Etanol de milho pode dobrar produção e avança integrado à cana

A integração entre milho e cana-de-açúcar ganha espaço como estratégia para ampliar a produção brasileira de etanol, aumentar a utilização dos ativos industriais e diversificar as receitas das usinas.

Segundo Amaury Pekelman, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a tendência é que unidades originalmente projetadas para processar cana incorporem também o milho. “A grande tendência é quem já é uma indústria de cana agregar o milho”, afirmou em entrevista à Brasil Energia.

Produção pode chegar a 20 bilhões de litros

A Unem projeta que a produção brasileira de etanol de milho passe dos atuais cerca de 10 bilhões para 20 bilhões de litros em dez anos. Com a expansão, a participação do cereal na oferta nacional de etanol poderia avançar dos atuais 30% para 40% a 45%.

Novos projetos estão avançando em Mato Grosso do Sul, Maranhão e Minas Gerais, além das unidades já instaladas ou em implantação principalmente em Mato Grosso, Goiás e Paraná.

A expansão, entretanto, dependerá da competitividade regional. Pekelman destaca que os incentivos de ICMS concedidos por estados do Centro-Oeste foram importantes para atrair investimentos. Com o horizonte desses benefícios até 2032, fatores como produtividade, eficiência industrial e custos deverão ganhar ainda mais importância.

Integração reduz necessidade de novos investimentos

É nesse cenário que as usinas flex, capazes de processar cana e milho, ganham relevância. A utilização da infraestrutura existente e, principalmente, do bagaço da cana como fonte de energia pode reduzir a necessidade de investimentos adicionais em comparação com projetos totalmente independentes.

Segundo Mariana Freitas, da Fluid Quip Technologies, uma planta de milho integrada a uma unidade canavieira pode compartilhar a energia produzida a partir do bagaço e ampliar o aproveitamento dos ativos.

Um exemplo é a Usina Boa Vista, da São Martinho, cujo projeto de etanol de milho foi desenvolvido para compartilhar a estrutura energética da operação de cana.

Ainda assim, os investimentos são elevados. Mariana estima em aproximadamente R$ 700 milhões o CAPEX de uma planta integrada capaz de processar cerca de 1,7 mil toneladas de milho por dia, considerando armazenagem, tecnologias de menor consumo de vapor e soluções para maximizar o rendimento.

DDG e óleo de milho diversificam receitas

A viabilidade econômica não depende apenas da venda do etanol. De acordo com Pekelman, cerca de 30% do faturamento de uma usina de milho pode vir do DDG, coproduto destinado principalmente à alimentação animal. O processamento também gera óleo de milho, criando uma fonte adicional de receita.

Essa característica transforma as unidades em plataformas de processamento capazes de atender simultaneamente aos mercados de combustíveis, nutrição animal e outros segmentos industriais.

Mercado precisa crescer junto com a produção

O avanço da capacidade industrial também aumenta o desafio de encontrar demanda para o combustível. Entre as possibilidades estão exportações, combustíveis marítimos e, futuramente, a cadeia de SAF.

No mercado doméstico, Pekelman vê espaço para recuperar a participação do etanol hidratado na frota flex. Na avaliação do executivo, milho e cana não devem disputar mercado entre si: o principal concorrente permanece sendo a gasolina.

Modelo FlexFull amplia período de operação das usinas

A integração também pode modificar a geografia do setor. Luís Augusto Barbosa Cortez, professor da Unicamp e integrante do CCD Etanol, destaca que o milho pode ser produzido e processado em um número maior de regiões do que a cana, favorecendo a interiorização da produção de biocombustíveis.

Em São Paulo, pesquisadores estudam o conceito “FlexFull”, no qual a unidade processa cana durante sua safra e utiliza milho ao longo do ano. O modelo permite elevar a utilização dos equipamentos e reduzir a ociosidade industrial.

O desafio passa a ser a gestão do abastecimento do cereal. Diferentemente da cana, que precisa ser processada rapidamente após a colheita, o milho pode ser armazenado e utilizado de acordo com preços, disponibilidade e condições econômicas.

Nesse cenário, a complementaridade entre as duas matérias-primas tende a ganhar importância: a cana fornece infraestrutura e biomassa; o milho amplia o período operacional, a produção de etanol e a geração de coprodutos, criando uma nova configuração para a indústria brasileira de biocombustíveis.

Fonte: Brasil Energia – Veja na íntegra aqui