Biodiesel disputa óleo de soja com exportações, enquanto alta do petróleo pressiona diesel no Brasil

DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 19 a 25/10/2026

O que realmente mudou nesta semana?

• A Abiove elevou o esmagamento de soja de 2026 para 63,6 milhões t e projeta recorde de 66,0 milhões t em 2027; o aumento do óleo produzido será absorvido principalmente pelo mercado doméstico.
• As exportações brasileiras de óleo ganharam força: a Abiove elevou a projeção de 2026 para 1,95 milhão t e a Secex mostrou ritmo diário 183% acima de outubro/25 nos primeiros 11 dias úteis.
• O diesel russo voltou fisicamente às rotas do Brasil, mas o Brent encerrou a semana em US$ 116,72/barril e a defasagem do diesel voltou a superar o valor da subvenção.
• Na palma, exportações malaias aceleraram entre 58,5% e 78,4% até 20/10, reduzindo parte do peso baixista dos estoques recordes.

“Mais esmagamento não significa necessariamente maior disponibilidade de óleo para o biodiesel. O Brasil amplia o processamento, mas a demanda doméstica e as exportações absorvem boa parte da oferta adicional. Ao mesmo tempo, o diesel volta a pressionar o mercado pelo custo de reposição”, analisa Filipe Cunha, head comercial de Biodiesel da SCA Brasil.

Óleo de soja no Brasil: esmagamento cresce, mas oferta disponível segue pressionada

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) elevou a estimativa de esmagamento de soja em 2026 para 63,6 milhões de toneladas, crescimento de 8,4% em relação ao ano anterior, e manteve a projeção de produção de óleo em 12,8 milhões de toneladas. A principal revisão ocorreu nas exportações, cuja estimativa avançou 8,3%, para 1,95 milhão de toneladas.

Para 2027, a entidade projeta um novo recorde de processamento, de 66,0 milhões de toneladas (+3,8%), com produção de óleo de soja estimada em 13,27 milhões de toneladas (+3,7%). Desse volume, cerca de 11,37 milhões de toneladas deverão permanecer no mercado brasileiro, o equivalente a 520 mil toneladas a mais que em 2026.

As exportações também ganham relevância no balanço de oferta e demanda. Nos primeiros 11 dias úteis de outubro, os embarques brasileiros de gorduras e óleos vegetais totalizaram 163,8 mil toneladas. A média diária ficou 183,4% acima da registrada em outubro de 2025, enquanto o volume acumulado no período já superou o total exportado durante todo o mesmo mês do ano passado.

O Brasil ampliou sua participação como fornecedor internacional em um cenário de estoques norte-americanos de óleo de soja nos menores níveis desde 2014 e desaceleração do esmagamento na Argentina. De acordo com Cunha, caso esse ritmo de exportações se mantenha, a maior demanda externa poderá oferecer sustentação aos prêmios no mercado brasileiro.

Na avaliação da SCA Brasil, a capacidade industrial não parece ser o principal fator limitante. A variável decisiva passa a ser o volume de óleo de soja efetivamente disponível no mercado doméstico, diante do crescimento da demanda por biodiesel, do consumo alimentar e das exportações.

No mercado físico brasileiro, o flat price FOB Paranaguá avançou para US$ 1.242/t. O prêmio local registrou recuperação expressiva, passando de -US$ 265/t para -US$ 231/t, movimento que compensou a queda dos contratos futuros na Bolsa de Chicago.

China mantém compras de soja americana, mas ritmo de aquisições desacelera

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou a venda de mais 316 mil toneladas de soja norte-americana para a China durante a semana. O volume reforça a continuidade das aquisições chinesas, embora em ritmo inferior ao registrado na semana anterior.

Apesar da retomada das compras, os estoques confortáveis de soja e óleos vegetais na China ainda limitam a necessidade de novas importações de óleo no curto prazo.

Óleos vegetais: oferta global apresenta movimentos distintos e amplia competição entre matérias-primas

• União Europeia: o esmagamento de oleaginosas subiu 4,1% em setembro, para 3,11 milhões t. O girassol avançou 85,1% m/m, para 459 mil t, enquanto a colza recuou 5,9%, para 1,54 milhão t.
• Argentina: o crush de soja caiu 6,1% em setembro, para 4,0 milhões t, com produção de óleo de soja em 795,9 mil t (-6,0% m/m). Em sentido oposto, o óleo de girassol cresceu 15,5% a/a, para 213,2 mil t.
• Ucrânia: o governo priorizou a logística de exportação de óleos vegetais por ferrovia, portos e fronteiras. A medida pode destravar o girassol no curto prazo, mas a segurança do Mar Negro continua sendo o fator decisivo.

Os indicadores mostram que a oferta global de óleos vegetais não segue uma tendência uniforme. Enquanto o óleo de girassol ganha disponibilidade na Europa e na Argentina, o processamento de colza na União Europeia e a produção argentina de óleo de soja apresentam retração. Nesse cenário, o mercado tende a ficar mais sensível aos diferenciais de preços entre os óleos vegetais, que influenciam as possibilidades de substituição entre matérias-primas e o direcionamento dos fluxos comerciais internacionais.

Na avaliação da SCA Brasil, o aumento da disponibilidade de óleo de girassol na Europa e na Argentina amplia as alternativas de abastecimento, enquanto a redução do processamento de colza e da produção argentina de óleo de soja limita a oferta em outros segmentos do mercado.

Óleo de palma: recuperação das exportações reduz excedente e sinaliza mercado mais ajustado em 2027

A recuperação da demanda internacional começa a reduzir parte do excedente de óleo de palma. Na Malásia, as exportações cresceram entre 58,5% e 78,4% no período de 1º a 20 de outubro, em comparação com os mesmos dias de setembro. Embora os estoques recordes ainda afastem o risco de restrição imediata da oferta, a retomada das compras externas diminui a pressão baixista que predominou nas últimas semanas.

Na Indonésia, o movimento também ganhou força. As exportações de setembro avançaram 18,7%, alcançando 2,87 milhões de toneladas, impulsionadas principalmente pela demanda da Índia, com 923 mil toneladas, e da China, com 606 mil toneladas.

Para 2027, as avaliações da IPOSS e da Gapki apontam um balanço de oferta e demanda potencialmente mais apertado na Indonésia. A perspectiva de avanço para o B50, com maior utilização de óleo de palma na produção de biodiesel, tende a elevar o consumo doméstico e poderá reduzir o volume disponível para exportação.

Na Malásia, o Conselho de Óleo de Palma da Malásia (MPOC) projeta uma redução sazonal dos estoques entre novembro e fevereiro, movimento que também poderá contribuir para diminuir a disponibilidade regional.

Na avaliação da SCA Brasil, o óleo de palma ainda apresenta a maior folga de oferta no curto prazo entre os principais óleos vegetais. Entretanto, a recuperação das exportações, o avanço previsto do B50 na Indonésia e a perspectiva de redução sazonal dos estoques malaios indicam que essa folga está diminuindo.

Diesel global: oferta russa retorna, mas alta do petróleo pressiona custos no Brasil

Os embarques russos começaram a retornar às rotas tradicionais depois do fim da proibição de exportação. Um navio com cerca de 300 mil barris indicou Manaus como destino. Mesmo com a retomada, as exportações russas acumulam queda de 41% no ano; o Brasil respondeu por cerca de 24% dos embarques. A Rússia sinalizou capacidade de elevar as exportações para 3,0–3,5 milhões de toneladas/mês até o fim do ano.

O alívio físico foi rapidamente contrabalançado pela nova escalada no Oriente Médio. O Brent encerrou a semana em US$ 116,72/barril. No Brasil, a defasagem média do diesel nas refinarias da Petrobras chegou a cerca de R$ 3,53/l, ligeiramente acima da subvenção de R$ 3,52/l.

Nos EUA, os estoques de destilados subiram 1,68 milhão de barris, para 104,3 milhões, mas ainda permanecem 9% abaixo da média de cinco anos. A resposta continua emergencial: EUA e Alemanha também recorreram a reservas estratégicas.

Na avaliação da SCA Brasil, a semana mostrou adaptação sem normalização. A disponibilidade melhora com o retorno russo e o uso de estoques, mas o risco geopolítico e o custo de reposição continuam elevados para o Brasil.

Biodiesel Brasil: mercado spot com baixa liquidez na semana

Em meio à mobilização de distribuidores e produtores para a contratação do 6º bimestre, o levantamento da SCA Brasil apontou volume spot negociado de 1.390 m³ (-50,18%), enquanto o preço médio subiu para R$ 6.431/m³ (+3,06%).

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) adiou para hoje (26/10) a divulgação do levantamento de preços referente à semana de 18 a 24 de outubro.

O que observar na próxima semana?

• Óleo Brasil: manutenção do ritmo forte das exportações e eventual efeito sobre basis e prêmios domésticos.
• Diesel: evolução da defasagem Petrobras/importação após a alta do Brent e chegada efetiva das novas cargas russas.
• Palma: continuidade — ou não — da recuperação das exportações no fechamento de outubro e sinais de queda dos estoques malaios.
• China: continuidade das compras americanas e ritmo semanal dos anúncios do USDA.

Leitura final SCA Brasil: maior produção de óleo não garante mais oferta ao mercado doméstico

A semana reforçou uma mudança importante no balanço dos óleos vegetais: o aumento da capacidade de esmagamento e da produção não se traduz, necessariamente, em maior disponibilidade para o mercado doméstico.

No Brasil, a demanda por biodiesel e o avanço das exportações absorvem uma parcela crescente do óleo de soja produzido, enquanto os mercados de palma, girassol e colza apresentam dinâmicas distintas de oferta e demanda entre as principais regiões produtoras.

No mercado de diesel, a retomada dos embarques russos amplia as alternativas de abastecimento e melhora a disponibilidade física. Entretanto, a nova escalada das cotações internacionais do petróleo evidencia que o custo de reposição permanece como um dos principais fatores de risco para o mercado brasileiro, mesmo diante de um cenário de maior oferta.

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Boletim Semanal – 19 a 25/10/2026