
A fusão está concluída, os papéis assinados e o nome da nova companhia ainda em discussão. O que não falta, no entanto, é ambição. Dois meses depois de oficializar a integração entre a Massari Fértil, produtora de fertilizantes naturais com mina de calcário em Salto de Pirapora (SP), e a Morro Verde, controlada pela Ore Investments e produtora de fosfato em Pratápolis (MG), Sérgio Ailton Saurin, fundador e CEO do grupo resultante, traça uma estratégia para dobrar o faturamento combinado de R$ 500 milhões em até três anos. “O crescimento de R$ 1 bilhão em 3 anos vai ser um orçamento inicial. A gente vai ter um potencial de crescer muito mais”, afirma, diz nota do “MSN”.
A meta não surge do nada. A Massari registrou crescimento médio de 30% ao ano em sua história recente, segundo o executivo. A Morro Verde também acelerou o ritmo nos últimos períodos. O EBITDA combinado das duas empresas no último exercício chegou a cerca de R$ 100 milhões. E os executivos calculam que, ao atingir R$ 1 bilhão em receita, a companhia ainda estaria com participação de no máximo 2,5% a 3% do market share do setor de fertilizantes no Brasil, o que, na avaliação deles, indica a dimensão do espaço disponível para crescer.
Com 64 anos, trajetória iniciada no mercado financeiro, passagem por bancos de investimento e fundos de real estate, e uma virada de carreira há cerca de 12 anos para o agronegócio, Saurin apresenta a nova empresa como um projeto com horizonte de longo prazo. “O Brasil é um provedor de comida para o mundo”, diz. Para ele, o desafio central é construir um sistema agrícola menos dependente de cadeias globais e mais apoiado nos recursos minerais e biológicos disponíveis localmente.
A expansão geográfica do negócio já está em andamento antes mesmo da fusão se completar. A Massari operava com presença concentrada em São Paulo, Mato Grosso do Sul e no norte do país, com unidades em Formoso do Araguaia (TO) e Bodoquena (MS). Outras duas plantas estão em desenvolvimento, uma no Mato Grosso e outra em Goiás, além de uma no Paraná. Com a integração da Morro Verde, sediada em Minas Gerais, a companhia projeta cobrir cerca de 75% do potencial agrícola brasileiro em termos de área de influência.
O modelo não é de simples distribuição de insumos. A empresa se posiciona como fornecedora de “solução agronômica”, expressão repetida com frequência por Saurin. O portfólio da Massari conta com mais de 500 produtos registrados no Ministério da Agricultura (Mapa), desenvolvidos com base em análises de solo. “Somos quase uma farmácia de manipulação”, diz o CEO. A Morro Verde, por sua vez, traz reservas de fosfato natural reativo, a família de produtos comercialmente identificada como FNR. A Massari opera com a linha DGMS, calcário dolomítico micronizado com enxofre. A integração das duas linhas é o pilar central da proposta comercial da nova empresa.
A tese contra a dependência de importados
O modelo de negócios da companhia se apoia numa crítica direta ao padrão de abastecimento de fertilizantes adotado no Brasil. O país importa, segundo dados citados por Saurin, cerca de 40 milhões de toneladas de fertilizantes químicos por ano, com aproximadamente 80% a 90% da demanda nacional atendida por produtos vindos do exterior. Essa dependência expõe o produtor rural brasileiro à volatilidade cambial, a fretes internacionais e a riscos logísticos nos portos.
A proposta da empresa é avançar na substituição parcial desse volume por insumos produzidos a partir de minerais disponíveis no Brasil, combinando esse esforço com o desenvolvimento de biologia do solo.
“A agricultura tropical precisa começar a olhar mais para o seu próprio solo, para a região onde é que ela está atuando”, diz Saurin.
O argumento frequentemente levantado no setor é o de que o fosfato nacional tem teor mais baixo do que o importado. Saurin rejeita a premissa de que isso representa um obstáculo definitivo. Se uma rocha brasileira tem 15% de P2O5 total e uma importada tem 30%, o caminho seria trabalhar com volume maior de produto nacional, desde que o custo final e a eficiência agronômica justifiquem a troca. A companhia aposta que, com micronização, inovação em formulações e aplicação de biológicos para aumentar a solubilidade, é possível viabilizar essa substituição em escala comercial.
“Se eu pego um tricoderma, ele é um trator para liberar fósforo”, ilustra o CEO, referindo-se ao uso de fungos como ferramenta para potencializar a ação de rochas fosfatadas no solo. A estratégia combina, portanto, mineralogia, química e biologia, três frentes que Saurin apresenta como inseparáveis.
A Massari acumulou mais de 10 anos de pesquisa sobre comportamento de solos tropicais, com mais de 80 mil análises de solo realizadas em parceria com universidades brasileiras. A Escola Politécnica da USP reconheceu a empresa por sua operação de mineração em Salto de Pirapora, atraindo visitas internacionais interessadas no modelo de extração a seco.
Acordos com pesquisadores e instituições de ensino alimentam o desenvolvimento de produtos que integrem biológicos ao portfólio mineral. A empresa não pretende se tornar produtora de biológicos: a ideia é usar esses organismos como ferramentas para ampliar a eficiência dos fertilizantes minerais mistos.
Na governança, do ponto de vista societário, a companhia passa a operar com estrutura de governança próxima à de uma empresa de capital aberto, com conselho de administração e comitê executivo. George Fernandes, ex-presidente da Morro Verde e executivo com trajetória em fundos de private equity, agora COO, assume papel de liderança na integração das operações e no crescimento acelerado da companhia combinada.
A Ore Investments, controladora da Morro Verde, permanece como acionista relevante na nova estrutura. A meta de crescimento está vinculada, em parte, à necessidade de atrair capital para expansão. “Uma empresa que tem fundos de investimento como acionistas precisa crescer rápido”, diz Fernandes.
A empresa também analisa oportunidades fora do Brasil. Países com características de solo similares às dos trópicos brasileiros, como Paraguai, Bolívia e nações africanas, aparecem como mercados potenciais para exportação de tecnologia agronômica. A Indonésia também foi citada. A intenção não é transformar a companhia numa exportadora no sentido tradicional, mas levar o modelo de solução agronômica para qualquer produtor que opere em agricultura tropical.
Mas Saurin não ignora o contexto adverso, cenário vindo de um mercado de fertilizantes que enfrenta pressão sobre margens, com muitos distribuidores em dificuldades financeiras, inclusive em recuperação judicial. Produtores rurais vendem a preços baixos e compram insumos com custo elevado. No país, o câmbio desfavorável corrói a rentabilidade de quem depende de importações na cadeia produtiva.
A avaliação da empresa é que esse ambiente, apesar dos riscos que impõe, também abre caminho para uma mudança de modelo que em períodos de bonança teria menos urgência. “Todas as crises trazem oportunidades. Todo mundo fala isso, mas o fato é que não deixa de ser verdade”, diz Saurin.
Fonte: MSN