A transição da mobilidade exige realismo: o Brasil não pode ignorar a vantagem estratégica do etanol

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A recente repercussão de matéria publicada na imprensa internacional sobre as limitações práticas dos veículos elétricos recoloca em pauta uma questão central para o setor de energia e transportes: a transição energética não será bem-sucedida se for conduzida por narrativas simplificadas, dissociadas da realidade da infraestrutura, do custo ao consumidor e das vocações produtivas de cada país. O debate é especialmente relevante para o Brasil, produtor de etanol.

Segundo nota do “Jornal Cana”, em mercados desenvolvidos, já se observam sinais claros de que a eletrificação veicular, embora importante, não se apresenta como solução única nem linear. Persistem desafios associados à depreciação dos veículos, ao custo de reposição e manutenção, à disponibilidade de oficinas qualificadas, ao desempenho em viagens longas e, sobretudo, à dependência de uma infraestrutura de recarga ainda heterogênea.

Para o Brasil, esses alertas devem ser lidos com atenção estratégica.

Nosso país possui uma singularidade que raramente é devidamente valorizada no debate público: já conta com uma solução de mobilidade de baixo carbono em larga escala, operacional, nacional e integrada à economia real. Essa solução é o etanol.

Ao longo de décadas, o Brasil construiu uma base robusta formada por produção agroindustrial competitiva, tecnologia automotiva flex fuel, rede de distribuição instalada, conhecimento técnico acumulado e capacidade de oferta em escala. Poucos países no mundo dispõem de uma alternativa renovável com esse grau de maturidade.

Por isso, a discussão sobre descarbonização do transporte no país não pode ser importada de forma acrítica. O erro está em presumir que a rota tecnológica ideal para economias com outra matriz energética, outra estrutura industrial e outra geografia logística deva ser automaticamente replicada em território brasileiro.

No caso brasileiro, a política pública mais racional é aquela que reconhece o valor da complementaridade tecnológica.

Veículos elétricos podem cumprir papel relevante em nichos específicos, sobretudo em ambientes urbanos, frotas cativas e aplicações em que a previsibilidade da recarga esteja assegurada. Mas o transporte de passageiros em larga escala, em país continental, com forte sensibilidade a preço, renda e infraestrutura, exige abordagem mais pragmática. É justamente nesse ponto que o etanol, inclusive em combinação com veículos híbridos flex, ganha centralidade estratégica.

Etanol como Prioridade Nacional

O etanol oferece atributos que dialogam diretamente com as prioridades nacionais. Reduz emissões, aproveita ativos já existentes, fortalece a segurança energética, diminui a dependência de combustíveis fósseis importados, interioriza desenvolvimento econômico e sustenta empregos ao longo de cadeias produtivas intensivas em investimento e geração de valor regional.

Do ponto de vista industrial, seu papel é ainda mais relevante. A cadeia sucroenergética não apenas abastece o mercado de combustíveis, mas organiza atividades de agricultura, indústria, logística, energia elétrica, inovação tecnológica e arrecadação tributária. No Nordeste, e particularmente em estados produtores, essa dimensão assume caráter adicional: o etanol não é apenas um produto energético, mas vetor de estabilidade econômica regional e de dinamização do interior.

Fonte: Jornal Cana