A escalada da guerra no Oriente Médio já força respostas diretas de grandes economias importadoras de petróleo — e a Indonésia dá um sinal claro de mudança estrutural ao adotar medidas emergenciais para reduzir o consumo de combustíveis fósseis e acelerar o uso de biodiesel.
Diante do risco de escassez, o governo anunciou uma combinação de ações que mistura restrição de consumo, eficiência energética e estímulo à transição. Entre elas, a adoção de trabalho remoto parcial no setor público — com expediente em casa às sextas-feiras no governo central e até dois dias por semana nas administrações locais — além do incentivo para que o setor privado siga o mesmo caminho. A expectativa é gerar economia de até 6,2 trilhões de rupias em dois meses, enquanto ações mais amplas de redução de consumo energético podem alcançar 59 trilhões de rupias.
No front do abastecimento, o país também implementa medidas mais duras, como o racionamento de combustíveis, com limite diário de 50 litros de gasolina para veículos leves. A decisão reflete a vulnerabilidade logística: a Indonésia importa cerca de um terço do petróleo que consome, sendo que 20% desse volume passava pelo Estreito de Ormuz — rota atualmente comprometida pelo conflito. Apesar disso, o governo afirma ter recomposto estoques acima do nível mínimo, com diversificação de fornecedores, incluindo os Estados Unidos.
O movimento mais estratégico, porém, está no avanço dos biocombustíveis. O governo confirmou a antecipação do programa B50, que elevará a mistura de biodiesel à base de óleo de palma de 40% para 50% já a partir de 1º de julho. A medida pode reduzir o consumo de combustíveis fósseis em até 4 milhões de quilolitros e gerar economia de cerca de 48 trilhões de rupias com a queda nas importações de petróleo.
Além disso, o pacote inclui cortes de gastos públicos, redução de viagens oficiais e ajustes em programas sociais, em uma tentativa de conter riscos fiscais em meio à crise energética global.
Na prática, a Indonésia sinaliza um reposicionamento claro: menos dependência do petróleo importado e maior protagonismo dos biocombustíveis na matriz energética. Para o mercado global, especialmente o setor de biodiesel, o movimento reforça uma tendência já em curso — a de que choques geopolíticos tendem a acelerar, e não frear, a transição energética.
Fonte: Valor Econômico – A matéria na íntegra aqui