A aposta da Be8 no etanol de trigo

O surgimento de uma nova rota para a produção de etanol ocorre em um momento em que o biocombustível à base de milho avança de forma acelerada, levantando dúvidas sobre a viabilidade dos projetos que utilizam o trigo como matéria-prima, diz nota do “Brasil Agro”.

Isso porque o trigo compete diretamente com o mercado global de alimentos, tendo seu preço fortemente influenciado pela paridade de importação. Diferentemente do milho no Centro-Oeste, o trigo não conta com desconto logístico em relação aos portos.

Além disso, o Brasil é historicamente deficitário na produção do grão e um grande importador líquido da commodity. Em 2025, o país importou 6,894 milhões de toneladas, o maior volume já registrado em um único ano.

O especialista em biocombustíveis Clayton Melo, ex-executivo da Ultracargo, Argus, entre outras, analisou os dois projetos brasileiros de etanol de trigo e destacou o “trunfo” da planta da Be8.

“Eu nunca achei que o etanol de trigo fosse funcionar no Brasil, mas considerei muito interessante a lógica por trás do projeto da Be8, que se baseia na extração do glúten vital. Trata-se de um produto de altíssimo valor agregado, muito superior ao DDG do etanol de milho. Cerca de 5% da massa de trigo processada é convertida em glúten vital”, diz.

“É um projeto muito inteligente, que cria uma linha adicional de receita extremamente relevante e que se soma a uma situação bastante favorável: o prêmio de preço do etanol no Rio Grande do Sul.” Todavia, Melo ressalva a possível inviabilidade da construção de novas plantas além da primeira.

“A pegadinha é que não faz sentido construir a segunda, terceira ou quarta usina, porque toda a demanda brasileira por glúten vital será atendida apenas pela primeira planta. A partir da segunda, a conta piora, pois será necessário exportar o produto — e, nesse caso, o preço sofre um desconto significativo.”

Fonte: Brasil Agro