O etanol brasileiro pode estar diante de uma nova fronteira de demanda: o transporte marítimo. Enquanto o governo começa a estruturar as regras para o uso de biocombustíveis em embarcações, grandes armadores já investem em navios capazes de operar com etanol.
A dimensão potencial desse mercado chama atenção. Em um cenário apresentado pelo setor sucroenergético, uma participação de apenas 10% de etanol no combustível marítimo poderia representar demanda próxima de 50 bilhões de litros. O percentual, porém, não é uma proposta oficial nem uma mistura já definida pelo governo.
Governo começa a desenhar as regras
O Ministério de Minas e Energia iniciou conversas com produtores e representantes do governo para reunir contribuições destinadas à construção do marco regulatório para combustíveis sustentáveis na navegação.
Ainda estão em discussão questões como metas, abrangência, infraestrutura, abastecimento e critérios para utilização dos biocombustíveis. O avanço regulatório será fundamental para transformar a disponibilidade brasileira de etanol em demanda efetiva nos portos.
Navios já começam a se preparar para o etanol
Enquanto a regulamentação avança, a indústria naval se movimenta. A japonesa MOL anunciou contrato de 25 anos com a Vale International para operar dois mineraleiros com capacidade de 210 mil toneladas cada, previstos para entrega em 2030.
O destaque está na propulsão: os navios terão motores tri-fuel, capazes de utilizar óleo combustível, metanol ou etanol. O projeto também permitirá futuras adaptações para GNL ou amônia.
Segundo a MOL, considerando o ciclo de vida, o uso de etanol pode proporcionar redução de aproximadamente 90% nas emissões de carbono em comparação ao óleo combustível pesado.
O movimento vai além desses dois navios. Segundo informações citadas pelo setor, 336 embarcações multicombustíveis já estariam encomendadas com previsão de entrega até 2030, ampliando a frota potencialmente apta a consumir etanol ou metanol.
Nova demanda pode mudar a escala do setor
Para o segmento sucroenergético, o transporte marítimo surge justamente quando a indústria brasileira busca novos mercados capazes de absorver o crescimento da oferta de etanol.
A oportunidade, entretanto, depende de mais do que disponibilidade do combustível. Será necessário construir uma cadeia capaz de produzir, transportar, armazenar e abastecer etanol nos portos, além de estabelecer regras e critérios de sustentabilidade compatíveis com o mercado internacional.
Com navios sendo projetados para consumir o combustível e o Brasil entre os grandes produtores mundiais de etanol, a discussão deixa de ser apenas tecnológica. A questão agora é se o país conseguirá transformar sua vantagem produtiva em uma nova demanda global para o biocombustível.
Fonte: Porto Estaleiro – Veja na íntegra aqui