DE OLHO NO BIODIESEL
BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – SCA Brasil
27 a 30/04/2026
Petróleo dispara e reacende pressão sobre o biodiesel
O mercado global voltou a operar sob estresse elevado, com o petróleo retomando protagonismo diante da escalada no Oriente Médio. O prolongamento do conflito e a manutenção do bloqueio no Estreito de Ormuz recolocaram o risco de oferta no centro da precificação — e os reflexos já se espalham por toda a cadeia de biocombustíveis.
Petróleo: prêmio de risco elevado e déficit global no radar
O Brent chegou a testar USD 126/bbl ao longo da semana, recuando posteriormente para a faixa de USD 110–114/bbl, ainda em patamares historicamente elevados. O movimento é sustentado por dois vetores principais:
• Escalada geopolítica persistente, com risco concreto de interrupção prolongada de fluxos
• Déficit global estimado entre 4 e 6 milhões de barris/dia, com cerca de 10% da oferta fora do mercado
A volatilidade segue intensa, amplificada por rumores de negociações e possíveis intervenções dos EUA. Ainda assim, o consenso de mercado aponta para manutenção das restrições no curto prazo, o que sustenta o petróleo em níveis elevados.
“Não se trata de pico pontual, mas de um novo patamar de risco — com impacto direto sobre combustíveis e inflação global”, analisa Filipe Cunha.
Óleo de soja: energia + política impulsionam demanda estrutural
O óleo de soja acompanhou o rali energético, mas o diferencial está nos fundamentos internos dos Estados Unidos — que seguem altamente construtivos.
• Esmagamento: 214 milhões de bushels (recorde para fevereiro)
• Estoques: +35% a/a, indicando maior produção
• Exportações: praticamente nulas (priorização do consumo doméstico)
O ponto-chave está na combinação de fatores:
➡️ Alta do diesel (heating oil) elevando o oil share
➡️ Incentivos regulatórios (RVO e crédito 45Z)
➡️ Expansão estrutural da demanda por biodiesel
“Esse conjunto mantém o óleo de soja altamente competitivo como feedstock energético, reforçando a absorção interna e sustentando preços”, opina Cunha.
Preços: Chicago em alta, Brasil pressionado por prêmio
O contrato julho/2026 em Chicago fechou a 74,54 cents/lb (+4,50%), refletindo o ambiente global de energia firme. No Brasil, o comportamento foi distinto:
• Prêmio local caiu para -22,0 cents/lb
• Óleo de soja FOB Paranaguá recuou -1,48% (US$ 1.158,31/t)
O movimento evidencia um ponto relevante: descolamento entre o suporte internacional e a pressão local, influenciada por dinâmica de prêmio e fluxo comercial. Veja o quadro abaixo:

Palma e biodiesel: fraqueza no curto prazo, aperto no horizonte
Enquanto o petróleo mantém o mercado em alerta, o óleo de palma e o biodiesel começam a sinalizar uma mudança relevante de ciclo — com fundamentos que apontam para maior aperto nos próximos meses, apesar de uma acomodação momentânea.
Óleo de palma: ajuste técnico agora, risco de escassez à frente
Os preços operaram de forma mais moderada, na faixa de USD 1.148–1.158/t, refletindo realização após altas recentes e queda nas exportações da Malásia (-15,3% m/m, para 1,40 milhão t). No entanto, o pano de fundo é mais apertado:
• Possível queda de 1 a 2 milhões t na produção da Indonésia em 2026
• Impactos climáticos associados ao El Niño
• Aumento expressivo nos custos de fertilizantes (+30% a +50%)
• Implementação do B50, retirando cerca de 2 milhões t do mercado exportador
“O curto prazo mostra alívio, mas o médio prazo aponta para redução de oferta global e suporte consistente aos preços”, analisa o especialista.
Mercado nacional de biodiesel
Levantamento da SCA Brasil aponta que o mercado spot apresentou movimentação um pouco melhor que a semana anterior:
Volume: 2.510 m³ (+58,4%)
Preço médio: R$ 6.199/m³ (-0,03%)

Em virtude do feriado do Dia do Trabalho, a ANP não publicou na sexta os preços médios de biodiesel.
Biodiesel: expectativa de anúncio do B16 ganha força
As vendas de biodiesel somaram 910,42 mil m³ em março, alta de 17,70% frente ao ano passado. Essa quantidade de biodiesel é suficiente para garantir a venda de aproximados 6,07 milhões de m³ de B15. No acumulado do primeiro trimestre, as vendas somaram 2,43 milhões de m³, uma alta de 10,82%.
De acordo com os dados divulgados pela ANP, as usinas reportaram ter fabricado um total de 893,60 mil m³ de biodiesel puro, alta de 9,08% sobre o mesmo mês de 2025. No acumulado do ano somaram 2,39 milhões de m³, alta de 10,21%. No mês. o óleo de soja ampliou a sua participação nas matérias-primas utilizadas na produção.
B16 no radar: mudança regulatória pode destravar demanda
Apesar do crescimento, o setor ainda opera sob o limite do B15. Isso pode mudar rapidamente. Declarações recentes do Presidente da República, indicam avanço para o B16, com reunião do Conselho Nacional de Política Energética marcada para 7 de maio. O contexto favorece a decisão:
• Petróleo em patamares elevados
• Maior competitividade do biodiesel
• Necessidade de reduzir importações de diesel
Sinal de mercado: o setor já se posiciona como capaz de absorver o aumento imediato da mistura.
Diesel: pressão de preços acelera agenda dos biocombustíveis
As vendas de diesel B pelas distribuidoras no Brasil somaram:
• Vendas em março: 6,3 milhões m³ (+10,5% a/a)
• Diesel S10 com forte alta desde fevereiro
• Dependência estrutural de importações mantida
A atuação da ANP na revisão de subsídios busca ampliar a oferta, mas o cenário ainda é de preços elevados e alta volatilidade e reforça a necessidade de soluções estruturais — entre elas, o aumento da mistura de biodiesel.
Para a próxima semana, o foco estará na reunião do CNPE e na possível formalização do B16, além da evolução do conflito no Oriente Médio, que seguirá determinando o comportamento do petróleo e, consequentemente, dos óleos vegetais.
Ainda segundo Filipe Cunha, o petróleo caro reposiciona o jogo dos biocombustíveis e o atual cenário reforça uma tendência clara:
Energia fóssil mais cara → maior competitividade dos biocombustíveis
Políticas públicas + demanda interna → sustentação estrutural do óleo de soja
Volatilidade geopolítica → principal variável de risco no curto prazo.
Para o mercado, o sinal é direto: o biodiesel volta ao centro da estratégia energética — não apenas como alternativa, mas como ativo de segurança. O que antes era pressão pontual começa a se transformar em tendência:
• Óleos vegetais com suporte estrutural crescente
• Biodiesel ganhando espaço estratégico
• Diesel pressionado acelerando decisões políticas
“O setor entra em uma fase de transição — onde política energética e mercado passam a andar ainda mais juntos”, conclui Cunha.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 27 a 30/04/2026