
O avanço no preço da gasolina no mercado internacional já começa a provocar reflexos nas expectativas do setor sucroenergético brasileiro e pode influenciar também o comportamento do etanol nos próximos meses, diz nota do “Movimento Econômico”. Embora o biocombustível siga sua própria dinâmica de oferta e demanda, a alta da gasolina tende a alterar a relação de competitividade entre os dois combustíveis e pode provocar ajustes no valor do etanol nas bombas.
O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, avalia que o etanol pode ganhar espaço nesse cenário se houver políticas públicas que reforcem sua competitividade frente à gasolina. Para ele, a previsibilidade na política de preços da Petrobras continua sendo um dos fatores centrais para o equilíbrio do mercado. “É fundamental que exista uma política clara e que ela seja seguida. Alterações frequentes ou sem transparência geram instabilidade em toda a cadeia de combustíveis”, afirma.
Segundo Cunha, embora historicamente o preço do etanol acompanhe movimentos da gasolina, a tendência atual é de que o biocombustível possa se tornar relativamente mais competitivo. A avaliação leva em conta medidas que vêm sendo discutidas pelo governo, como o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, atualmente em torno de 30%, para 32%.
De acordo com o dirigente, a estratégia tem potencial para reduzir o impacto da gasolina no preço final ao consumidor. “O etanol anidro é mais barato que a gasolina. Quando se aumenta a mistura, cria-se um mecanismo que ajuda a ancorar o preço final e, ao mesmo tempo, fortalece uma matriz energética mais limpa”, explica.
Outra medida defendida pelo setor seria ampliar mecanismos de incentivo ao consumo do biocombustível, incluindo a possibilidade de desoneração tributária, a exemplo do que ocorreu recentemente com o diesel.
Safra menor de cana-de-açúcar e impacto no etanol
O comportamento da oferta também influencia as perspectivas de preço. No Norte e Nordeste, a safra de cana-de-açúcar deve apresentar leve retração no próximo ciclo. Projeções da consultoria StoneX apontam que a moagem na região deverá alcançar 55,5 milhões de toneladas na safra 2025/26 (setembro a agosto), queda de 3,6% em relação ao período anterior.
O levantamento aponta ainda que, até o início de fevereiro, a moagem acumulada havia alcançado 48,03 milhões de toneladas, volume 5,5% inferior ao registrado no mesmo período do ciclo anterior. Segundo a consultoria, o desempenho menor está associado principalmente ao atraso no início da safra, provocado pelo excesso de chuvas em setembro. Apesar da expectativa de alguma recuperação no início de 2026, a StoneX projeta que o volume total processado ainda ficará abaixo do registrado no ciclo anterior.
Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Pernambuco (Faepe), Pio Guerra, o cenário internacional ainda exige cautela nas projeções sobre preços e produção de combustíveis no país. Segundo ele, a elevação do petróleo tende a repercutir em toda a cadeia energética e logística.
“O aumento do petróleo acaba impactando custos de produção e de transporte. Esses efeitos costumam aparecer ao longo do tempo e podem influenciar a próxima safra”, avalia.
Fonte: Movimento Econômico