Por que o etanol ainda não domina motores exclusivos mesmo prometendo menor impacto ambiental e melhor eficiência energética que sistemas flex atuais

Foto meramente ilustrativa de uma pessoa mexendo em um motor de carro – Foto: Freepik/Divulgação

Entenda por que o etanol, mesmo associado a menor impacto ambiental e alto desempenho técnico, ainda não levou as montadoras a investirem novamente em motores exclusivos no Brasil. O etanol é amplamente reconhecido como um combustível renovável com menor impacto ambiental quando comparado à gasolina, diz nota do “CPG”.

No Brasil, o etanol de cana-de-açúcar é apontado por estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) como capaz de reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa no ciclo de vida, quando comparado aos combustíveis fósseis.

Segundo matéria publicada pelo Olhar Digital no dia 1 de março, além da vantagem ambiental, o etanol apresenta elevada octanagem. Isso permite maior taxa de compressão no motor e, consequentemente, potencial ganho de eficiência térmica quando o projeto é dedicado exclusivamente a esse combustível. Em tese, os motores exclusivos poderiam explorar melhor essas características do que os sistemas flex atuais.

Mesmo assim, a indústria automotiva brasileira consolidou outra escolha tecnológica. Desde 2003, os veículos flex dominam o mercado, oferecendo liberdade de abastecimento e reduzindo riscos ao consumidor. A pergunta permanece relevante: se o etanol é mais limpo e pode ser mais eficiente, por que não se investe novamente em motores exclusivos?

A diferença energética que pesa na decisão das montadoras

Um dos principais obstáculos está na densidade energética. O etanol possui menor conteúdo energético por litro quando comparado à gasolina. Na prática, os veículos tendem a consumir cerca de 30% a mais de etanol para percorrer a mesma distância que um carro movido exclusivamente a gasolina.

Essa diferença impacta diretamente a autonomia. Vinte litros de gasolina permitem ao carro percorrer uma distância significativamente maior do que 20 litros de etanol. Para compensar essa característica, um veículo 100% a etanol precisaria de um tanque maior, o que implicaria ajustes estruturais e aumento de peso.

Mesmo que motores exclusivos pudessem ser projetados para minimizar parte dessa perda, a percepção de menor autonomia ainda influencia fortemente o consumidor. Para as montadoras, que trabalham com margens apertadas e alto volume de produção, qualquer fator que reduza competitividade comercial tende a ser evitado.

Liberdade de escolha e o sucesso dos sistemas flex no Brasil

Os veículos flex surgiram em 2003 e rapidamente conquistaram o mercado. Fabricantes como Volkswagen do Brasil e Fiat Automóveis lideraram a introdução dessa tecnologia em larga escala.

O grande diferencial foi a liberdade de escolha. O motorista pode abastecer com etanol, gasolina ou qualquer proporção entre os dois, de acordo com o preço e a disponibilidade. Esse modelo reduziu o risco de desabastecimento e aumentou o valor percebido do veículo.

Se o preço da gasolina sobe, o consumidor opta pelo etanol. Se o etanol encarece, migra para a gasolina. Essa flexibilidade praticamente elimina a dependência exclusiva de um combustível. Para as montadoras, isso significa menor risco comercial e maior aceitação no mercado. Nesse contexto, os motores exclusivos perderam atratividade, mesmo oferecendo potencial de menor impacto ambiental.

Embora o etanol tenha menor impacto ambiental, o consumidor médio tende a priorizar custo por quilômetro rodado. A referência tradicional do mercado brasileiro indica que o etanol compensa financeiramente quando custa até 70% do valor da gasolina, devido à diferença de consumo.

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), essa relação varia entre estados e ao longo do ano. Em períodos de entressafra ou alta no preço do açúcar no mercado internacional, o etanol pode perder competitividade.

A volatilidade de preços afeta diretamente a decisão das montadoras. Investir em motores exclusivos exigiria confiar em uma estabilidade que o mercado de commodities agrícolas não garante. A tecnologia flex, por sua vez, protege o consumidor e o fabricante contra oscilações bruscas.

Partida a frio e evolução tecnológica do etanol

Outro ponto histórico relevante foi a dificuldade de partida a frio nos veículos movidos exclusivamente a etanol. Em temperaturas mais baixas, o combustível evapora com menor facilidade para iniciar a combustão, o que gerava dificuldades na ignição.

Nos anos 1980 e 1990, muitos modelos utilizavam um reservatório auxiliar de gasolina para facilitar a partida. Com a evolução da injeção eletrônica e dos sistemas de pré-aquecimento, esse problema foi praticamente resolvido nos veículos flex modernos.

Mesmo com o avanço tecnológico, a memória do consumidor ainda carrega a associação entre motores exclusivos a etanol e dificuldade operacional. Essa percepção influencia a decisão de compra e reforça a preferência por soluções híbridas ou flexíveis.

O trauma do proálcool e a quebra de confiança no etanol

O Programa Nacional do Álcool, conhecido como Proálcool, foi criado em 1975 com o objetivo de reduzir a dependência do petróleo importado e fortalecer a produção nacional de cana-de-açúcar. O impacto foi significativo.

Em meados dos anos 80, mais de 90% dos carros novos vendidos no Brasil eram movidos a etanol. O país se tornou referência mundial em biocombustível, consolidando a imagem do etanol como solução estratégica.

Entretanto, a alta do preço internacional do açúcar tornou a produção de etanol menos atrativa para as usinas. Houve escassez nos postos, filas extensas e consumidores com veículos parados por falta de combustível.

Esse episódio gerou uma quebra de confiança duradoura. Quando a tecnologia flex surgiu em 2003, foi vista como solução definitiva para evitar nova dependência de um único combustível. A experiência histórica ainda pesa na resistência aos motores exclusivos.

Estratégia industrial das montadoras diante da transição energética

As montadoras operam em um cenário global de transformação. Além da discussão sobre etanol e gasolina, há forte avanço de veículos híbridos e elétricos. Nesse contexto, direcionar recursos para desenvolver novos motores exclusivos pode não ser prioridade estratégica.

O Brasil possui uma matriz energética com participação relevante de fontes renováveis. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, mais de 45% da matriz energética nacional é composta por fontes renováveis. O etanol tem papel central nesse resultado.

Algumas montadoras já investem em veículos híbridos flex, que combinam eletrificação com etanol, potencializando o menor impacto ambiental sem abrir mão da flexibilidade. Essa solução pode ser considerada mais alinhada às metas globais de descarbonização. Assim, a indústria prefere evoluir o conceito flex e integrar novas tecnologias, em vez de retomar os motores exclusivos.

Motores exclusivos a etanol ainda têm espaço no futuro?

Do ponto de vista técnico, sim. Um projeto dedicado poderia explorar a alta octanagem do etanol para operar com maior taxa de compressão, extrair melhor desempenho e reduzir emissões. Em um cenário ideal de estabilidade de preços e ampla oferta, os motores exclusivos poderiam ser competitivos.

No entanto, a decisão não depende apenas da engenharia. Ela envolve confiança do consumidor, previsibilidade econômica e estratégia das montadoras. A experiência histórica, a volatilidade do mercado e a consolidação do sistema flex criaram uma barreira significativa para o retorno em larga escala dos veículos 100% a etanol.

Enquanto o consumidor valorizar liberdade de escolha e segurança contra oscilações de mercado, o modelo flex continuará dominante. O etanol permanece essencial para a redução de emissões no Brasil, mas dificilmente substituirá os sistemas flex como padrão de mercado no curto prazo.

O debate, portanto, não é apenas tecnológico. Ele envolve economia, comportamento e política energética. Entender esses fatores ajuda a compreender por que um combustível com menor impacto ambiental ainda não domina os motores exclusivos, mesmo apresentando potencial técnico relevante.

Fonte: CPG