Rússia suspende exportações de fertilizantes e ameaça abastecimento global: país responde por 25,9% dos adubos do Brasil e decisão ocorre em meio à crise no Estreito de Ormuz

A decisão da Rússia de suspender temporariamente as exportações de nitrato de amônio acendeu um alerta imediato no mercado global de fertilizantes, especialmente no Brasil, que depende fortemente do fornecimento externo para sustentar sua produção agrícola, diz nota do “CPG”. O movimento, que terá duração de um mês, ocorre em um momento delicado, marcado por tensões geopolíticas e gargalos logísticos que impactam diretamente o comércio internacional de insumos estratégicos.

A informação foi divulgada pela Reuters, com base em declarações oficiais do Ministério da Agricultura russo, que confirmou a interrupção das exportações até o dia 21 de abril. Segundo o órgão, a medida visa garantir o abastecimento interno durante a temporada de plantio da primavera, considerada uma das mais importantes para o país.

Além disso, o contexto global agrava ainda mais o cenário. Isso porque o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do mundo, afeta diretamente o transporte de amônia — componente essencial na produção de nitrato de amônio. Atualmente, cerca de 24% do comércio global dessa substância passa pela região, o que intensifica a pressão sobre a cadeia de fertilizantes.

Dependência do Brasil expõe vulnerabilidade estratégica

O impacto da decisão russa é ainda mais significativo quando se observa a forte dependência brasileira por fertilizantes importados. Em 2025, a Rússia foi responsável por 25,9% de todos os adubos químicos comprados pelo Brasil, segundo dados do Ministério do Comércio Exterior.

Esse dado evidencia um ponto crítico: o agronegócio brasileiro, embora seja um dos maiores do mundo, ainda depende fortemente de insumos estrangeiros para manter sua produtividade. E, diante de uma interrupção repentina no fornecimento, o risco de impacto nos custos e na produção se torna real.

Além disso, a Rússia ocupa uma posição dominante no mercado global. O país responde por cerca de um quarto da produção mundial de nitrato de amônio e controla até 40% do comércio internacional desse insumo. Ou seja, qualquer decisão interna tem repercussão imediata no cenário global.

Para agravar a situação, a Rússia já enfrenta limitações produtivas. Isso porque não há capacidade de aumentar a produção neste ano, especialmente diante de uma crise global de abastecimento. Como resultado, a tendência é de maior pressão sobre preços e disponibilidade.

Ataques, restrições e logística pressionam o mercado

Outro fator relevante que contribui para esse cenário é o impacto direto de eventos recentes na infraestrutura produtiva russa. Em fevereiro, drones ucranianos atingiram a fábrica de Dorogobuzh, considerada o principal ativo da empresa Acron, responsável por cerca de 11% da produção de nitrato de amônio da Rússia.

De acordo com estimativas, a unidade não deve retomar sua plena capacidade antes de maio, o que reduz ainda mais a oferta disponível no mercado internacional. Consequentemente, a combinação de fatores — conflitos, restrições e gargalos logísticos — intensifica a instabilidade no setor.

Além disso, o governo russo já vinha adotando medidas de controle desde 2021, com limites de exportação e orientação para que os produtores priorizassem o mercado interno. Agora, com a nova suspensão total de licenças (exceto contratos governamentais), o movimento se torna ainda mais rígido.

Vale destacar que o nitrato de amônio não é utilizado apenas na agricultura. O insumo também possui aplicação na produção de explosivos, o que o torna ainda mais sensível em cenários de conflito e segurança internacional.

Por que o Brasil depende tanto de fertilizantes externos

Para entender a dimensão do problema, é fundamental analisar a estrutura do mercado brasileiro de fertilizantes. De acordo com especialistas, três insumos formam a base da adubação agrícola: o NPK — nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K).

No entanto, o Brasil importa cerca de 95% do nitrogênio que utiliza, além de 75% do fosfato e 91% do potássio. Esses números evidenciam uma dependência estrutural que não pode ser revertida no curto prazo.

Segundo o professor Cicero Lima, da FGV Agro, essa realidade se deve a fatores como a escassez de matérias-primas no território nacional e o alto custo de produção local. No caso do nitrogênio, por exemplo, a produção exige gás natural barato, o que coloca países como Estados Unidos, Rússia e Catar em vantagem competitiva.

Além disso, o potássio está concentrado em poucos países, como Canadá, Rússia e Bielorrússia, que dominam o mercado global. Já o fosfato disponível no Brasil apresenta qualidade inferior e maior custo de exploração, dificultando sua viabilidade econômica.

Outro ponto importante é a demanda interna elevada. O Brasil, sendo um dos maiores produtores de alimentos do mundo, possui solos naturalmente pobres em nutrientes, o que exige adubação frequente para manter níveis altos de produtividade.

Culturas como soja, milho, café e cana-de-açúcar são grandes consumidoras de fertilizantes, o que amplia ainda mais a dependência externa. Como resultado, qualquer interrupção no fornecimento internacional gera impactos diretos na cadeia produtiva.

Plano nacional tenta reduzir dependência até 2050

Diante desse cenário, o governo brasileiro já iniciou esforços para reduzir essa vulnerabilidade. Em 2022, foi lançado o Plano Nacional de Fertilizantes, com o objetivo de aumentar a produção interna e diminuir a dependência externa ao longo das próximas décadas.

A meta estabelecida é ambiciosa: produzir entre 45% e 50% dos fertilizantes consumidos no país até 2050. Para isso, o governo prevê investimentos superiores a R$ 25 bilhões até 2030, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária.

No entanto, especialistas alertam que os resultados serão graduais. Isso porque a construção de uma cadeia produtiva robusta exige tempo, infraestrutura e condições econômicas favoráveis.

Enquanto isso, o Brasil segue exposto às oscilações do mercado internacional. E, diante de decisões como a da Rússia, fica evidente que a segurança alimentar do país também passa por questões geopolíticas e estratégicas.

Fonte: CPG