
O crescimento vigoroso da produção de etanol a partir do milho tem ocorrido primordialmente sobre áreas agrícolas já consolidadas, evitando o avanço sobre a vegetação original do Cerrado – região que concentrou, na safra passada, 99,6% de toda a produção brasileira do biocombustível.
Esse avanço é resultado, sobretudo, da moagem de milho de segunda safra, cultivado logo após a colheita da soja de verão. “O sistema de produção do etanol de milho de segunda safra otimiza o uso da terra e reduz a necessidade por áreas agrícolas”, destacam Luciane Chiodi Bachion e Sofia Marques Arantes, respectivamente sócia e pesquisadora da Agroicone, consultoria especializada em agronegócio, sustentabilidade e comércio internacional.
Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a produção de etanol no Brasil cresceu 30,8% nas últimas dez safras, passando de 28,480 bilhões para um recorde de 37,253 bilhões de litros entre os ciclos 2014/15 e 2024/25, encerrado em março. O incremento foi de 8,773 bilhões de litros, dos quais pouco menos de 8,106 bilhões vieram de plantas de etanol de milho – o equivalente a 92,4% de todo o crescimento da indústria no período.
Atualmente, 24 plantas operam no setor – 10 em Mato Grosso e sete em Goiás –, produzindo na safra 2024/25 cerca de 8,191 bilhões de litros. Isso representa quase 22% de toda a produção brasileira, contra apenas 0,3% em 2014/15 e 7,9% há cinco anos. Em pouco mais de uma década, a produção de etanol de milho no Brasil se multiplicou por 100, saltando de 84,9 milhões de litros em 2014/15 para os atuais patamares.
Avanço contratado
A expansão tende a continuar. A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) estima produção próxima de 10 bilhões de litros neste ano. Já a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) autorizou a implantação de 16 novas plantas, com investimento estimado em R$ 40 bilhões nos próximos anos.
Sete dessas unidades ficarão em Mato Grosso, mas há projetos também para Bahia, Paraná, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. Outras 16 plantas foram anunciadas por investidores privados, sendo oito em Mato Grosso e duas em Goiás, além de uma unidade prevista para Bahia, Pará, Piauí e Tocantins, cada.
No início de agosto, a São Martinho anunciou investimento de R$ 1,1 bilhão para ampliar em 80% a capacidade de sua planta de etanol de milho em Quirinópolis (GO), alcançando 485 milhões de litros anuais. A Petrobras, por sua vez, avalia voltar a investir no setor, agora a partir do milho.
Balanço
Luciane Chiodi Bachion e Sofia Marques Arantes destacam que a produção de biocombustíveis, ao longo de mais de 15 anos, foi alvo de questionamentos sobre seu desempenho ambiental. Nos EUA, por exemplo, estudos apontam que a expansão da área destinada ao milho para etanol poderia gerar mais emissões, revertendo ganhos ambientais.
No Brasil, porém, a realidade é distinta. Avanços tecnológicos e agrícolas elevaram a produtividade e disseminaram a produção em múltiplas safras. O milho de segunda safra respondeu por quase 80% da colheita do grão em 2024/25, com 109,6 milhões de toneladas de um total de 137 milhões. Em Mato Grosso, maior produtor nacional, 98,9% da safra veio de plantios de segunda safra, o que reforça a sustentabilidade do modelo.
Segundo as pesquisadoras, as lavouras de segunda safra permitem melhor proteção do solo e uso mais racional dos recursos. No sistema “soja-milho”, o cultivo sucessivo maximiza a utilização da mesma área, gerando efeitos positivos também sobre a fertilidade e a conservação dos solos.
Entre 2000/01 e 2024/25, a área de milho segunda safra aumentou em 14 milhões de hectares, enquanto o milho de primeira safra perdeu 6,8 milhões de hectares. No mesmo período, a soja avançou 33 milhões de hectares, chegando a 47 milhões. Grosso modo, 42% da expansão da soja foi acompanhada pelo milho safrinha.
No Centro-Oeste, que responde por 72% da produção nacional de milho de segunda safra, a cultura ocupou 11,06 milhões de hectares em 2024/25, equivalendo a 50,2% da área de soja. Ou seja, ainda existe um espaço semelhante que pode ser aproveitado para novas safras sem necessidade de desmatamento.
Um estudo da Nature Sustainability (Gurgel et al., 2024) mostra que a produção de 5 bilhões de litros adicionais de etanol de milho safrinha demandaria apenas 600 mil hectares em áreas já consolidadas – o equivalente a 2,7% da soja no Centro-Oeste. Além disso, o processo gera subprodutos como os grãos secos de destilaria (DDG), que substituem milho e farelo de soja na nutrição animal, liberando 25 mil hectares para a produção de alimentos.
O uso do DDG contribui ainda para a intensificação da pecuária, reduzindo a necessidade de 168 mil hectares de pastagens e estimulando o reflorestamento em outros 50 mil hectares. “Isso mostra que o sistema produtivo do etanol de milho de segunda safra é capaz de produzir energia limpa, reforçar a nutrição animal e liberar áreas para alimentos, sem pressionar novas fronteiras agrícolas”, resumem Luciane e Sofia.
Por Lauro Veiga Filho
Fonte: O Hoje