O Ministério de Minas e Energia (MME) iniciou as discussões para regulamentar o uso de biocombustíveis no transporte marítimo, com foco na utilização do etanol como alternativa para reduzir o consumo de combustíveis fósseis pelas embarcações. A iniciativa abre uma nova perspectiva de demanda para o setor sucroenergético brasileiro.
O primeiro encontro entre representantes do governo e produtores ocorreu no início de outubro, em Brasília. Durante a reunião, o setor propôs a criação de uma agenda de trabalho para avançar na regulamentação do uso de etanol em combustíveis marítimos.
Segundo Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE e vice-presidente da Bioenergia Brasil, uma mistura de 10% de etanol ao óleo bunker poderia representar um mercado potencial de aproximadamente 50 bilhões de litros. O percentual, entretanto, ainda é uma hipótese em discussão e não constitui uma exigência regulatória.
O MME anunciou que pretende encaminhar ao Congresso Nacional, ainda neste ano, um projeto de lei para instituir uma política nacional de combustíveis sustentáveis de navegação. A proposta em discussão prevê metas obrigatórias de descarbonização, enquanto representantes do setor defendem alinhamento com as diretrizes da Organização Marítima Internacional (IMO).
O avanço regulatório ocorre em um momento de expansão dos investimentos em embarcações capazes de utilizar combustíveis alternativos. Armadores já encomendaram 336 navios projetados para operar com metanol ou potencialmente adaptáveis ao etanol, com entregas previstas até 2030.
Segundo as estimativas apresentadas pelo setor, essas embarcações poderiam representar uma demanda de 15 bilhões a 20 bilhões de litros de combustíveis alternativos. A participação efetiva do etanol dependerá das adaptações tecnológicas, da infraestrutura de abastecimento e de sua competitividade econômica.
Empresas internacionais já avançam na avaliação do biocombustível. A Maersk realizou testes com etanol puro em uma embarcação bicombustível no Porto de Roterdã, enquanto a CMA CGM desenvolveu uma operação de abastecimento com etanol no Porto de Santos. A Vale também investe em projetos de navios preparados para combustíveis alternativos. Apesar do potencial, a substituição gradual do bunker ainda enfrenta desafios regulatórios, tecnológicos e comerciais. Uma decisão prevista para dezembro na IMO poderá influenciar o ritmo de adoção dos combustíveis de menor intensidade de carbono no transporte marítimo.
Para o Brasil, a abertura desse mercado representa uma oportunidade de ampliar o consumo de etanol além do setor automotivo, aproveitando a capacidade produtiva nacional e o crescimento da oferta de etanol de milho. A consolidação dessa demanda, porém, dependerá de regras claras, investimentos portuários e condições competitivas de fornecimento.
Fonte: CNN Brasil – Veja na íntegra aqui