Petróleo instável mantém mercado em alerta e redefine o jogo dos biocombustíveis

A semana voltou a ser dominada pelo petróleo — e pela geopolítica. O mercado reagiu rapidamente ao anúncio de um cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã, com o Brent recuando para a faixa de US$ 93–95/bbl. Mas o alívio durou pouco. A fragilidade do acordo e novos bloqueios no Estreito de Hormuz reacenderam os prêmios de risco, levando o Brent novamente para a casa de US$ 96–98/bbl, com picos acima de US$ 102/bbl.

Oferta sob risco mantém volatilidade elevada

A instabilidade ganhou força com danos à infraestrutura saudita, incluindo perdas de produção e capacidade logística. O cenário segue incerto, com risco de disrupções prolongadas no fluxo global de petróleo, mantendo o mercado extremamente sensível a qualquer novo desdobramento no Oriente Médio, avalia Filipe Cunha, – Head comercial Biodiesel – SCA Brasil.

Óleo de soja recua, mas fundamentos seguem no radar

O óleo de soja acompanhou o petróleo e perdeu força ao longo da semana. Após testar máximas próximas de US¢ 70/lb, recuou para a faixa de US¢ 67–68/lb, influenciado pelo alívio momentâneo no petróleo e por ajustes no relatório do USDA. O WASDE trouxe aumento no esmagamento nos EUA e maior produção de óleo, indicando um balanço mais confortável no curto prazo. No Brasil, apesar da queda mensal nas exportações, o trimestre segue positivo, sustentado pela competitividade do produto nacional. A demanda da Índia continua sendo o principal ponto de atenção.

O contrato maio/2026 do óleo de soja negociado na Bolsa de Chicago fechou a semana a 67,09 cents/lb, queda de 2,68% em relação à anterior. O óleo de soja FOB Paranaguá reduziu para US$ 1.214,53/t (-2,39%), apesar do prêmio local ter subido para 12,00, o que não foi suficiente para compensar a redução do óleo de soja. Veja o quadro:

Palma em compasso de espera, com suporte estrutural

O óleo de palma apresentou viés mais pressionado, diante da expectativa de aumento sazonal da oferta no segundo trimestre. Ainda assim, a queda dos estoques na Malásia e o avanço das exportações oferecem suporte no curto prazo. De acordo com Cunha, no campo estrutural, a Indonésia formalizou o avanço do B50 até 2028, reforçando a demanda por óleo vegetal. Mesmo assim, o mercado segue cauteloso quanto à absorção global dessa oferta.

Biodiesel: regulação e competitividade entram no centro da discussão

No Brasil, o foco esteve na agenda regulatória. Entidades ligadas aos setores de transporte e combustíveis defenderam a manutenção do rigor técnico nos testes antes de qualquer avanço para níveis superiores ao atual, destacando a necessidade de garantir a segurança operacional da frota.

A discussão ocorre em meio à possibilidade de aceleração dos testes para viabilizar a mistura de até 20% de biodiesel (B20), frente aos atuais 15%. A proposta inclui a ampliação da capacidade de testes laboratoriais, reduzindo o prazo de conclusão de cerca de 14 meses para 4 meses, sem flexibilização dos critérios técnicos.

Ao mesmo tempo, avançam iniciativas para reforçar a fiscalização e combater fraudes no mercado de combustíveis, buscando maior integridade concorrencial. Outro ponto relevante foi a isenção de PIS/Cofins sobre o biodiesel (R$ 0,148/L). Apesar do impacto limitado no preço final, a medida corrige distorções tributárias e reforça a competitividade do biocombustível frente aos fósseis.

Mercado spot com baixa liquidez

Segundo levantamento da SCA Brasil, o mercado spot de biodiesel manteve baixa liquidez na semana e os preços ficaram de lado em relação à semana anteriro:

  • Volume: 1.310 m³ (-42,2%)
  • Preço médio: R$ 5.759/m³ (-0,6%)

Segundo o levantamento realizado entre 30/03 e 05/04 pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidores ficou em R$ 5.148,73, valorização de 1,40% em relação ao valor médio da semana anterior. As regiões Sudeste e Nordeste apresentaram as maiores valorizações, com 2,65% e 1,76% respectivamente. O mercado acumula uma redução de 13,07% no ano.

Leitura estratégica: petróleo no curto prazo, fundamentos no longo

O destaque para a semana do mercado do biodiesel será o início das negociações para a renovação dos contratos para o terceiro bimestre do ano, analisa Cunha.

Segundo a ANP, as distribuidoras terão uma meta de contratação de 1.348 mil m3, 2,43% acima do bimestre anterior.

O mercado segue dividido entre dois vetores:

• Curto prazo: dominado pela geopolítica e pelo petróleo

• Longo prazo: sustentado pela demanda estrutural por biocombustíveis

No radar: evolução do conflito no Oriente Médio, demanda por óleos vegetais (especialmente da Índia), próximos relatórios do USDA e o avanço do B50 na Indonésia.

Em um cenário de alta volatilidade, a leitura integrada entre energia, insumos e biocombustíveis será decisiva para capturar oportunidades e mitigar riscos, conclui o especialista.

SCA Brasil Biodiesel
Boletim Semanal – 06 a 10/04/2026