Recuperações judiciais atingem novo recorde e cana-de-açúcar amplia participação no fim de 2025

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O Brasil encerrou o quarto trimestre de 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, novo recorde da série histórica do Monitor de Recuperação Judicial da RGF & Associados. O total representa alta de 7,5% em relação ao terceiro trimestre e crescimento de 24,3% na comparação anual, refletindo um ambiente prolongado de deterioração financeira ao longo do ano, diz nota da “RPA News”.

De acordo com a consultoria, o avanço observado no fim de 2025 está menos associado a choques pontuais e mais ao esgotamento das alternativas de curto prazo por parte das empresas, especialmente em um período de fechamento de exercício, quando se concentram pagamentos, renegociações e ajustes de balanço.

O Índice RGF de Recuperação Judicial, que mede a proporção de empresas em recuperação judicial a cada mil empresas ativas, subiu de 2,04 no 3T25 para 2,13 no 4T25, reforçando a tendência de piora do quadro econômico-financeiro no país.

Agropecuária segue como o pilar mais vulnerável

Entre os pilares da economia analisados, a agropecuária permaneceu como o segmento mais vulnerável. Ao final do quarto trimestre, o pilar somava 493 empresas em recuperação judicial, crescimento de 14,2% frente ao trimestre anterior. O índice setorial atingiu 13,53, o mais elevado entre todos os pilares monitorados.

Segundo a RGF, o desempenho reflete a combinação de eventos climáticos adversos, volatilidade nos preços das commodities agrícolas e restrição de crédito, fatores que afetam de forma mais intensa empresas com maior dependência de capital de giro e financiamento de curto prazo.

Cultivo de cana-de-açúcar ganha peso entre as recuperações do agro

Dentro do pilar agropecuário, o segmento de cultivo de cana-de-açúcar apresentou aumento no número de empresas em recuperação judicial no encerramento de 2025. O total passou de 45 empresas no terceiro trimestre para 50 no quarto trimestre, indicando crescimento absoluto do segmento no período.

No relatório do 3T25, a cana-de-açúcar já figurava entre as atividades com maior número de recuperações judiciais no agro. A evolução observada no 4T25 confirma a manutenção da pressão financeira sobre produtores da cultura, em um contexto de custos elevados, margens comprimidas e maior dificuldade de acesso ao crédito.

De acordo com a consultoria, embora o cultivo de cana não concentre a maior fatia das recuperações judiciais do pilar agropecuário, o crescimento no número de casos evidencia fragilidade crescente do segmento diante de um cenário econômico mais restritivo.

Fabricação de açúcar mantém presença relevante na indústria

No pilar industrial, que encerrou o quarto trimestre com 1.229 empresas em recuperação judicial, o segmento de fabricação de açúcar em bruto manteve-se entre as atividades com maior número absoluto de casos.

O total de empresas do segmento em recuperação judicial passou de 39 no 3T25 para 40 no 4T25, permanecendo entre os destaques negativos da indústria ao longo de 2025. A recorrência do setor entre os segmentos mais afetados reforça a sensibilidade das usinas de açúcar ao custo da dívida, à volatilidade de preços e às restrições de crédito observadas ao longo do ano.

Segundo a RGF, diferentemente do agro, as recuperações judiciais da indústria estão mais distribuídas entre diferentes atividades, mas a presença constante da fabricação de açúcar indica um padrão estrutural de pressão financeira no setor.

Endividamento cresce com novas entradas em recuperação judicial

Outro ponto de destaque do relatório do quarto trimestre foi a forte expansão do volume de dívidas das empresas que ingressaram em recuperação judicial no período. O montante total alcançou R$ 40 bilhões, frente a R$ 16 bilhões registrados no trimestre anterior.

De acordo com a consultoria, o aumento está associado à entrada de empresas com maior porte e estruturas de endividamento mais robustas, o que elevou significativamente o valor médio das dívidas envolvidas nos novos processos.

Apesar disso, a proporção de empresas que encerraram processos de recuperação judicial e seguiram para falência apresentou recuo, passando de 37% no 3T25 para 29% no 4T25. Ainda assim, o patamar segue acima da média observada até 2024, indicando maior complexidade na reestruturação financeira das empresas.

Na avaliação da RGF, os dados do fim de 2025 indicam que um número crescente de empresas chegou a um limite financeiro, após sucessivos trimestres de postergação de decisões estruturais. Para setores intensivos em capital, como o sucroenergético, a combinação de juros elevados, crédito seletivo e exposição a riscos climáticos tende a manter o ambiente desafiador no curto prazo.

Segundo a consultoria, o cenário reforça a necessidade de maior disciplina financeira, reestruturação de passivos e adaptação operacional, especialmente entre empresas ligadas à produção de cana-de-açúcar e à fabricação de açúcar.

Fonte: RPA News