16 milhões t (+16,3% a/a)
Estoques recuaram para 925 mil t (abaixo do esperado)
Exportações fracas indicam priorização do consumo interno
Esse cenário mantém os preços firmes em Chicago (68,16 cents/lb, +1,59%), reforçando o papel do óleo de soja como ativo estratégico para biocombustíveis. No Brasil, porém, o movimento foi distinto: O óleo de soja FOB Paranaguá caiu -4,41%, pressionado pela forte retração dos prêmios locais (-29% na semana). Resultado: descolamento entre o mercado internacional e o físico doméstico. Veja no quadroo abaixo:

Óleo de palma: pressão no curto prazo, suporte no estrutural
O óleo de palma operou pressionado (USD 1.126–1.137/t), refletindo:
Demanda fraca na Ásia (Índia e China)
Queda nas exportações da Malásia (até -34%)
Câmbio menos favorável (ringgit valorizado)
Por outro lado, o vetor estrutural segue positivo: A Malásia avança para o mandato B15 (via B12), o que pode adicionar +300 mil toneladas de demanda interna. “A leitura do cenário é menos excedente exportável no médio prazo → suporte indireto ao complexo de óleos vegetais”, analisa Filipe Cunha, head comercial da SCA Brasil Biodiesel.
Soja Brasil: oferta recorde, mas com absorção robusta
A safra brasileira se consolida em 179,2 milhões t, com crescimento de área e produtividade, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O ponto-chave não está apenas na oferta, mas na capacidade de absorção:
Esmagamento estimado: 62,2 milhões t
Produção de óleo: 12,5 milhões t
Exportações: 1,55 milhão t
Apesar do aumento da oferta, a absorção interna e o cenário global limitam pressões mais intensas sobre os preços no curto prazo.
Biodiesel Brasil: mercado lento, custos em alta no radar
Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot segue com baixa liquidez, ainda que com leve reação no volume:
Volume: 2.340 m³ (+78,6%)
Preço médio: R$ 5.477/m³ (-4,9%)
Ponto de atenção: O mercado já sinaliza recomposição de fees, pressionado por:
Alta do metanol
Impactos da redução de PIS/COFINS

As negociações para a contratação dos volumes para o terceiro bimestre do ano iniciaram de forma lenta na semana passada e terão que acelerar ao longo dessa semana para atender ao prazo final de homologação na ANP no próximo dia 25. O mercado sinaliza para uma recuperação nos valores dos fees em função do forte aumento de matérias-primas como o metanol e impactos provocados pela redução do PIS e COFINS anunciado pelo Governo Federal no início do mês de abril.
Segundo o levantamento realizado entre 06/04 e 12/04 pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidores ficou em R$ 5.205,12, valorização de 1,10% em relação ao valor médio da semana anterior. A região Centro-oeste foi a única região com redução (-0,75%) e a região Sudeste apresentou a maior valorização, com 1,36%. O mercado acumula uma redução de 12,12% no ano.

Diesel: restrição de oferta sustenta tensão no mercado
O mercado brasileiro segue apertado. A Petrobras deixou de atender cerca de 10% da demanda para maio, após cortes superiores a 20% no mês anterior. Com 25% de dependência de importação, o país enfrenta:
Custos elevados no mercado internacional
Distribuidoras ampliando importações
Governo buscando medidas mitigadoras
“O ambiente favorável à mistura, mas com forte sensibilidade a preços e política energética”, opina Cunha.
Radar da semana: o que pode mudar o jogo?
Filipe Cunha, especialista no setor acredita que para a semana, o mercado deve seguir altamente sensível aos desdobramentos das negociações com alguns pontos que podem mudar a dinâmica:
Evolução das negociações EUA x Irã
Fluxo efetivo no Estreito de Ormuz
Continuidade da demanda por óleo de soja nos EUA
Exportações de palma na Malásia
Ritmo de esmagamento no Brasil
Nível de restrição no diesel doméstico
SCA Brasil
Boletim Semanal – 06 a 10/04/2026