
Durante a DATAGRO Abertura de Safra Cana, Açúcar e Etanol 2026, em Ribeirão Preto (SP), o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, avaliou que o Brasil deve enfrentar com mais tranquilidade o cenário de instabilidade no mercado internacional de energia, impulsionado pelos conflitos no Oriente Médio.
Em entrevista ao “Portal Visão Agro”, Nastari destacou que a próxima safra de cana no Centro-Sul aponta para uma recuperação da produção, com maior volume de etanol disponível para o mercado.
Segundo ele, a estimativa é que a safra 2026/27 alcance cerca de 635 milhões de toneladas de cana, com produção de açúcar semelhante à da temporada passada, porém com um mix mais alcooleiro.
“Devemos produzir cerca de 4,6 bilhões de litros a mais de etanol em relação à safra anterior. Isso significa que teremos combustível suficiente para abastecer o mercado, com preços competitivos para o consumidor”, afirmou.
Para Nastari, a forte presença dos biocombustíveis coloca o Brasil em uma posição diferenciada no cenário global de energia. Atualmente, o país substitui cerca de 46% do consumo de gasolina por etanol, considerando a mistura obrigatória na gasolina e o uso do hidratado nos veículos flex.
Esse fator, segundo ele, ajuda a amortecer impactos de eventuais aumentos no preço internacional do petróleo.
“O Brasil está numa condição muito especial em relação a outros países, porque possui uma base muito relevante de biocombustíveis”, destacou.
Dependência do diesel preocupa
Apesar da vantagem no uso do etanol, o executivo alertou que o Brasil ainda depende de importações de combustíveis fósseis, especialmente diesel.
De acordo com ele, o país importa cerca de 16,5 bilhões de litros de diesel por ano, o equivalente a aproximadamente 25% do consumo nacional, além de volumes menores de gasolina.
Com a alta do petróleo — que saiu de cerca de US$ 55–60 para patamares próximos de US$ 90–100 por barril — o mercado de combustíveis tem registrado forte volatilidade.
Nesse cenário, alguns distribuidores já começam a reajustar preços para antecipar custos de reposição de estoques, enquanto outros aguardam definições do mercado internacional.
“O mercado está reagindo a essa situação de incerteza. Alguns distribuidores já estão aumentando preços, outros estão esperando para ver como o cenário evolui”, explicou.
Diesel caro pode acelerar uso de biocombustíveis
Nastari também apontou que a alta do diesel pode abrir espaço para uma maior utilização de biocombustíveis no país.
Segundo ele, já existem alternativas tecnológicas para substituir o diesel em operações agrícolas, como o uso de biodiesel puro (B100) ou até mesmo tratores e colhedoras movidos a etanol.
“Quando se compara o preço esperado do etanol com o diesel, começa a ficar evidente que pode ser economicamente viável usar equipamentos agrícolas movidos a etanol”, afirmou.
Mercado ainda volátil
Para o presidente da DATAGRO, o mercado de combustíveis ainda deve passar por um período de volatilidade nas próximas semanas, com possíveis oscilações de preços na bomba.
Mesmo assim, ele acredita que o Brasil possui ferramentas para equilibrar o mercado, como o aumento da mistura de etanol na gasolina ou da proporção de biodiesel no diesel.
“O Brasil tem alternativas. Podemos aumentar o uso de etanol, biodiesel e até biogás. Existe uma avenida aberta para ampliar esses biocombustíveis”, concluiu.
Fonte: Visão Agro