O que falta ao biocombustível do futuro

Crédito: Ilustração gerada por IA

A transição energética deixou de ser uma ambição distante para se tornar um vetor de competitividade, além de um imperativo climático. O mundo busca soluções limpas e escaláveis. O Brasil ocupa uma posição privilegiada com o etanol, um ativo industrial e diplomático ancorado em uma economia circular madura e testada em larga escala, diz Bruno Serapião, engenheiro pelo ITA com MBA pelo INSEAD, e CEO da Atvos, em artigo no “Ag Feed”.

Produzido a partir da biomassa renovável, o biocombustível reúne atributos raros: alta densidade energética, baixa pegada de carbono e a capacidade de reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em relação aos combustíveis fósseis. Falta, porém, o passo decisivo: uma estratégia nacional integrada e de longo prazo para converter vantagem em liderança global, via exportação, inovação e diplomacia energética.

Do Proálcool (1975) à Lei do Combustível do Futuro (2024), construímos bases institucionais e técnicas sólidas. Passamos de programa emergencial a um sistema energético confiável. O parque industrial brasileiro tem hoje 430 usinas, produz 37 bilhões de litros/ano de etanol, 18 mil GWh de bioeletricidade e potencial enorme para biometano. É circularidade plena: bagaço vira energia; vinhaça e torta de filtro, biofertilizantes – reduzindo a dependência de insumos importados.

Inclusive, a Lei do Combustível do Futuro dá ao Brasil uma oportunidade rara: usar a regulação para acelerar a descarbonização dos transportes e, ao mesmo tempo, criar previsibilidade de demanda para os novos combustíveis.

Um plano nacional urge, coordenando governo, instituições de fomento e setor privado. O etanol brasileiro precisa ser visto como solução rastreável de descarbonização, além de produto.

O etanol também se consolida como matéria-prima estratégica para o SAF e alternativa ao transporte marítimo, com a Maersk já testando misturas de até 50% de etanol em combustíveis navais.

Enquanto o Brasil já opera com misturas elevadas de etanol e possui autorização técnica para avançar ainda mais, grandes economias permanecem limitadas a patamares bem inferiores, o que amplia a janela para o país exportar não só combustível, mas um pacote completo: tecnologia, regulação e desenho de mercado capaz de garantir demanda para rotas de descarbonização hoje em disputa.

O etanol é o “novo petróleo” porque pode sustentar a reindustrialização verde: limpa, competitiva e justa. O desafio é construir uma estratégia nacional que converta essa força produtiva em liderança geopolítica reconhecida.

Fonte: Ag Feed