Mercado volta atenções ao biodiesel diante de petróleo volátil e excesso de óleo vegetal

O mercado de biodiesel entrou em uma nova fase de atenção regulatória. Mesmo sem definição oficial sobre o B16, os fundamentos econômicos e produtivos começam a ampliar a pressão por avanço da mistura obrigatória. A produção brasileira de biodiesel atingiu 851,3 mil m³ em abril, alta de 7% em relação ao mesmo período do ano passado, elevando o acumulado do ano para um recorde de 2,96 milhões de m³. Apesar do crescimento, o volume ficou 6,4% abaixo de março, refletindo o adiamento da elevação da mistura prevista inicialmente para este ano.

Ao mesmo tempo, o excedente de óleo de soja continua aumentando e pressionando os prêmios locais. As exportações brasileiras de óleo de soja alcançaram 207,6 mil toneladas em abril, o maior volume mensal desde julho de 2023.

Outro reflexo dessa oferta abundante está no aumento da participação do óleo de soja na matriz de matérias-primas do biodiesel, que subiu de 71,09% para 75,56% em abril. Em contrapartida, a participação do sebo bovino caiu para 5,33%, após a retomada das exportações para os Estados Unidos.

A Abiove projeta esmagamento recorde de 62,5 milhões de toneladas em 2026, com produção superior a 12,5 milhões de toneladas de óleo de soja e exportações estimadas em 1,6 milhão de toneladas.

De acordo com Filipe Cunha, head comercial Biodiesel, da SCA Brasil, o cenário reforça uma leitura importante: o mercado já opera com excedente crescente de óleo vegetal, enquanto o biodiesel ganha ainda mais relevância na formação de preços do complexo soja. A discussão sobre ampliação da mistura deixa de ser apenas regulatória e passa a ganhar peso econômico e estratégico para toda a cadeia.

Óleo de soja encontra sustentação na demanda por biocombustíveis

O óleo de soja encerrou a semana em alta, sustentado principalmente pelos fundamentos do mercado de biocombustíveis nos Estados Unidos. O contrato julho encerrou a semana em 77,72 cents/lb, valorização de 5,06% na semana.

O principal suporte veio dos créditos de descarbonização norte-americanos. Os RINs D4 atingiram aproximadamente USD 2,30/RIN, mais que o dobro do observado há um ano. Paralelamente, as margens de esmagamento à vista se aproximaram de USD 5,00 por bushel, incentivando as esmagadoras americanas a operar próximas da capacidade máxima. Os dados divulgados pela EPA reforçaram esse cenário.

Em abril, o blending de biodiesel nos Estados Unidos alcançou 129,1 milhões de galões, avanço de 10% sobre março e maior nível em aproximadamente 16 meses. O diesel renovável também cresceu 4%, atingindo 274,5 milhões de galões.

Mesmo diante da volatilidade do petróleo, o óleo de soja mostrou capacidade de descolamento parcial dos combustíveis fósseis, sustentado pela força da demanda regulatória por biocombustíveis.

Ainda de acordo com Cunha, o mercado começa a consolidar uma percepção cada vez mais clara: com maior disponibilidade de óleo vegetal, petróleo ainda volátil e crescimento da demanda energética, a ampliação da mistura obrigatória passa a ser vista como um movimento economicamente cada vez mais consistente.

Como comentado anteriormente, o prêmio local continua em queda, refletindo a grande oferta de óleo no mercado interno, e encerrou a semana em 24,40 cents/lb negativo. Apesar da redução no prêmio, o óleo de soja FOB Paranaguá subiu 1,41%, para US$ 1.175,51/t. Veja o gráfico:

Mercado global de óleos vegetais: Índia, Indonésia e Argentina entram no radar

O mercado internacional de óleos vegetais manteve atenção concentrada em três pontos estratégicos ao longo da semana: clima na Índia, política energética na Indonésia e riscos operacionais na Argentina.

Na Índia, a previsão de uma monção equivalente a apenas 90% da média histórica aumenta os riscos para a produção agrícola indiana e pode ampliar a necessidade de importações de óleos vegetais no segundo semestre.

Na Indonésia, as exportações de óleo de palma atingiram 2,01 milhões de toneladas em abril. O mercado também acompanha os impactos da nova estrutura regulatória para exportações e a implementação do programa B50, prevista para julho, fatores que tendem a sustentar a demanda doméstica.

Na Argentina, uma paralisação de trabalhadores do setor de oleaginosas foi encerrada rapidamente após intervenção do governo. Apesar do impacto limitado, o episódio reforçou a sensibilidade do mercado aos riscos operacionais do principal exportador mundial de farelo e óleo de soja.

“A combinação entre clima adverso, aumento da demanda doméstica asiática e riscos logísticos na América do Sul mantém o mercado global de óleos vegetais em estado de atenção elevada”, analisa Cunha.

Biodiesel: liquidez continua fraca, apesar de leve melhora

Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot apresentou nova semana de baixa liquidez e leve recuperação nos preços:

• Volume: 2.665 m³ (+15,82%)
• Preço médio: R$ 5.992/m³ (+2,54%)

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostraram que, entre 18 e 24 de maio, o preço médio negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 4.946,40/m³ redução de 0,69% em relação ao valor médio da semana anterior.

As Regiões Centro-Oeste e Norte, tiveram as maiores reduções, com -3,66% e -1,20%, respectivamente. No ano, o mercado acumula queda de 16,48%.

Petróleo recua com avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã
No mercado energético, a semana foi marcada pela redução do prêmio geopolítico associado ao conflito entre Estados Unidos e Irã.

O Brent encerrou a quinta-feira (28/05) cotado a USD 93,71/barril e iniciou a sexta-feira (29/05) próximo de USD 92,05/barril. O mercado passou a precificar a possibilidade de extensão do cessar-fogo por 60 dias e uma eventual normalização gradual dos fluxos pelo Estreito de Ormuz.

Apesar da queda das cotações, o cenário permanece cercado de incertezas. Divergências entre os governos, ataques pontuais e indefinições sobre sanções e questões nucleares continuam limitando uma redução mais intensa do prêmio de risco. Ao mesmo tempo, os estoques norte-americanos seguem em trajetória de queda.

Os estoques comerciais de petróleo recuaram 3,3 milhões de barris na última semana, enquanto os estoques de diesel atingiram o menor nível desde 2003, reforçando sinais de aperto estrutural no mercado físico.

A última semana do mês de maio consolidou a discussão sobre o futuro da mistura obrigatória de biodiesel como o principal tema para o mercado brasileiro. O aumento da produção, a disponibilidade recorde de óleo de soja, a expansão da capacidade industrial e a retomada das exportações evidenciam que o atual mandato B15 começa a mostrar limitações para absorver a oferta crescente de matérias-primas.

Enquanto isso, os mercados internacionais seguem sustentados pela forte demanda por biocombustíveis nos Estados Unidos e por um ambiente global ainda marcado por incertezas no petróleo. Nesse contexto, qualquer sinal regulatório relacionado ao B16 tende a ter impacto imediato sobre as expectativas do setor.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 25 a 29/05/2026