
O mercado internacional de açúcar segue pressionado por um ambiente de aversão ao risco nos mercados globais e por um cenário de oferta mundial abundante, fatores que continuam limitando uma recuperação mais consistente dos preços, apesar de movimentos pontuais de alívio ao longo da última semana, diz nota da “RPA News”.
A combinação entre maior cautela dos investidores e fundamentos ligados ao excesso de oferta intensificou a pressão baixista sobre o adoçante, mesmo após uma breve melhora no humor dos mercados com o arrefecimento das tensões comerciais entre Estados Unidos e União Europeia (UE).
O sentimento de aversão ao risco mudou após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a suspensão dos planos de impor novas tarifas à União Europeia e esclarecer que o país não usaria força militar para adquirir a Groenlândia. O movimento foi, de forma geral, favorável às commodities, com exceção do complexo energético, que vinha se beneficiando da incerteza persistente. Os preços do açúcar chegaram a se recuperar 1,5% na quinta-feira, mas encerraram a semana do dia 23 de janeiro em patamar mais baixo, a 14,7 centavos de dólar por libra-peso.
Do ponto de vista dos fundamentos, o mercado de adoçantes permanece praticamente inalterado, com a produção brasileira ainda projetada em níveis elevados. De acordo com o último relatório da UNICA, as usinas do Centro-Sul moeram 2,17 milhões de toneladas de cana na segunda quinzena de dezembro, volume superior aos 1,71 milhão de toneladas registrados no mesmo período da safra 2024/25. Desde o início da safra 2025/26, a moagem acumulada alcançou 600,40 milhões de toneladas, apenas 2,28% abaixo do volume do ciclo anterior, o que sugere que, mantido esse ritmo, a região pode encerrar a safra próxima de 608 milhões de toneladas.
“Nossa visão é um pouco mais otimista, colocando a produção final mais perto de 610 milhões de toneladas. Com uma mistura de açúcar de 50,6%, a produção total do adoçante se aproximaria de 40,5 milhões de toneladas, ajudando a explicar o tom baixista predominante no mercado”, afirma Lívea Coda, coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
“Conforme destacado no relatório anterior da Hedgepoint Global Markets, a recuperação em várias origens importantes, principalmente na Índia, soma-se a um cenário de oferta global já ampla”, complementa.
O México também deve apresentar desempenho positivo, com a Conadesuca projetando uma recuperação de 12% na produção de açúcar. A Tailândia deve adicionar cerca de 500 mil toneladas à sua produção anual, embora ainda opere abaixo de seu potencial histórico. Já a China deve atingir 11,2 milhões de toneladas, segundo estimativas da China Sugar Association.
“Outras regiões, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, devem apresentar resultados sólidos, embora não excepcionais. Nos EUA, a produção de açúcar deve ser 0,6% menor do que no ano passado, mas permanecerá 0,8% acima da média de cinco anos. Para a UE mais o Reino Unido, espera-se que a produção líquida de açúcar caia 4% em relação à safra 2024/25, mas ainda assim fique cerca de **2% acima da média de cinco anos”, afirma.
A União Europeia tem sido destaque no comércio de commodities diante do avanço do acordo entre o bloco e o Mercosul, que parece se aproximar da fase final de aprovação. No entanto, a analista da Hedgepoint avalia que os impactos sobre os fluxos comerciais de açúcar devem ser limitados.
“O acordo introduz um acesso ampliado isento de impostos para o açúcar, incluindo uma cota de 180 mil toneladas com tarifa zero para o Brasil e uma cota de 10 mil toneladas isenta de impostos para o Paraguai, enquanto os açúcares especiais continuam excluídos e nenhuma preferência adicional é concedida à Argentina ou ao Uruguai. Espera-se que essas medidas intensifiquem as pressões competitivas sobre o setor açucareiro da UE e possam amplificar as fraquezas estruturais existentes, aumentando a probabilidade de instabilidade do mercado, especialmente diante das dúvidas persistentes sobre a eficácia dos mecanismos de salvaguarda atuais”, diz Coda.
Mercado de etanol
O acordo diferencia o etanol destinado ao uso industrial daquele utilizado como combustível. No caso do etanol industrial, uma tarifa zero seria aplicada dentro da cota de 450 mil toneladas por ano, elevando significativamente a competitividade do produto brasileiro. Para o etanol combustível, o acordo prevê a redução ou eliminação dos impostos de €190 por metro cúbico dentro da cota de 200 mil toneladas por ano, ampliando diretamente as oportunidades de arbitragem de importação.
Esse cenário tende a reforçar a posição competitiva do Brasil no mercado europeu, especialmente em relação ao produto dos Estados Unidos. Após o preenchimento das cotas, no entanto, as tarifas integrais da União Europeia voltariam a ser aplicadas.
Fonte: RPA News