Brasil: biocombustíveis viram vantagem competitiva global

O Brasil construiu, ao longo de décadas, um dos modelos mais consistentes de descarbonização do transporte no mundo, baseado na combinação de diferentes rotas renováveis. Etanol, biodiesel e, mais recentemente, o biometano formam uma matriz energética diversificada, capaz de reduzir emissões sem exigir rupturas na infraestrutura ou na frota.

Esse protagonismo começou ainda nos anos 1970, com o lançamento do Proálcool, programa que estruturou a cadeia do etanol a partir da cana-de-açúcar e consolidou um mercado interno robusto para biocombustíveis. Desde então, o país evoluiu para um ecossistema integrado que conecta produção agrícola, indústria, logística e distribuição.

Hoje, essa base permite ao Brasil operar em escala. Em 2023, a produção combinada de etanol e biodiesel superou 43 bilhões de litros, colocando o país em posição de destaque global. Diferentemente de outros mercados, onde iniciativas ainda são pontuais, o Brasil adota há anos políticas de mistura obrigatória, como os 30% de etanol anidro na gasolina, além do uso de veículos flex, amplamente disseminados.

Essa estratégia também se apoia na diversificação das rotas. O biodiesel avança no transporte pesado, enquanto o biometano surge como alternativa promissora, com potencial para substituir até 70% do diesel até 2040, segundo estudos do Instituto MBCBrasil.

Além da escala, o diferencial brasileiro está na eficiência ambiental. O etanol de cana pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação aos combustíveis fósseis, reforçando seu papel na transição energética.

O modelo brasileiro ganha relevância em um cenário global marcado por volatilidade no petróleo e busca por segurança energética. Enquanto países ainda discutem caminhos tecnológicos, o Brasil já opera um sistema híbrido consolidado.

O próximo desafio, no entanto, será garantir expansão com previsibilidade. O crescimento projetado — que pode multiplicar a produção de etanol em até 2,4 vezes até 2040 — dependerá de investimentos, avanço regulatório e desenvolvimento de infraestrutura.

Se esses vetores avançarem de forma coordenada, o Brasil não apenas manterá sua liderança, mas poderá se consolidar como referência global na transição para uma matriz de transporte mais limpa, eficiente e competitiva.

Fonte: Valor Econômico – Veja matéria na íntegra aqui