Petróleo elevado e fundamentos estruturais reforçam pressão por aumento da mistura de biodiesel

O mercado de petróleo permaneceu como principal vetor da semana, sustentado pela ausência de avanços concretos nas negociações entre Estados Unidos e Irã e pela continuidade das tensões no Estreito de Ormuz. O Brent encerrou a semana a USD 109,26/bbl (+3,35% no dia), acumulando alta semanal de 7,87%, enquanto o WTI fechou a USD 101,02/bbl (+4,23%), com ganho de 5,89% no período.

A combinação entre risco geopolítico elevado, restrições logísticas e déficit global projetado pela IEA — com perdas acumuladas superiores a 1 bilhão de barris — mantém o mercado físico apertado. Mesmo com esforços diplomáticos, a falta de medidas concretas para reabertura plena do fluxo pelo Golfo sustenta o petróleo em patamares elevados, reforçando seus efeitos sobre combustíveis e biocombustíveis.

“Sem medidas concretas para normalização plena do fluxo no Golfo Pérsico, o petróleo deve continuar sustentado — mantendo pressão sobre diesel, combustíveis e biocombustíveis”, explica Cunha.

Óleo de soja: volatilidade de curto prazo, mas fundamentos seguem construtivos

O óleo de soja apresentou volatilidade ao longo da semana, influenciado por fatores macroeconômicos e pela frustração nas negociações entre EUA e China. O contrato julho encerrou a 73,88 cents/lb (-0,59%). Apesar do ajuste, os fundamentos seguem firmes. Nos Estados Unidos:

embarques semanais ficaram em apenas 700 toneladas;

queda de 44% semana contra semana;

retração de 81% frente à média de quatro semanas;

acumulado anual em 368,5 mil toneladas (-66% a/a).

“O cenário reforça a perda de competitividade externa e, principalmente, o redirecionamento da oferta para o mercado doméstico de biocombustíveis”, relata.

O relatório WASDE de maio consolidou a percepção de demanda estruturalmente forte para energia renovável. O USDA elevou a projeção de uso de óleo de soja para biocombustíveis para:

8,07 milhões de toneladas (+25,4%)

Além disso, o relatório aponta:

crescimento expressivo do esmagamento;

fortalecimento do setor energético como principal vetor de demanda.

O biodiesel segue ampliando protagonismo na formação de preços do complexo soja. O prêmio local encerrou a semana em 20,40 cents/lb negativo e dessa forma o óleo de soja FOB Paranaguá subiu 1,25%, para US$ 1.179,03/t. Veja o gráfico:

Óleo de palma: demanda fraca no curto prazo, suporte estrutural no médio prazo

O óleo de palma seguiu pressionado, com o contrato julho negociado próximo de USD 1.119/ton e acumulando a terceira semana consecutiva de queda (-1,74%). A fraqueza da demanda, especialmente na Ásia, continua sendo o principal fator de pressão, com destaque para a Índia, onde as importações recuaram para 513 mil toneladas (-26% m/m). As exportações da Malásia também mostraram desempenho fraco no início de maio.

Por outro lado, o cenário estrutural segue positivo. A elevação dos mandatos de biodiesel no Sudeste Asiático deve desviar 2,8 milhões de toneladas adicionais de óleo de palma em 2026, com destaque para o B50 na Indonésia, o que tende a apertar o balanço global no médio prazo.

Biodiesel: liquidez melhora, mas preços continuam pressionados

Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot apresentou melhora no volume negociado:

  • Volume: 3.487 m³ (+8,96%)
  • Preço médio: R$ 5.972/m³ (-0,44%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que, entre 04 e 10 de maio, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 4.973,76/m³ queda de 1,13%% em relação ao valor médio da semana anterior. A última vez que o preço médio ficou abaixo de R$5.000 foi em julho de 2024.

A Região Norte ficou com a maior variação positiva (+1,52%) e a região Sudeste apresentou a maior redução (-2,20%). No ano, o mercado acumula queda de 16,02%.

Biodiesel: fundamentos fortalecem probabilidade de avanço da mistura

O mercado brasileiro de biodiesel segue robusto, com contratação de cerca de 1,75 milhão de m³ para o 3º bimestre, o segundo maior volume da história do setor . Esse volume é suficiente para garantir aproximadamente 11,6 milhões de m³ de diesel B, evidenciando a relevância crescente do biocombustível na matriz energética.

Ao mesmo tempo, o óleo de soja mantém posição dominante como matéria-prima, com participação estimada em torno de 70% em 2026, sustentado pela expansão da demanda doméstica e pelos mandatos regulatórios globais.

Esse conjunto de fatores — petróleo elevado, oferta abundante de soja no Brasil e crescimento estrutural da demanda — cria um ambiente favorável ao avanço da mistura. Essa combinação de fundamentos econômicos e pressão setorial aumenta a pressão para o anúncio do aumento da mistura no curto prazo, como resposta à necessidade de reduzir custos e dependência de diesel importado.

Para a próxima semana, o mercado deve permanecer altamente sensível aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, que seguirá ditando o comportamento do petróleo. Ao mesmo tempo, cresce a atenção para possíveis sinais do governo brasileiro sobre o aumento da mistura de biodiesel, diante de um ambiente em que fundamentos econômicos e pressões de abastecimento convergem para essa direção.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 10 a 14/05/2026