O que realmente mudou nesta semana?
• O CNPE aprovou medidas que fortalecem a indústria nacional de biodiesel, vedando o uso de biodiesel importado na mistura obrigatória e ampliando o uso voluntário do biocombustível em diversos segmentos consumidores.
• A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã manteve elevada a volatilidade do petróleo, sustentando os preços dos óleos vegetais ao longo da semana.
• Nos Estados Unidos, o esmagamento recorde de soja e a queda dos estoques de óleo reforçaram a percepção de uma demanda doméstica aquecida pelo setor de biocombustíveis.
• A Conab voltou a elevar as projeções para a safra brasileira de soja, enquanto o mercado segue acompanhando os desdobramentos regulatórios e geopolíticos para definir a direção dos preços.
“Enquanto a geopolítica continuou determinando a volatilidade de curto prazo, foi a agenda regulatória brasileira que trouxe a principal mudança estrutural da semana para o mercado de biodiesel.”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
Agenda regulatória fortalece o mercado doméstico de biodiesel
A principal notícia da semana veio do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que aprovou medidas para fortalecer a cadeia brasileira de biodiesel. Entre elas, ficou definido que todo o produto destinado ao atendimento da mistura obrigatória deverá ser fabricado por usinas autorizadas pela ANP, afastando definitivamente a possibilidade de uso de biodiesel importado nesse mercado. A decisão encerra a insegurança regulatória existente desde abril e preserva a demanda para a produção nacional.
O conselho também ampliou o espaço para o consumo voluntário de biodiesel acima do mandato obrigatório. As novas regras simplificam o uso do biocombustível em transporte público, frotas cativas, ferrovias, navegação, máquinas agrícolas, mineração e geração de energia, dispensando autorização prévia da ANP e oferecendo maior previsibilidade para o desenvolvimento desse mercado.
Por outro lado, a proposta de regularização das dívidas do RenovaBio foi retirada da pauta, mantendo as indefinições sobre o tema. Paralelamente, representantes da cadeia produtiva voltaram a defender a adoção do B17, argumentando que a elevada volatilidade do petróleo reforça o papel estratégico dos biocombustíveis na redução da dependência brasileira de combustíveis fósseis.
Petróleo e a volatilidade dos mercados
O mercado internacional permaneceu pressionado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. Os ataques, as restrições ao tráfego no Estreito de Ormuz e os riscos de interrupção nas exportações mantiveram elevado o prêmio de risco do petróleo, com o Brent oscilando entre US$ 84 e US$ 86 por barril. A geopolítica segue como o principal fator de formação dos preços da energia no curto prazo.
No caso do diesel, a suspensão temporária das exportações russas aumentou a atenção sobre o abastecimento brasileiro, já que a Rússia responde por parcela significativa do diesel importado pelo país. Embora contratos vigentes e estoques reduzam os impactos imediatos, uma restrição prolongada poderá elevar os custos de importação, intensificar a disputa por cargas no mercado internacional e exigir a busca por fornecedores alternativos. No momento, o maior risco é de pressão sobre os preços e as condições de contratação, mas uma interrupção prolongada também poderá afetar a disponibilidade física do combustível.
A combinação entre menor oferta russa, tensões nas rotas do Oriente Médio e estoques internacionais mais apertados pode tornar a reposição de cargas mais difícil e custosa, especialmente se outros importadores também intensificarem suas compras. Para o Brasil, a principal consequência tende a aparecer primeiro nos preços e nas condições de contratação; uma interrupção mais longa, porém, poderia começar a pressionar também a disponibilidade física do diesel.
Óleo de soja mantém fundamentos positivos
O mercado de óleo de soja acompanhou a volatilidade do petróleo e encerrou a semana em 74,81 cents/lb, com valorização de 6,17%. Nos Estados Unidos, a NOPA reportou esmagamento recorde de 5,83 milhões de toneladas em junho, enquanto os estoques de óleo recuaram para 680,8 mil toneladas, o menor nível dos últimos oito meses. O resultado reforça a percepção de forte demanda doméstica impulsionada pelos programas de biodiesel e diesel renovável.
Além disso, a nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre o sebo bovino brasileiro pode reduzir a competitividade dessa matéria-prima no mercado americano, favorecendo indiretamente o consumo de óleo de soja para produção de biocombustíveis.
No Brasil, o enfraquecimento do basis reduziu parte da pressão altista vinda de Chicago, mas não foi suficiente para neutralizar o avanço das cotações internacionais. Como resultado, o óleo de soja FOB Paranaguá também acumulou ganhos na semana, confirmando que o mercado doméstico permanece fortemente ancorado na dinâmica internacional, especialmente em momentos de maior volatilidade do petróleo. Veja o gráfico abaixo:

Óleo de palma continua sustentado pela demanda asiática
Embora o óleo de palma tenha apresentado momentos de correção ao longo da semana, seus fundamentos continuam positivos. A implementação da mistura B15 na Malásia e a continuidade do programa B50 na Indonésia seguem ampliando a demanda doméstica pela commodity. Ao mesmo tempo, a intensificação do El Niño aumenta as preocupações com a produtividade futura das plantações, sustentando um viés construtivo para os preços no médio prazo.
Safra brasileira reforça liderança mundial da soja
A Conab voltou a revisar para cima suas estimativas para a safra brasileira de soja, projetando produção recorde de 180,56 milhões de toneladas. O relatório também elevou as projeções de esmagamento e manteve perspectivas favoráveis para as exportações, reforçando o papel do Brasil como principal fornecedor mundial de soja e garantindo ampla disponibilidade de matéria-prima para a cadeia nacional de biodiesel.
Mercado Spot: recuperação do volume ainda não altera cenário de baixa liquidez
Segundo levantamento da SCA Brasil, o volume spot apresentou um recuo em relação à semana anterior:
• Volume: 2.095 m³ (-31,24%)
• Preço médio: R$ 6.056/m³ (+1,13%)

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 06 e 12 de julho, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 5.106,00/m³, leve alta de 0,40% na semana.
A região Nordeste apresentou a maior valorização (1,26%). E as maiores desvalorizações ocorreram nas regiões Norte (-1,91%) e Centro-Oeste (-1,45%). O mercado acumula queda de 13,79% no ano. Veja o gráfico:

Destaque para a próxima semana:
De acordo com Filipe Cunha, o mercado segue acompanhando a evolução do conflito no Oriente Médio e seus reflexos sobre o petróleo e os óleos vegetais. No Brasil, a atenção continua voltada à implementação das medidas aprovadas pelo CNPE e às discussões em torno da evolução da política nacional de biocombustíveis.
“Permanece no radar os desdobramentos relacionados ao B17, ao mercado voluntário de biodiesel e aos indicadores internacionais de oferta e demanda de óleos vegetais”, conclui.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 13 a 17/07/2026