O mercado de biodiesel teve como principal vetor da semana a publicação, pelo Ministério de Minas e Energia (MME), do plano oficial de testes para validação de misturas superiores ao B15, inicialmente com B20 e posteriormente B25. O movimento representa o primeiro avanço concreto para destravar o cronograma previsto na Lei do Combustível do Futuro e foi interpretado pelo setor como um sinal relevante de retomada das discussões regulatórias.
Embora a portaria ressalte que a aprovação do plano não implica autorização automática para elevação da mistura nem altera o cronograma legal vigente, o início formal dos testes foi interpretado pelo setor como um passo relevante para viabilizar futuras decisões regulatórias. O segmento mantém expectativa de antecipação do B16, especialmente diante do ambiente de preços dos combustíveis e do aumento dos custos associados às importações de diesel.
O argumento econômico permanece favorável. Segundo levantamento da ANP, o biodiesel foi comercializado a R$ 4.973,76/m³, frente a R$ 5.368,23/m³ do diesel mineral, diferença próxima de R$ 0,40 por litro. Além disso, entidades do setor articulam aporte adicional entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões para acelerar a realização dos testes necessários à validação técnica das novas misturas.
Petróleo segue ditando o humor dos mercados
O petróleo permaneceu como principal direcionador dos mercados de energia e óleos vegetais ao longo da semana. As negociações entre Estados Unidos e Irã alternaram sinais de avanço e cautela, provocando forte volatilidade nas cotações internacionais.
O Brent encerrou a sexta-feira cotado a USD 103,54/barril, enquanto o WTI fechou a USD 96,60/barril, acumulando perdas semanais de 5,23% e 4,37%, respectivamente. Apesar da correção, o mercado continua sustentado por um importante prêmio geopolítico relacionado às restrições operacionais no Estreito de Ormuz.
A Agência Internacional de Energia (IEA) voltou a alertar para a deterioração do balanço físico global de petróleo, especialmente diante da aproximação do pico sazonal de consumo no verão do hemisfério norte. Mesmo com expectativa de ampliação da produção pela OPEP+, as limitações logísticas na região do Golfo seguem restringindo a disponibilidade efetiva de oferta adicional ao mercado internacional.
Nos Estados Unidos, os estoques comerciais recuaram 7,9 milhões de barris na semana, enquanto a Reserva Estratégica de Petróleo registrou retirada adicional de 9,9 milhões de barris, levando os volumes ao menor nível desde julho de 2024. O movimento reforça a percepção de mercado físico apertado e mantém sustentação estrutural para os preços da energia.
Óleo de soja encontra suporte na demanda por biocombustíveis
Após uma semana marcada por volatilidade, o óleo de soja apresentou recuperação nas últimas sessões. O contrato julho encerrou a semana em 73,98 cents/lb (+0,14%). O comportamento dos preços refletiu a combinação entre oscilações do petróleo, condições climáticas favoráveis ao plantio nos Estados Unidos e incertezas relacionadas à demanda chinesa.
Apesar das pressões de curto prazo, os fundamentos permanecem positivos, analisa Filipe Cunha, Head Comercial Biodiesel – SCA Brasil.
O USDA projeta crescimento de aproximadamente 25% no consumo de óleo de soja para biocombustíveis na safra 2026/27, alcançando cerca de 8,08 milhões de toneladas. O crédito fiscal 45Z e a ampliação da capacidade de esmagamento norte-americana reforçam a expectativa de continuidade da forte demanda doméstica pelo produto.
Os estoques de óleo de soja dos associados da NOPA recuaram para 883 mil toneladas ao final de abril, enquanto o consumo para produção de biocombustíveis segue avançando. O cenário continua indicando balanço apertado para o mercado americano, mesmo diante da expansão da capacidade industrial prevista para os próximos anos.
O prêmio local continua em queda, refletindo a grande oferta de óleo no mercado interno, e encerrou a semana em 21,40 cents/lb negativo. Assim, o óleo de soja FOB Paranaguá caiu 1,31%, para US$ 1.159,19/t. Veja o gráfico:

Mercado de palma monitora mudanças regulatórias na Indonésia
O óleo de palma recuperou parte das perdas recentes, com o contrato agosto negociado próximo de USD 1.131/tonelada, caminhando para interromper três semanas consecutivas de queda.
O foco do mercado permanece na decisão do governo indonésio de centralizar exportações de commodities estratégicas por meio da empresa estatal local. A transição começará em junho e deverá ser concluída em setembro, período durante o qual exportadores precisarão migrar gradualmente contratos e fluxos operacionais para o novo sistema.
Como a Indonésia responde por mais da metade da produção mundial de óleo de palma, qualquer alteração operacional possui potencial de impacto relevante sobre o comércio internacional. No curto prazo, existe risco de antecipação de embarques e aumento da volatilidade. No médio prazo, a combinação entre maior consumo doméstico associado ao programa B50 e possíveis restrições operacionais tende a manter suporte estrutural às cotações.
Biodiesel: liquidez melhora, mas preços continuam pressionados
Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot apresentou uma semana de baixa liquidez e preços em queda:
- Volume: 2.301 m³ (-34,00%)
- Preço médio: R$ 5.844/m³ (-2,14%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostraram que, entre 11 e 17 de maio, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 4.980,52/m³ subindo 0,12% em relação ao valor médio da semana anterior.
A Região Sudeste ficou com a maior variação positiva (+0,97%) e a região Norte apresentou a maior redução (-1,22%). No ano, o mercado acumula queda de 15,91%.

Safra recorde reforça disponibilidade de óleo de soja no Brasil
A revisão para cima das projeções da ABIOVE adicionou um novo componente estrutural ao mercado de biodiesel. A entidade elevou a estimativa de esmagamento de soja para um recorde de 62,5 milhões de toneladas em 2026, enquanto a produção brasileira da oleaginosa foi revisada para 180,13 milhões de toneladas. A produção de óleo de soja deverá alcançar 12,55 milhões de toneladas, com exportações projetadas em 1,6 milhão de toneladas.
Os números reforçam um cenário de elevada disponibilidade de matéria-prima para a indústria nacional de biodiesel justamente em um momento em que o mandato doméstico permanece limitado ao B15. O avanço do esmagamento, combinado à produção recorde de óleo, contribui para manutenção de excedentes no mercado interno e amplia a pressão sobre os preços do derivado.
De acordo com Cunha, a continuidade da volatilidade do petróleo diante das negociações entre Estados Unidos e Irã e a formalização do plano de testes que poderá permitir a validação de misturas de biodiesel até B25 no Brasil. Enquanto o petróleo segue determinando o comportamento dos mercados de energia e dos óleos vegetais, o ambiente doméstico passou a oferecer sinais mais concretos de avanço regulatório para o biodiesel.
O movimento ajuda a explicar a crescente expectativa do setor em torno da ampliação da mistura obrigatória. Com maior oferta doméstica de óleo de soja, diferencial econômico favorável frente ao diesel mineral e avanço regulatório nos testes para misturas superiores ao B15, o ambiente passou a oferecer condições mais consistentes para a discussão de novos aumentos no mandato.
Mercado entra em nova fase de atenção regulatória
Na prática, a semana consolidou dois movimentos estruturantes para o setor. De um lado, a continuidade da forte volatilidade do petróleo diante das negociações entre Estados Unidos e Irã manteve os mercados globais de energia e óleos vegetais extremamente sensíveis ao cenário geopolítico. De outro, a formalização do plano de testes para validação de misturas até B25 representou o primeiro sinal concreto de avanço regulatório dentro da agenda da Lei do Combustível do Futuro.
A combinação entre petróleo ainda sustentado, aumento da dependência global por segurança energética, recorde de oferta de soja e maior disponibilidade de óleo cria um ambiente potencialmente mais favorável para a expansão do biodiesel no Brasil.
Embora não exista qualquer indicação oficial de mudança imediata na mistura obrigatória, o tema deve permanecer no centro das discussões do mercado nas próximas semanas, especialmente diante da percepção de que o setor já começa a construir as bases técnicas e econômicas para futuras elevações do mandato.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 17 a 21/05/2026