O principal vetor dos mercados nesta semana foi a forte correção do petróleo após os avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã e a gradual normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz. O Brent chegou a recuar para a faixa de USD 72-73/barril, acumulando perdas de aproximadamente 7% na semana, à medida que o mercado passou a precificar a retomada das exportações do Golfo Pérsico e a redução dos riscos de interrupção da oferta global. A retomada dos embarques pela Arábia Saudita, o aumento das ofertas de petróleo por produtores da região e a perspectiva de retorno do petróleo iraniano ao mercado internacional contribuíram para a retirada do prêmio geopolítico que sustentava os preços desde fevereiro.
“Apesar do alívio recente, o mercado segue monitorando a estabilidade das negociações e a efetiva normalização do tráfego marítimo na região”, frisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
O volume transportado pelo Estreito de Ormuz já se aproxima dos níveis anteriores ao conflito, mas permanece abaixo dos padrões históricos, mantendo alguma sensibilidade a eventuais reversões diplomáticas ou novos incidentes na região.
Óleo de soja recua, mas fundamentos permanecem positivos
A queda do petróleo exerceu pressão direta sobre o óleo de soja em Chicago. O contrato agosto em Chicago encerrou a sexta-feira em US$69,82/lb, valorização de 2,03% na semana, no entanto acumulando recuo superior a 12% desde o início de junho. Ainda assim, alguns fundamentos seguem oferecendo suporte ao mercado. Os créditos D4 RINs permaneceram próximos das máximas históricas, impulsionados pela geração de 736 milhões de créditos em maio, acima dos 710 milhões registrados em abril.
Além disso, analistas continuam avaliando que a geração de créditos permanece abaixo do necessário para atender plenamente os mandatos de biocombustíveis previstos para 2026 nos Estados Unidos. Esse cenário mantém a perspectiva de demanda robusta por óleo de soja como matéria-prima para biodiesel e diesel renovável ao longo do segundo semestre.
Por outro lado, o mercado físico americano enfrentou pressão adicional com o aumento das importações de óleo de cozinha usado (UCO) da China. Em maio, os EUA importaram 74,5 mil toneladas do produto chinês, alta de 134% em relação a abril, reduzindo temporariamente a competitividade do óleo de soja frente a matérias-primas alternativas para produção de combustíveis renováveis. As exportações americanas de óleo de soja também continuam enfraquecidas, acumulando queda superior a 65% na temporada frente ao mesmo período do ano anterior.
“A demanda crescente por biocombustíveis nos Estados Unidos, aliada aos mandatos de mistura e aos elevados créditos regulatórios, continua sustentando uma perspectiva positiva para o óleo de soja no médio e longo prazo”, diz Cunha.
No Brasil, o prêmio local apresentou um recuo, encerrando a semana em 16,60 cents/lb negativo, enquanto o óleo de soja FOB Paranaguá subiu 0,55%, alcançando US$ 1.173,30 por tonelada. Veja o gráfico:

Óleo de palma encontra suporte na implementação do B50 na Indonésia
Enquanto o petróleo pressionou o complexo de óleos vegetais, o óleo de palma mostrou maior resiliência devido à confirmação oficial da implementação do mandato B50 na Indonésia a partir de 1º de julho. O programa prevê a elevação da mistura obrigatória de biodiesel de 40% para 50%, consolidando uma trajetória de expansão contínua do consumo interno de óleo de palma.
A GAPKI estima que a medida adicionará cerca de 2 milhões de toneladas à demanda doméstica de óleo de palma em 2026. A estatal Pertamina confirmou estar totalmente preparada para a implementação do programa, enquanto as exportações da Malásia apresentaram crescimento superior a 10% em junho, sinalizando demanda internacional ainda aquecida. O mercado avalia que a combinação entre o B50 e os riscos climáticos associados ao El Niño poderá reduzir significativamente a disponibilidade exportável da região ao longo do segundo semestre.
Biodiesel registra produção recorde no Brasil
Os dados divulgados pela ANP mostraram que a produção brasileira de biodiesel atingiu 895 mil m³ em maio, recorde histórico para o mês e avanço de 5% frente a abril. Em outra apuração apresentada no material, a produção alcançou 911 mil m³, configurando o terceiro maior resultado mensal da história do setor. Em ambos os casos, os números evidenciam forte expansão da oferta doméstica.
As vendas, contudo, permaneceram abaixo da produção, gerando excedentes entre 49 mil m³ e 64 mil m³ no período. O uso de óleo de soja alcançou recorde histórico para um mês de maio, reforçando a importância do complexo soja para o abastecimento nacional de biocombustíveis. Ao mesmo tempo, a ANP definiu para o quinto bimestre uma meta mínima de contratação de 1,49 milhão de m³, com expectativa de que o volume efetivamente contratado possa superar 1,9 milhão de m³.
“A combinação entre produção recorde, elevada disponibilidade de óleo de soja e expectativa de maior contratação reforça a maturidade da indústria brasileira de biodiesel. Ao mesmo tempo, o excedente de oferta mantém o debate sobre a ampliação da mistura obrigatória no centro das atenções, já que o avanço do mandato continua sendo o principal mecanismo para ampliar a absorção da produção doméstica”, acrescenta Cunha.
Biodiesel: liquidez do mercado spot continua fraca
Segundo levantamento da SCA Brasil, o volume spot foi novamente bem reduzido, com as negociações dos contratos para o próximo bimestre ocupando a atenção do mercado:
• Volume: 1.278 m³ (+ 31,75%)
• Preço médio: R$ 5.738/m³ (-5,48%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostraram que, entre 15 e 21 de junho, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 5.064,74/m³, valorização de 1,19% em relação ao valor médio da semana anterior. As Regiões Norte e Nordeste apresentaram as maiores variações com 4,06% e 1,84%. No ano, o mercado acumula queda de 14,49%.

Mercado de diesel segue resiliente, mas enfrenta riscos internacionais
A StoneX revisou sua projeção de crescimento do consumo de diesel B no Brasil em 2026 para 1,6%, estimando demanda de 70,6 bilhões de litros. Apesar da redução frente à previsão anterior, o volume ainda representaria um novo recorde histórico e o décimo ano consecutivo de crescimento do consumo.
No cenário internacional, aumentaram as preocupações com a oferta global de diesel em função dos ataques a refinarias russas. A refinaria de Moscou deverá permanecer fora de operação por pelo menos seis meses, enquanto autoridades russas avaliam medidas adicionais para preservar o abastecimento doméstico, incluindo possíveis restrições às exportações de diesel. Como a Rússia responde por aproximadamente 75% das importações brasileiras do produto, eventuais limitações adicionais nas exportações podem elevar os custos de aquisição do combustível ao longo do segundo semestre.
A semana foi marcada pela forte influência do petróleo sobre os mercados agrícolas e energéticos. A retirada do prêmio geopolítico pressionou os preços do óleo de soja, mas os fundamentos ligados aos biocombustíveis continuam oferecendo suporte tanto nos Estados Unidos quanto na Ásia. No Brasil, a combinação entre produção recorde de biodiesel, elevado consumo potencial e ampla disponibilidade de óleo de soja reforça a importância da discussão sobre a mistura obrigatória, que permanece como o principal fator capaz de redefinir as expectativas para o mercado doméstico no curto prazo.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 22 a 26/06/2026