Agenda do biodiesel avança em meio à volatilidade do petróleo

O mercado internacional voltou a conviver com elevada volatilidade após a retomada das tensões entre Estados Unidos e Irã. Veja o que realmente mudou nesta semana:

• A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a elevar o prêmio de risco do petróleo, sustentando temporariamente os preços dos óleos vegetais.
• O aumento dos estoques de óleo de palma na Malásia limitou parte da valorização do complexo de óleos, reforçando um viés mais baixista para a commodity no curto prazo.
• Nos Estados Unidos, a demanda doméstica por óleo de soja continua robusta, mantendo as exportações em níveis reduzidos e sustentando os fundamentos do mercado.
• No Brasil, o avanço das medidas de fiscalização da ANP e a reunião do CNPE mantêm o ambiente regulatório no centro das atenções do setor de combustíveis.

Os ataques envolvendo o Estreito de Ormuz voltaram a incorporar prêmio de risco às cotações do Brent, que encerrou a semana acumulando valorização próxima de 6%, enquanto o mercado permaneceu monitorando possíveis impactos sobre o fluxo global de petróleo e derivados. Apesar da escalada militar, declarações da Casa Branca indicando cautela quanto à infraestrutura energética iraniana limitaram movimentos ainda mais intensos dos preços.

As incertezas também influenciaram as perspectivas de médio prazo. A Agência Internacional de Energia (IEA) manteve expectativa de superávit global de oferta para 2027, mas condicionou esse cenário à normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz, reforçando que a geopolítica continuará sendo um importante vetor de volatilidade enquanto persistirem os conflitos na região.

“Enquanto o petróleo continua ditando os movimentos de curto prazo, são os fundamentos do óleo de soja e a agenda regulatória brasileira que moldam as expectativas para o mercado de biodiesel”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Óleo de soja encontra suporte na demanda por biocombustíveis e volta a subir

O mercado de óleo de soja acompanhou as oscilações do petróleo ao longo da semana, encerrando o período relativamente sustentado pela combinação entre maior demanda doméstica nos Estados Unidos e novos dados do relatório WASDE do USDA. Embora tenham ocorrido realizações de lucros em alguns pregões, os fatores estruturais do complexo soja permanecem favoráveis.

Nos Estados Unidos, o consumo interno continua absorvendo parcela crescente da produção, refletindo os mandatos de biocombustíveis e reduzindo significativamente as exportações do óleo de soja em relação à temporada anterior. Paralelamente, as compras chinesas de soja americana e a manutenção do status renovável do óleo de soja pela União Europeia preservam importantes vetores de demanda para o complexo.

Os contratos de óleo de soja negociados na Bolsa de Chicago encerraram a semana em 70,46 cents/lb, com valorização de 5,53%. No Brasil, o recuo do basis compensou parte dessa alta, mas o óleo de soja FOB Paranaguá manteve trajetória de valorização ao longo da semana. Veja o gráfico abaixo:

Óleo de palma perde força no curto prazo, mas fundamentos seguem positivos

Após três semanas consecutivas de recuperação, o óleo de palma encontrou maior resistência diante do avanço dos estoques na Malásia, que atingiram o maior nível para um mês de junho desde fevereiro. A recuperação da produção superou o crescimento das exportações, reforçando um viés baixista no curto prazo.

“O mercado continua encontrando suporte na expectativa de aumento do consumo interno da Indonésia com a implementação do programa B50 e nas preocupações climáticas relacionadas ao El Niño”, pontua Cunha.

Agenda regulatória ganha força e amplia atenção sobre o mercado de biodiesel

A agenda regulatória voltou a ocupar posição central nas discussões do setor de biodiesel. O avanço, no Senado, do projeto que amplia o acesso da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis às notas fiscais eletrônicas dos agentes regulados representa um passo importante para fortalecer a fiscalização do mercado de combustíveis, ampliar a capacidade de combate a fraudes e aumentar a integração entre a ANP, a Receita Federal e os fiscos estaduais.

Ao mesmo tempo, cresce a expectativa em torno da próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que deverá discutir temas estratégicos para a cadeia de biodiesel. Entre os principais assuntos estão a revogação das regras para comercialização voluntária acima da mistura obrigatória, possíveis ajustes no Selo Biocombustível Social, medidas de combate às fraudes no setor e a revisão das normas para importação de biodiesel destinado ao atendimento da mistura obrigatória.

“Minha leitura de mercado é que além das variáveis de oferta e demanda, o ambiente regulatório passa a exercer influência crescente sobre o setor. As decisões que poderão ser tomadas pelo CNPE têm potencial para alterar a dinâmica concorrencial, fortalecer os mecanismos de fiscalização e redefinir aspectos importantes da política nacional de biodiesel nos próximos meses”, analisa Cunha.

Mercado Spot: recuperação do volume ainda não altera cenário de baixa liquidez

Segundo levantamento da SCA Brasil, o volume spot apresentou uma melhora no volume:

• Volume: 3.047 m³ (+45,10%)
• Preço médio: R$ 5.988/m³ (-0,91%)

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 29 de junho e 05 de julho, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 5.085,56/m³, recuou de 0,57% na semana.

As maiores desvalorizações ocorreram nas regiões Centro-Oeste (-1,60%) e Sudeste (-1,18%). O mercado acumula queda de 14,13% no ano. O comportamento dos preços continua refletindo o ambiente de maior oferta observado no mercado doméstico ao longo do ano.

Diesel: restrição nas exportações russas reacende alerta para o abastecimento global

O mercado internacional de diesel voltou a operar sob pressão após a Rússia anunciar a suspensão temporária de parte de suas exportações, em resposta aos ataques sofridos por seu parque de refino. Como um dos principais fornecedores mundiais do combustível, a medida elevou as preocupações com a oferta global e voltou a sustentar as margens internacionais de refino.

Para o Brasil, o cenário merece atenção especial. O país continua fortemente dependente das importações para complementar o abastecimento interno e, atualmente, cerca de 75% do diesel importado tem origem na Rússia. Além disso, os dados mais recentes apontam uma redução nas compras externas ao longo de junho, aumentando a sensibilidade do mercado a possíveis interrupções no fornecimento.

Embora os contratos de longo prazo reduzam os impactos imediatos, uma restrição prolongada das exportações russas pode elevar os custos de importação e acelerar a busca por fornecedores alternativos.

O que observar na próxima semana

A próxima semana será marcada pelo acompanhamento da evolução do conflito no Oriente Médio, pelos desdobramentos da reunião do CNPE e pela divulgação de novos indicadores do mercado internacional de óleos vegetais. Também permanecerão no radar a demanda por óleo de soja nos Estados Unidos e o comportamento das importações brasileiras de diesel, fatores que continuarão influenciando as expectativas do setor.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 06 a 10/07/2026