O que realmente mudou nesta semana?
• O petróleo recuou na semana com expectativas de avanço nas negociações para o Estreito de Ormuz, mas a oferta global de derivados continuou pressionada por ataques a refinarias e pela forte queda das exportações russas.
• A EPA concedeu menos isenções às pequenas refinarias do que o mercado temia, preservando grande parte das obrigações do RFS e sustentando os RINs e a demanda por óleo de soja.
• O consumo americano de óleo de soja pelos biocombustíveis segue em níveis recordes, reduzindo significativamente a participação dos EUA no mercado exportador.
• O óleo de palma enfrenta pressão de curto prazo com expectativa de estoques mais elevados na Malásia, enquanto o B50 da Indonésia continua oferecendo suporte estrutural.
• A China acelerou os leilões da Sinograin e novas compras de soja americana, mas a soja brasileira continua competitiva no mercado chinês.
• No Brasil, o PIS/Cofins voltou a incidir sobre o biodiesel em 1º de agosto, enquanto o abastecimento de diesel permanece confortável no curto prazo, apesar do cenário externo mais desafiador.
“O petróleo perdeu parte do prêmio de risco, mas o aperto nos derivados e a demanda estrutural por biocombustíveis mantêm diesel e óleos vegetais sustentados. A regulação volta a ocupar papel central na formação das expectativas.”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
Petróleo recua, mas mercado de derivados continua sob pressão
O petróleo encerrou a semana em queda, com o Brent a US$ 83,55/barril, acumulando recuo de 4,98%, enquanto o WTI caiu 7,6%, para US$ 78,18. O movimento refletiu principalmente as expectativas de avanço nas negociações para normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz, embora um acordo definitivo ainda não tenha sido alcançado.
A principal preocupação, entretanto, começa a migrar do petróleo bruto para os derivados. As exportações marítimas russas de derivados recuaram 33% em julho, enquanto os embarques de diesel caíram cerca de 60%, mantendo o mercado internacional atento à disponibilidade de combustíveis.
Nos Estados Unidos, os estoques de petróleo subiram 2,5 milhões de barris, mas os estoques de derivados recuaram 3,5 milhões, enquanto a demanda implícita por diesel permaneceu firme. O quadro reforça a leitura de que, mesmo com menor pressão sobre o petróleo, a disponibilidade de produtos refinados continua sendo um ponto de atenção para o mercado global.
China abre espaço para soja americana e Brasil mantém vantagem estrutural
A China manteve as compras de soja americana e acelerou os leilões da Sinograin para abrir espaço aos embarques previstos para o último trimestre. O movimento é interpretado como parte da estratégia para liberar capacidade de armazenamento antes da chegada das cargas americanas previstas para o final do ano.
Apesar disso, a soja brasileira continua mais competitiva para os esmagadores privados chineses, sobretudo pela diferença tarifária ainda favorável em relação ao produto americano. O ritmo das compras chinesas continuará sendo um dos principais indicadores para medir o espaço da soja americana no mercado internacional.
EPA reduz risco regulatório e biocombustíveis sustentam óleo de soja
A decisão da EPA sobre seis pedidos remanescentes de isenção para pequenas refinarias foi menos abrangente do que o mercado esperava: uma isenção foi concedida integralmente, duas parcialmente e três foram consideradas inelegíveis. A reação foi positiva para os créditos D4 RIN, que subiram para aproximadamente 224,25 cents/RIN, recuperando parte das perdas acumuladas anteriormente.
O resultado preserva a maior parte das obrigações de mistura previstas pelo RFS e reduz o risco de uma queda abrupta na demanda por matérias-primas destinadas ao biodiesel e ao diesel renovável.
Esse suporte regulatório ocorre em um ambiente de demanda estruturalmente elevada. O setor americano de biocombustíveis consumiu cerca de 648,6 mil toneladas de óleo de soja em maio, recorde histórico e alta de 17% sobre abril. Como consequência, as exportações americanas seguem comprimidas: no acumulado de 2025/26, totalizam apenas 354 mil toneladas, cerca de 65% abaixo do ano anterior.
O esmagamento também permanece elevado. Em junho, os EUA processaram aproximadamente 5,93 milhões de toneladas de soja, recorde para o mês e quase 11% acima do registrado em junho de 2025. Mesmo com o aumento da produção de óleo, os estoques recuaram 8% frente a maio.
A combinação entre maior esmagamento, consumo recorde pelos biocombustíveis e menor presença americana no mercado exportador continua oferecendo suporte estrutural ao óleo de soja, mesmo diante da correção recente do petróleo.
O contrato de setembro do óleo de soja encerrou a semana cotado a 68,24 cents/lb em Chicago, uma valorização de 1,46%. Em Paranaguá, o preço FOB apresentou leve valorização na semana. A queda do basis compensou parcialmente a alta de Chicago, conforme mostra o gráfico da SCA Brasil.

Palma enfrenta pressão no curto prazo, mas B50 mantém suporte estrutural
O óleo de palma fechou a semana próximo de US$ 1.144 por tonelada, pressionado pelas expectativas de aumento dos estoques na Malásia, cuja divulgação oficial ocorre na próxima semana. No entanto, o aumento do consumo interno na Indonésia com o B50 e a recuperação das importações indianas continuam oferecendo suporte estrutural ao mercado.
Assim, o mercado continua dividido entre uma oferta mais confortável na Malásia no curto prazo e um balanço potencialmente mais apertado no segundo semestre, à medida que o B50 indonésio absorve volumes crescentes.
Preços do biodiesel se valorizam no Brasil
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras, entre 27 de julho e 02 de agosto, foi de R$ 5.175,38/m³, alta de 1,46% em relação à semana anterior.
A Região Norte registrou o maior recuo nos preços (-1,24%), enquanto a maior valorização ocorreu na Região Centro-Oeste (+3,49%). No acumulado de 2026, o mercado mantém trajetória de queda, com recuo de 12,62% nos preços médios do biodiesel.

O levantamento da SCA Brasil apontou recuperação do mercado spot na semana, puxada principalmente por negócios em São Paulo. O volume negociado atingiu 1.660 m³ (+61%), enquanto o preço médio avançou para R$ 6.097/m³ (+1,07%), indicando retomada da liquidez após a forte retração observada na semana anterior.

PIS/Cofins volta a incidir sobre o biodiesel
Encerrada em 31 de julho a desoneração temporária, o PIS/Pasep e a Cofins voltaram a incidir sobre o biodiesel a partir de 1º de agosto. Na regra geral, a carga corresponde a R$ 148,00/m³, sendo R$ 26,41/m³ de PIS/Pasep e R$ 121,59/m³ de Cofins.
O impacto efetivo pode variar conforme a matéria-prima utilizada, a região de origem e o enquadramento do produtor nas alíquotas diferenciadas vinculadas ao Selo Biocombustível Social. A retomada da tributação acrescenta um novo componente à formação dos preços no mercado doméstico e deve ser considerada nas negociações realizadas a partir de agosto.
Diesel no Brasil mantém folga no curto prazo e riscos externos permanecem
O abastecimento brasileiro permanece confortável em agosto, sustentado pela produção doméstica, importações e estoques. Entretanto, a forte redução das exportações russas de diesel aumenta a dependência de cargas alternativas no mercado internacional, especialmente para os últimos meses do ano.
Esse conforto, entretanto, depende da continuidade das importações e das subvenções. Desde o início da crise, o governo já abriu R$ 17,7 bilhões em créditos extraordinários para subsidiar combustíveis, dos quais cerca de R$ 7 bilhões haviam sido pagos até o final de julho.
De acordo com a SCA Brasil, no curto prazo a situação é de equilíbrio, mas a combinação entre maior demanda sazonal e menor oferta internacional mantém o mercado atento ao último quadrimestre, quando a demanda doméstica tende a crescer e o país fica mais exposto ao mercado internacional.
O que observar na próxima semana
O mercado seguirá acompanhando as negociações para normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz e, principalmente, seus efeitos sobre a disponibilidade de diesel e demais derivados. Nos óleos vegetais, os dados oficiais da Malásia deverão indicar se o aumento esperado dos estoques confirma um cenário mais pressionado para a palma no curto prazo. Nos Estados Unidos, o impacto das recentes decisões da EPA continuará sendo refletido nos RINs e nas margens dos biocombustíveis.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 03 a 07/08/2026