O mercado internacional de petróleo registrou uma forte correção na semana, refletindo a expectativa de normalização gradual da oferta global após o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã. O movimento levou o Brent a encerrar a semana abaixo de USD 80 por barril, enquanto o WTI recuou para a faixa de USD 76 por barril, eliminando parte importante do prêmio geopolítico acumulado desde o agravamento das tensões no Oriente Médio.
A expectativa de liberação dos volumes retidos no Golfo Pérsico e a perspectiva de retomada das exportações iranianas reduziram significativamente o prêmio de risco que sustentava os preços nas últimas semanas. Ainda assim, persistem dúvidas sobre a implementação efetiva do acordo, especialmente diante das tensões envolvendo Israel e Hezbollah e das incertezas sobre o cronograma de normalização logística na região.
Óleo de soja acompanha petróleo, mas fundamentos seguem construtivos
A correção do petróleo foi rapidamente transmitida ao mercado de óleo de soja. O contrato julho em Chicago encerrou a semana em US¢ 69,69/lb, acumulando forte recuo de 6,18% e atingindo o menor nível em aproximadamente dois meses. Apesar da pressão macroeconômica e da retirada do prêmio geopolítico, os fundamentos do mercado americano continuam relativamente apertados. Os estoques de óleo de soja divulgados pela NOPA recuaram cerca de 91 mil toneladas em maio, enquanto a indústria de esmagamento segue operando próxima de 95% da capacidade instalada. Além disso, os créditos RINs D4 atingiram novas máximas históricas e a geração de créditos para biodiesel avançou em maio, reforçando a leitura de demanda robusta por biocombustíveis nos Estados Unidos.
Outro fator relevante foi a atualização do modelo 45ZCF-GREET pelo Departamento de Energia dos EUA. As mudanças aumentaram a competitividade do óleo de soja frente às matérias-primas residuais, elevando o crédito estimado para biodiesel produzido a partir de óleo de soja para aproximadamente USD 0,60/galão, ante cerca de USD 0,35/galão anteriormente. Embora ainda existam definições regulatórias pendentes, o movimento reforça a tendência de maior participação do óleo de soja doméstico no atendimento da demanda americana por combustíveis renováveis.
“Embora o petróleo tenha pressionado as cotações no curto prazo, os fundamentos ligados ao biodiesel continuam sólidos. A combinação entre estoques apertados, elevada utilização da capacidade de esmagamento e incentivos regulatórios mais favoráveis reforça a perspectiva de forte demanda por óleo de soja nos Estados Unidos”, analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
No Brasil, o fortalecimento do prêmio local ajudou novamente a amenizar a queda do preço do óleo. O prêmio encerrou a semana em 15,60 cents/lb negativo, enquanto o óleo de soja FOB Paranaguá recuou 0,17%, alcançando US$ 1.192,48 por tonelada. Veja o gráfico:

Palma encontra suporte na implementação do B50
Em contraste com o óleo de soja, o óleo de palma apresentou maior resiliência. O contrato de setembro encerrou a semana próximo de USD 1.124/tonelada, sustentado pela confirmação oficial de que a Indonésia iniciará o mandato B50 em 1º de julho. O programa elevará a mistura obrigatória de biodiesel de 40% para 50%, ampliando o consumo doméstico de óleo de palma e reduzindo a disponibilidade exportável do país.
A expectativa de aumento da demanda interna, somada ao bom desempenho recente das exportações da Malásia, manteve o suporte aos preços mesmo em um ambiente de queda do petróleo.
De acordo com Cunha, o mercado segue monitorando a efetiva implementação do programa, que poderá consumir volumes adicionais relevantes de óleo de palma ao longo do segundo semestre.
Safra recorde amplia oferta de óleo de soja e reforça atenção sobre o B16
A nova revisão da Conab confirmou um cenário de ampla disponibilidade de matéria-prima para a cadeia de biodiesel em 2026. A produção brasileira de soja foi elevada para 180,3 milhões de toneladas, novo recorde histórico e crescimento de 5,1% sobre a safra anterior, impulsionada pela expansão da área cultivada e pelo ganho de produtividade.
O aumento da oferta também deverá acelerar o processamento doméstico. A Conab revisou a projeção de esmagamento para 61,6 milhões de toneladas, elevando a estimativa de produção de óleo de soja para 12,4 milhões de toneladas e de farelo para 47,4 milhões de toneladas.
Um dos pontos mais relevantes da revisão foi o ajuste nas projeções de consumo e exportação de óleo de soja. Diante das incertezas sobre a implementação do B16, a estatal elevou a estimativa de exportações do derivado de 1,4 milhão para 1,8 milhão de toneladas, enquanto reduziu a projeção de consumo doméstico para 10,5 milhões de toneladas.
Como consequência, os estoques finais de óleo de soja deverão alcançar 835 mil toneladas, reforçando um cenário de excedente doméstico ao longo de 2026.
“A combinação entre safra recorde, aumento do esmagamento e maior disponibilidade de óleo de soja fortalece os fundamentos da cadeia de biodiesel, mas também amplia a pressão sobre as discussões envolvendo o B16. Sem avanço da mistura obrigatória, parte crescente da produção tende a buscar o mercado externo, mantendo o tema regulatório no centro das atenções do setor nos próximos meses”, pontua Cunha.
Biodiesel: liquidez do mercado spot continua fraca
Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot apresentou enfraquecimento com o início das negociações dos contratos para o próximo bimestre em relação à semana anterior:
• Volume: 970 m³ (-69,59%)
• Preço médio: R$ 6.071/m³ (+2,08%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostraram que, entre 08 e 14 de maio, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras voltou ao patamar de R$5.000, ficando em R$ 5.004,97/m³, valorização de 2,22% em relação ao valor médio da semana anterior.
As Regiões Sudeste e Centro-Oeste apresentaram as maiores variações com 3,04% e 2,08%. No ano, o mercado acumula queda de 15,50%.

Mercado de diesel acompanha queda do petróleo e monitora subsídios
No Brasil, a ANP iniciou o pagamento da primeira fase da subvenção ao diesel, criada para mitigar os impactos da alta dos combustíveis durante o período mais crítico das tensões no Oriente Médio. Foram liberados aproximadamente R$ 815 milhões para seis empresas, incluindo R$ 752,5 milhões destinados à Petrobras, referentes aos descontos concedidos entre 12 e 31 de março.
Ao mesmo tempo, integrantes do Ministério da Fazenda sinalizaram que os subsídios poderão ser descontinuados caso os preços internacionais permaneçam próximos dos níveis atuais. A combinação entre queda do petróleo, redução das pressões inflacionárias e normalização parcial do mercado internacional reforça a percepção de que as medidas têm caráter temporário.
A semana foi marcada pela retirada do prêmio geopolítico do petróleo, provocando correção nos preços do óleo de soja e do complexo energético. Apesar disso, os fundamentos ligados aos biocombustíveis permanecem favoráveis, especialmente nos Estados Unidos e na Indonésia. No Brasil, a combinação de safra recorde, aumento do esmagamento e elevada disponibilidade de óleo de soja amplia a relevância da discussão sobre a mistura obrigatória de biodiesel, que tende a se tornar o principal catalisador para o mercado doméstico no curto prazo.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 15 a 19/06/2026