Produção de etanol pode crescer com sobra de açúcar enquanto preço tende a cair diante do novo equilíbrio do mercado energético

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Excedente global de açúcar nas safras 2025/26 e 2026/27 pressiona preço internacional e leva usinas brasileiras a ampliarem a produção de etanol como estratégia no mercado energético. O mercado internacional entrou em uma fase de maior abundância que pode redefinir as estratégias do setor sucroenergético até 2027, diz nota do “CPG”. Projeções para as safras 2025/26 e 2026/27 indicam superávits consecutivos de açúcar, resultado da recuperação produtiva no Brasil e da expansão da oferta em países como Índia e Tailândia. Esse cenário altera o equilíbrio entre oferta e demanda e reduz a probabilidade de novos picos de preços no curto prazo.

No dia 25 de fevereiro, os contratos futuros de açúcar bruto negociados em Nova York para março de 2027 orbitam a faixa de 15 centavos de dólar por libra-peso, patamar consideravelmente inferior aos níveis registrados durante o ciclo recente de escassez. Em Londres, o açúcar branco mantém prêmio moderado, acima de US$ 400 por tonelada, refletindo custos de refino e diferenciais logísticos. Ainda assim, a curva futura sugere estabilidade com viés de pressão, não um novo ciclo altista sustentado.

Produção de etanol como válvula de ajuste em um mercado energético mais competitivo

Diante desse contexto, a produção de etanol volta ao centro das decisões estratégicas das usinas brasileiras. A combinação entre excedente de açúcar, ajuste de preço e mudanças no mercado energético cria um ambiente de maior complexidade para o planejamento industrial e financeiro do setor.

O Brasil possui uma das indústrias mais flexíveis do mundo no processamento de cana-de-açúcar. No Centro-Sul, as usinas conseguem ajustar o mix produtivo entre açúcar e etanol conforme as condições de mercado. Essa capacidade de adaptação torna a produção de etanol um instrumento essencial de gestão de risco.

Quando o preço internacional do açúcar perde força, direcionar maior volume de cana para biocombustível pode preservar margens. Os contratos futuros de etanol hidratado negociados na B3 para 2026 mostram níveis mais deprimidos no curto prazo, mas com recuperação projetada para 2027. Ao converter esses valores para dólar e comparar com o equivalente energético do açúcar, as margens se mostram relativamente próximas.

Isso significa que o diferencial que historicamente favoreceu o açúcar em momentos de alta internacional hoje é mais estreito. Nesse ambiente, ampliar a produção de etanol não representa apenas uma decisão comercial, mas uma estratégia de proteção diante da volatilidade do mercado energético.

Relação entre açúcar, preço e câmbio redefine rentabilidade das usinas

A equação econômica do setor sucroenergético depende de três variáveis centrais: preço internacional do açúcar, valor doméstico do etanol hidratado e taxa de câmbio. Essas forças atuam simultaneamente e podem alterar rapidamente a rentabilidade de cada produto.

Um real mais depreciado funciona como amortecedor, pois sustenta a atratividade das exportações mesmo em cenário de preço internacional mais fraco. Já uma eventual valorização cambial, combinada ao excedente global, tende a pressionar as receitas em moeda local e reduzir margens.

O comportamento do açúcar nas bolsas internacionais também influencia decisões de hedge e travas futuras. A inclinação suave das curvas atuais indica que o mercado precifica estabilidade, sem sinais claros de aperto estrutural até 2027. Para o produtor brasileiro, isso exige disciplina financeira e leitura constante das variáveis macroeconômicas.

Mercado energético doméstico absorve parte da produção de etanol

O mercado energético brasileiro desempenha papel estratégico na absorção de maior volume de etanol. A ampla frota de veículos flex permite que consumidores escolham o combustível com base no preço relativo, o que amplia a capacidade de ajuste do setor.

Além disso, o Brasil mantém políticas públicas voltadas à expansão dos biocombustíveis, como o RenovaBio, que estabelece metas de descarbonização e gera créditos de carbono negociáveis. Esse instrumento fortalece a produção de etanol como componente estruturante da transição energética e amplia sua relevância dentro do mercado energético nacional.

Se o excedente global de açúcar persistir nas safras 2025/26 e 2026/27, o etanol tende a funcionar como válvula de escape econômica e regulatória, reduzindo a pressão sobre exportações e contribuindo para o reequilíbrio gradual do setor.

Estratégia de mix produtivo diante do novo equilíbrio do mercado energético

A decisão entre cristalizar açúcar ou direcionar a matéria-prima para produção de etanol envolve cálculos complexos. As usinas avaliam custos industriais, logística, demanda interna, comportamento do câmbio e perspectivas de preço no mercado energético global.

Com o açúcar bruto em torno de 15 centavos de dólar por libra-peso nos contratos de março de 2027 e o açúcar branco acima de US$ 400 por tonelada em Londres, o cenário atual aponta para um mercado abastecido. Isso não caracteriza crise, mas sim um ciclo de normalização após anos de volatilidade intensa.

Ao ampliar o mix para etanol, o Brasil pode reduzir marginalmente a oferta exportável de açúcar. Esse movimento tem potencial de contribuir para um ajuste gradual do mercado internacional, ao mesmo tempo em que fortalece o caixa das usinas por meio das vendas domésticas de biocombustível.

Contudo, existem limites para essa estratégia. A capacidade de absorção do mercado energético interno, a competitividade frente à gasolina e a política de preços continuam sendo determinantes.

Eficiência operacional torna-se condição básica em cenário de preço mais ajustado

Em um ambiente de oferta abundante e preço menos exuberante, eficiência operacional deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser requisito mínimo de sobrevivência. Custos agrícolas, produtividade da cana, rendimento industrial e logística de exportação ganham peso ainda maior nas decisões estratégicas.

A produção de etanol pode oferecer maior previsibilidade de receita quando comparada ao açúcar em momentos de pressão internacional. No entanto, essa vantagem depende da manutenção da demanda doméstica e da estabilidade regulatória no mercado energético.

Empresas que adotam estratégias de hedge e proteção cambial conseguem reduzir riscos associados à volatilidade externa. Em um cenário de superávit global nas safras 2025/26 e 2026/27, a disciplina financeira se torna elemento central para atravessar o ciclo com margens sustentáveis.

O novo equilíbrio não elimina riscos climáticos, geopolíticos ou macroeconômicos. Porém, indica um período de maior racionalidade na formação de preço, com menos espaço para movimentos abruptos como os observados recentemente.

Perspectivas até 2027 e o posicionamento estratégico do setor sucroenergético

O horizonte até 2027 aponta para uma fase de normalização no mercado energético global. O excedente de açúcar reduz a probabilidade de picos extremos de preço, enquanto a produção de etanol ganha relevância como instrumento de ajuste do mix produtivo.

Para o Brasil, maior exportador mundial, o desafio não se resume ao preço internacional. Trata-se de alocar a cana de forma eficiente entre açúcar e etanol, considerando câmbio, demanda interna e expectativas futuras. A vantagem competitiva estrutural do país permanece sólida, sustentada por escala produtiva, tecnologia agrícola e flexibilidade industrial.

A interação entre produção de etanol, açúcar, preço e mercado energético será decisiva para a rentabilidade do setor nos próximos anos. Mais do que escolher entre um produto ou outro, as usinas precisarão calibrar continuamente suas decisões diante de um ambiente global mais integrado e competitivo.

Esse movimento não representa uma ruptura estrutural, mas sim uma adaptação estratégica a um ciclo de oferta mais ampla e preço mais comportado. Em um mercado energético em transformação, a capacidade de ajustar rapidamente o mix produtivo continuará sendo o principal ativo do setor sucroenergético brasileiro.

Fonte: CPG