DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 10 a 14/08/2026
Depois de semanas em que a geopolítica dominou as decisões, o mercado volta a olhar com mais atenção para os fundamentos.
O que realmente mudou nesta semana?
• O petróleo voltou a subir com a redução das expectativas de reabertura do Estreito de Ormuz, mas encerrou a semana pressionado por estoques elevados nos Estados Unidos e revisões mais fracas para a demanda global;
• O WASDE de agosto reforçou a perspectiva de crescimento da demanda norte-americana, principalmente para biocombustíveis, ajudando a sustentar o mercado mesmo diante de maior oferta de soja;
• A Indonésia começa a mostrar os primeiros efeitos estruturais do B50, com redução das projeções de exportação diante do aumento do consumo doméstico;
• No Brasil, as resoluções do CNPE consolidaram a exclusão do biodiesel importado da mistura obrigatória, simplificaram o mercado voluntário e ampliaram os instrumentos de fiscalização da ANP;
• O cronograma para novos avanços permanece incerto. O governo prevê concluir os testes até B20 em fevereiro de 2027, enquanto produtores defendem a adoção do B16 ainda em 2026;
• A Conab reduziu a projeção de esmagamento após o adiamento do B16. Em sentido contrário, as exportações brasileiras de óleo de soja atingiram, em julho, o maior volume em mais de três anos;
“A demanda por biocombustíveis continua oferecendo suporte estrutural aos óleos vegetais, mas a oferta abundante na América do Sul e a incerteza sobre a evolução da mistura brasileira mantêm o mercado dividido entre fundamentos altistas e maior disponibilidade de produto.” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
Petróleo mantém prêmio de risco, mas demanda limita avanço
O Brent encerrou a quinta-feira a US$ 88,52/barril, alta de 5,95% na semana, refletindo a permanência das restrições no Estreito de Ormuz e o impasse entre Estados Unidos e Irã. O tráfego continua muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito, mantendo elevados os custos logísticos e o prêmio de risco sobre a energia.
A valorização encontrou limites nos fundamentos de demanda. Os estoques comerciais americanos aumentaram 17,4 milhões de barris na semana, para 424,4 milhões, enquanto OPEP e EIA revisaram para baixo suas expectativas para o consumo global. Ao mesmo tempo, ataques a refinarias russas e à unidade saudita de Jazan continuam pressionando a oferta de derivados.
Segundo análise da SCA Brasil, o petróleo permanece sustentado pela geopolítica, mas o foco de atenção começa a migrar para os derivados. Novas perdas de capacidade de refino na Rússia e no Oriente Médio podem manter o diesel internacional pressionado mesmo diante de uma eventual acomodação do Brent.
WASDE reforça demanda estrutural por óleo de soja nos EUA
O relatório WASDE de agosto trouxe uma leitura mista para o complexo soja. O USDA elevou a produção americana de soja para 2026/27, mas também aumentou a expectativa de esmagamento e de consumo de óleo.
A demanda dos Estados Unidos por óleo de soja destinado aos biocombustíveis foi projetada em 8,07 milhões de toneladas em 2026/27, crescimento de aproximadamente 22% sobre a temporada anterior. O consumo total de óleo deverá alcançar 15,02 milhões de toneladas.
Os números reforçam a perspectiva de que o óleo de soja recupere participação na matriz norte-americana de matérias-primas para combustíveis renováveis, apoiado pelas metas mais elevadas do RFS e pelas mudanças no crédito 45Z.
Apesar desse suporte, a ampla disponibilidade do complexo soja limitou movimentos mais intensos de valorização. O contrato de setembro do óleo de soja encerrou a semana cotado a 68,44 cents/lb em Chicago, alta de 1,76%. Em Paranaguá, o preço FOB permaneceu praticamente estável na semana, com a queda do basis compensando a valorização observada em Chicago.

Na opinião de Filipe Cunha, head comercial biodiesel, a maior disponibilidade de soja limita movimentos de alta do grão, mas o crescimento projetado do esmagamento e do consumo doméstico reduz o efeito baixista sobre o óleo de soja.
B50 começa a redesenhar o mercado internacional do óleo de palma
A implementação do B50 na Indonésia começa a aparecer nas projeções de oferta global. O USDA/FAS reduziu a estimativa de exportações indonésias de óleo de palma em 2026/27 para 23,7 milhões de toneladas, diante do aumento do consumo doméstico destinado ao biodiesel.
Na Malásia, entretanto, os estoques subiram 3,3% em julho, para 2,63 milhões de toneladas, maior nível em cinco meses, mantendo pressão sobre o mercado no curto prazo.
A demanda física oferece contraponto. As importações indianas de óleos vegetais cresceram 33% em julho, para aproximadamente 1,5 milhão de toneladas, com avanço de 50% nas compras de palma e de 31% no óleo de soja.
“O mercado de palma permanece dividido. Os estoques elevados na Malásia limitam os preços no curto prazo, enquanto B50 e recuperação da demanda indiana apontam para um balanço potencialmente mais apertado no segundo semestre”, analisa Cunha.
Biodiesel sobe no Brasil
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 03 e 09 de agosto, o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidoras, ficou em R$ 5.281,56/m³, alta de 2,05% em relação à semana anterior.
A Região Centro-Oeste registrou o único recuo nos preços de (-0,11%), enquanto as maiores valorizações ocorreram nas Região Norte (+3,92%) e Sul (+2,90%).
Apesar da recuperação recente, o mercado acumula queda de 10,83% em 2026.

O levantamento da SCA Brasil apontou recuo na movimentação do mercado spot na semana.
Volume: 1.540 m³ (-7,23%)
Preço médio: R$ 6.151/m³ (+0,88%)
Ainda de acordo com a SCA Brasil, a combinação entre menor volume negociado e preços ligeiramente mais elevados reforça um cenário de liquidez ainda limitada no spot, enquanto os agentes acompanham as definições regulatórias e a evolução da demanda doméstica.

B16 adiado: Brasil exporta mais óleo de soja e reduz esmagamento
O adiamento do B16 começa a aparecer de forma mais evidente no balanço brasileiro do complexo soja. A Conab reduziu em 435 mil toneladas sua projeção para o esmagamento de soja em 2026, agora estimado em aproximadamente 62,1 milhões de toneladas.
Com menor absorção doméstica, aumentou a disponibilidade de óleo para o mercado internacional.
Em julho, o Brasil exportou 317,5 mil toneladas de óleo de soja, mais que o dobro do volume registrado em junho e cerca de 130% acima do observado no mesmo período do ano anterior. No acumulado de janeiro a julho, os embarques alcançaram 1,37 milhão de toneladas, crescimento de 44,7%.
Segundo análise da SCA Brasil, a manutenção do B15 amplia o excedente exportável brasileiro justamente em um momento de menor presença dos Estados Unidos no comércio internacional de óleo de soja. Uma eventual antecipação do B16 mudaria novamente esse balanço, direcionando maior volume para o mercado doméstico e alterando a dinâmica entre esmagamento, consumo e exportação.
Novas regras fortalecem mercado nacional de biodiesel
A publicação das resoluções aprovadas pelo CNPE em julho consolidou mudanças relevantes para a cadeia brasileira de biodiesel.
O biodiesel destinado ao atendimento da mistura obrigatória deverá ser produzido exclusivamente por unidades nacionais autorizadas pela ANP, excluindo o produto importado desse mercado.
Também foi formalizada a simplificação das regras para o uso voluntário de misturas superiores ao mandato obrigatório. A antiga Resolução CNPE nº 3/2015 foi revogada, permitindo que a regulamentação prevista na Lei do Combustível do Futuro discipline diretamente esses usos.
Outra resolução ampliou os instrumentos de fiscalização da ANP, fortalecendo o acompanhamento das atividades dos agentes, dos estoques e da movimentação de combustíveis.
Na opinião de Filipe Cunha, head comercial biodiesel da SCA Brasil, as medidas aumentam a previsibilidade para a indústria nacional e fortalecem o ambiente regulatório. Ao mesmo tempo, a simplificação das regras para misturas voluntárias pode contribuir para o desenvolvimento de novos mercados e ampliar as possibilidades de utilização do biodiesel.
Evolução da mistura continua sem cronograma definido
Se a regulação avançou em diferentes frentes, uma das principais perguntas do mercado permanece sem resposta: quando ocorrerá o próximo aumento da mistura obrigatória?
O Ministério de Minas e Energia informou que os testes técnicos para misturas de biodiesel até B20 deverão ser concluídos em fevereiro de 2027. Dependendo dos resultados, a aprovação poderá ocorrer diretamente ou exigir ajustes regulatórios adicionais.
O governo também afirmou que ainda não há definição sobre qual será o próximo aumento da mistura. Embora a Lei do Combustível do Futuro preveja evolução gradual até o B20 em 2030, o CNPE possui autonomia para definir o ritmo e eventualmente aprovar aumentos superiores a um ponto percentual.
Os produtores, por sua vez, defendem a conclusão antecipada de parte dos ensaios para permitir a adoção do B16 ainda em 2026.
“O cronograma da mistura é hoje uma das variáveis mais importantes para o balanço doméstico. Cada avanço do mandato significa maior demanda por biodiesel, maior absorção de óleo vegetal no mercado interno e menor excedente disponível para exportação. Por isso, qualquer sinalização sobre o B16 tende a ter impacto imediato nas expectativas da cadeia”, frisa Cunha.
O que observar na próxima semana?
De acordo com a SCA Brasil, o mercado continuará acompanhando a evolução das negociações sobre o Estreito de Ormuz e os impactos dos ataques à infraestrutura de refino sobre a oferta internacional de diesel.
Nos Estados Unidos, o foco seguirá na evolução da safra de soja e na reação do mercado às novas projeções de demanda por óleo para biocombustíveis.
Na Ásia, o foco estará na recuperação das importações indianas e nos primeiros efeitos do B50 indonésio sobre a disponibilidade exportável de óleo de palma, especialmente diante dos estoques elevados na Malásia.
No Brasil, porém, uma variável continua capaz de alterar rapidamente o equilíbrio entre produção, consumo e exportação: a definição sobre o próximo avanço da mistura obrigatória de biodiesel.
“O mercado está entrando em uma fase em que petróleo, disponibilidade de óleos vegetais e política de biocombustíveis voltam a se conectar de maneira muito direta. No Brasil, qualquer avanço na definição da mistura poderá mudar rapidamente o balanço de biodiesel e óleo de soja”, finaliza Cunha.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 10 a 14/08/2026