Mercado monitora expansão dos mandatos de mistura dos biocombustíveis

O destaque da semana foi o fortalecimento da demanda estrutural por biocombustíveis, evidenciado pelos ajustes do USDA para o consumo de óleo de soja nos Estados Unidos, pela aproximação do mandato B50 na Indonésia e pela continuidade da expansão dos programas de mistura na Ásia. Apesar da correção observada nos preços dos óleos vegetais nos últimos dias, os fundamentos ligados ao biodiesel e ao diesel renovável continuam sendo o principal vetor de sustentação do mercado.

O relatório WASDE de junho reforçou essa percepção ao elevar em 544 mil toneladas a projeção de esmagamento de soja nos Estados Unidos para 72,1 milhões de toneladas e aumentar em 159 mil toneladas o consumo de óleo de soja destinado aos biocombustíveis, para 6,6 milhões de toneladas. Para 2026/27, o USDA projeta consumo de 8,07 milhões de toneladas de óleo de soja para biocombustíveis, crescimento de 22% frente ao ciclo anterior, enquanto as exportações deverão cair para apenas 181 mil toneladas.

De acordo com Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil, mesmo com ajustes pontuais nas cotações, os fundamentos permanecem firmes. A expansão global dos mandatos de biodiesel e diesel renovável continua fortalecendo a demanda por óleo de soja e reduzindo a disponibilidade exportável, sustentando uma visão estruturalmente positiva para o complexo de biocombustíveis.

Óleo de soja recua com petróleo mais fraco e aumento dos estoques globais

O mercado de óleo de soja encerrou a semana com sinais importantes para o setor de biocombustíveis. O contrato julho na Bolsa de Chicago fechou em 74,28 cents/lb, com leve queda de 0,22%, pressionado pela correção do petróleo e pelo aumento das projeções de estoques globais divulgado pelo USDA no relatório WASDE.

As estimativas apontam estoques mundiais de óleo de soja de 6,04 milhões de toneladas em 2025/26 e 6,43 milhões de toneladas em 2026/27, refletindo principalmente a maior disponibilidade de produto em países exportadores como Brasil e Argentina.

No entanto, o relatório também evidenciou uma crescente divergência entre os Estados Unidos e o restante do mundo. Enquanto Brasil e Argentina ampliam o esmagamento e reforçam a oferta global, os americanos seguem direcionando uma parcela cada vez maior do óleo de soja para a produção de biodiesel e diesel renovável, reduzindo exportações e mantendo os estoques domésticos pressionados.

Esse cenário continua sendo refletido na estrutura de preços do mercado. O spread entre os contratos de julho e dezembro do óleo de soja atingiu entre 5 e 6 cents por libra, equivalente a aproximadamente USD 110 a USD 132 por tonelada, o maior nível desde 2022. O movimento sinaliza que o mercado segue precificando uma escassez relativa de óleo nos Estados Unidos antes da entrada da nova safra.

“Apesar da correção dos preços e do aumento dos estoques globais, os fundamentos ligados aos biocombustíveis permanecem sólidos. A expectativa de crescimento contínuo da demanda por biodiesel e diesel renovável nos Estados Unidos segue sustentando uma visão estruturalmente positiva para o óleo de soja”, comenta Cunha.

No Brasil, o fortalecimento do prêmio local ajudou a sustentar os preços. O basis encerrou a semana em 20,10 cents/lb negativo, enquanto o óleo de soja FOB Paranaguá avançou 2,38%, alcançando US$ 1.194,47 por tonelada. Veja o gráfico:

Petróleo perde prêmio geopolítico e pressiona complexo de óleos vegetais

O mercado de energia apresentou forte correção ao longo da semana. O Brent encerrou a quinta-feira a USD 90,38 por barril, com queda de 2,9%, enquanto na manhã de sexta-feira operava próximo de USD 87,42 por barril.

A movimento foi impulsionado pelo cancelamento de novos ataques ao Irã e pelas expectativas de avanço das negociações envolvendo a possível reabertura do Estreito de Ormuz. A redução do prêmio geopolítico retirou suporte dos mercados de óleo de soja e óleo de palma, cuja competitividade para biodiesel está diretamente ligada ao comportamento dos combustíveis fósseis.

Apesar da correção recente, os estoques globais de petróleo permanecem historicamente apertados, o que limita movimentos mais profundos de queda.

El Niño e B50 reforçam suporte estrutural ao mercado de óleo de palma

O mercado de óleo de palma continua monitorando dois fatores centrais para a formação de preços nos próximos meses: os riscos climáticos associados ao El Niño e a entrada em vigor do mandato B50 na Indonésia, prevista para julho.

Na Malásia, os estoques encerraram maio em 2,43 milhões de toneladas, alta de 5,1% sobre abril. Ao mesmo tempo, a produção recuou 7%, para 1,52 milhão de toneladas, enquanto as exportações caíram 14,5%, para 1,11 milhão de toneladas.

“Embora os números de curto prazo tenham sido interpretados como baixistas, o mercado segue mais atento aos riscos para a oferta futura”, analisa o head.

Autoridades malaias alertam que o fenômeno El Niño pode provocar perdas de produtividade entre 8% e 10% em 2026, além de reduzir as chuvas entre 40% e 60% em algumas regiões produtoras. Esse cenário aumenta as preocupações sobre a disponibilidade global de óleo de palma no médio prazo.

Outro fator de sustentação é o avanço da política de biocombustíveis na Indonésia. A implementação do B50 deverá ampliar significativamente o consumo doméstico de óleo de palma, reduzindo o volume disponível para exportação e contribuindo para um balanço global mais apertado.

Demanda asiática segue forte e sustenta mercado de óleos vegetais

A demanda asiática continua oferecendo suporte aos mercados de óleos vegetais.

Na Índia, as importações totais de óleos vegetais alcançaram 1,37 milhão de toneladas em maio, alta de 4,6% em relação ao mês anterior. O destaque foi o óleo de soja, que avançou 37%, para 493,9 mil toneladas, enquanto o óleo de palma cresceu 7%, atingindo 549,4 mil toneladas.

Na China, as importações de soja somaram 11,79 milhões de toneladas em maio, enquanto o esmagamento semanal atingiu 2,37 milhões de toneladas, confirmando o forte ritmo de processamento da indústria local. Apesar disso, os estoques de óleo de soja aumentaram para 960 mil toneladas, indicando uma condição de oferta mais confortável no curto prazo.

Biodiesel: liquidez do mercado spot continua fraca

Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot apresentou uma melhora no volume e os preços ficaram praticamente estatais em relação à semana anterior:

• Volume: 3.190 m³ (22,69%)
• Preço médio: R$ 5.947/m³ (-0,04%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostraram que, entre 01 e 07 de maio, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 4.896,41/m³ redução de 0,83% em relação ao valor médio da semana anterior.

A Região Centro-Oeste apresentou a maior variação entre as regiões com uma redução de 2,24%. No ano, o mercado acumula queda de 17,33%.

B16 segue no centro das atenções e mantém mercado em compasso de espera

A possível elevação da mistura obrigatória de biodiesel de B15 para B16 permaneceu como um dos principais temas do mercado ao longo da semana. Embora o presidente Lula tenha manifestado apoio público ao aumento da mistura, a decisão ainda enfrenta obstáculos técnicos e regulatórios.

Um parecer encaminhado pela área técnica do Ministério de Minas e Energia ao Conselho Nacional de Política Energética destacou que os testes obrigatórios previstos na Lei do Combustível do Futuro ainda não foram concluídos. O documento alerta para potenciais riscos operacionais, regulatórios e jurídicos caso a implementação ocorra antes da validação técnica necessária.

Apesar das ressalvas, a expectativa permanece elevada. A proximidade da próxima reunião do CNPE mantém o tema no radar dos agentes do setor, especialmente em um contexto de crescente demanda por segurança energética, maior disponibilidade de óleo de soja e busca por alternativas para reduzir a dependência do diesel importado.

Consumo recorde de diesel reforça papel estratégico do biodiesel

A demanda por diesel no Brasil continua mostrando força e reforçando a importância dos biocombustíveis para o abastecimento nacional. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis indicam que as vendas de diesel atingiram 5,65 milhões de m³ em abril, crescimento de 3,3% em relação ao mesmo mês de 2025 e novo recorde para o período.

O avanço foi liderado pela região Sudeste, com destaque para o mercado do Rio de Janeiro. Outro ponto relevante foi o desempenho do segmento de grandes consumidores, que registrou alta de 10,8%, alcançando 1,47 milhão de m³.

“Embora o volume tenha desacelerado em relação a março por fatores sazonais, os números confirmam uma tendência estrutural de crescimento do consumo de diesel no país, impulsionada pela atividade econômica, logística e demanda do agronegócio”, diz Cunha.

Subvenção ao diesel busca garantir abastecimento e conter impactos da alta internacional

O governo federal avançou na regulamentação da nova subvenção ao diesel, fixada em R$ 1,12 por litro, destinada a produtores e importadores que comprovarem o repasse integral do benefício aos preços de venda.

A medida integra o pacote emergencial adotado em resposta à volatilidade provocada pelas tensões no Oriente Médio e pelas restrições logísticas no mercado global de petróleo. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, os primeiros pagamentos devem ocorrer ainda em junho, enquanto o governo mantém aberta a possibilidade de revisão ou extensão do programa conforme a evolução do cenário internacional.

Ao mesmo tempo, os mercados de óleos vegetais passaram por uma correção técnica, pressionados pela queda do petróleo e pelo aumento dos estoques globais de óleo de soja. Apesar desse movimento, os fundamentos seguem positivos para o setor de biocombustíveis.

Entre os principais fatores de sustentação estão:

  • O crescimento contínuo da demanda por biodiesel e diesel renovável nos Estados Unidos;
  • A implementação de mandatos mais elevados de mistura na Indonésia, com destaque para o B50;
  • Os riscos climáticos associados ao El Niño, que podem afetar a produção de óleo de palma no Sudeste Asiático.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 08 a 12/06/2026