Archer Consulting: sem pedir licença

Imagem: RPANews

O mercado futuro de açúcar em NY encerrou a semana com o vencimento maio/26 cotado a 13.92 centavos de dólar por libra peso, uma alta esquelética de 6 pontos na semana. Sexta foi a expiração do contrato com vencimento para mar/26, e a entrega física atingiu 807,000 toneladas. O spread mar/maio encerrou com um desconto anualizado de 14.89% fazendo todo o sentido para quem entregou e eventualmente poder receber de volta em maio bem mais barato. O momento sugere que o recebedor já tem destino para esse açúcar. Mas, sempre é perigoso analisar entregas e recebimentos sem olhar o livro comercial dos participantes.

Os fundos não-indexados apresentam uma posição vendida a descoberto de 257,863 lotes (equivalentes a 13 milhões de toneladas de açúcar), segundo COT (Commitment of Traders) publicado hoje pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission) agência americana reguladora dos mercados de commodities com base na posição do dia 24/2 (terça-feira). No período de uma semana eles recompraram 8,000 lotes e o mercado subiu 53 pontos. Isso dá 150 lotes para cada ponto de alta. Um viva para a coragem dos fundos.

Entender o mercado de commodities exige compreender quem realmente forma o preço internacional — e como cada grande produtor reage aos estímulos econômicos.

O Brasil exporta cerca de 80% de sua produção. Na prática, é o fornecedor global, aqui entendido como o mundo livre do açúcar, pois 2/3 da produção mundial é consumida dentro dos países. O preço doméstico em situações como essa deriva da paridade com Nova York, mas nem sempre isso é verdadeiro, pois depende do crescimento da economia e do poder de compra que faz com que o consumo migre para produtos processados.

Se o mercado de açúcar mundial colapsa, o Brasil possui um amortecedor relevante: o mix açúcar-etanol. A decisão dependerá da relação entre o contrato nº 11, o petróleo e o câmbio. Se o petróleo estiver firme e o real relativamente desvalorizado, o etanol ganha competitividade e parte da cana migra. Esse mecanismo funciona como válvula de ajuste relativamente rápida. No entanto, como sabemos o real tem se fortalecido e o impacto de um petróleo mais firme muitas vezes é neutralizado pela valorização da moeda brasileira.

A Tailândia, por sua vez, exporta aproximadamente 60% da sua produção. Também é altamente exposta ao mercado internacional, mas seu ajuste ocorre de maneira distinta. Não há grande flexibilidade industrial como no Brasil. O sinal de preço chega diretamente ao produtor rural. E hoje a mandioca (cassava) oferece retorno superior ao da cana.

Correndo o risco de soar como um disco quebrado, caso Nova York permaneça ao longo deste ano na faixa de 14 a 15 centavos de dólar por libra-peso, haverá certamente uma migração consistente de área na Tailândia. O agricultor responde à margem. Além da possível troca de cultura, preços deprimidos significam menos investimento em fertilizantes e defensivos, menor renovação de canaviais e praticamente nenhuma expansão de área, a mesma coisa no Brasil. O efeito é silencioso, mas cumulativo.

E aqui reside o ponto central: essas decisões tomadas em 2026 não aparecem imediatamente na estatística global. Elas se materializam com força um ou dois anos à frente. Em minha avaliação, a safra 27/28 pode refletir duramente um período prolongado de preços baixos em 2026. E pode ser explosivo.

Já a Índia é um animal diferente. Na média dos últimos anos, o volume disponível (não necessariamente exportado) para o mercado internacional raramente passou de 10% da produção. O mercado interno neste momento é o verdadeiro formador de preço local que será – obviamente – influenciado pelas políticas de preços mínimos e remunerados implantadas pelo governo indiano.

O valor da cana é definido politicamente e as exportações dependem de autorização governamental. Em outras palavras, quem decide se a Índia exporta não é o mercado — é o governo. Se houver preocupação com inflação ou abastecimento interno, as exportações são restringidas. Se houver excedentes confortáveis, cotas são liberadas.

Portanto, a formação de preço global repousa sobre três dinâmicas distintas: Brasil reage via mix açúcar-etanol. Tailândia reage via área plantada. Índia reage via política pública.

Se a Índia estiver ausente das exportações e a Tailândia reduzir área por falta de estímulo econômico, o peso do ajuste recai quase integralmente sobre o Brasil. E o Brasil, embora flexível, tem limites físicos e econômicos.

Preço baixo por muito tempo corrige a si próprio. Mas não de forma suave. Ele corrige por meio da destruição de oferta futura.

Se permanecermos este ano em níveis deprimidos, o mercado pode estar plantando as sementes de um aperto relevante mais adiante. Em minha visão, é preciso enorme cautela ao projetar conforto estrutural para 2027. O que hoje parece excesso pode se transformar rapidamente em escassez. E quando o açúcar resolve reagir, raramente pede licença.

Marcelo Moreira observa que maio-26 conseguiu se segurar acima dos suportes a 13.85 e 13.46 centavos de dólar por libra-peso. Agora encontra fortes resistências nas principais médias-móveis dos 50, 100 e 200 dias, respectivamente a 14.21/14.38 e finalmente a 15.53 centavos de dólar por libra-peso. Caso os Estados Unidos declarem guerra contra o Iran nos próximos dias poderemos ver uma recuperação nos preços com a ajuda de uma eventual explosão nos preços do petróleo.

Fonte: Archer Consulting