Diesel bate recorde, petróleo dispara e EPA sustenta o óleo de soja

O que realmente mudou nesta semana?


• A retomada das hostilidades no Oriente Médio levou o Brent a US$ 96,28/barril, alta de 9,3%, enquanto o diesel atingiu níveis recordes nos EUA.
• A EPA concedeu 1,76 bilhão de RINs em isenções, mas sinalizou a realocação de 770 milhões; ao mesmo tempo, o consumo americano de óleo de soja para biocombustíveis bateu novo recorde.
• A China confirmou 530 mil toneladas de novas compras de soja americana, enquanto a condição das lavouras dos EUA caiu para 58% boa ou excelente.
• O óleo de palma voltou a ganhar suporte com os riscos do El Niño, apesar da expectativa de aumento dos estoques na Malásia.
• No Brasil, os fees do 5º bimestre avançaram em todas as regiões monitoradas pela Argus, embora ainda permaneçam pressionados frente ao ano anterior.

“A geopolítica voltou a pressionar petróleo e diesel, enquanto a decisão da EPA e o consumo recorde de óleo de soja reforçaram a sustentação dos óleos vegetais, mesmo diante de uma oferta confortável de soja.” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Petróleo sobe, mas pressão sobre o diesel é ainda maior

A retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã devolveu o prêmio de risco ao mercado de petróleo. O Brent encerrou a semana a US$ 96,28/barril, alta de 9,3%, enquanto o WTI avançou 9,7%, para US$ 91,48/barril. O tráfego pelo Estreito de Ormuz permaneceu muito abaixo dos níveis históricos, mantendo as preocupações com a oferta global.

No mercado de derivados, o cenário segue ainda mais apertado. O diesel nos Estados Unidos atingiu US$ 5,82/galão, novo recorde, enquanto o crack Heating Oil-WTI alcançou US$ 108/barril. Os estoques na Costa Leste norte-americana recuaram para 19,3 milhões de barris, também o menor nível histórico.

A Rússia prorrogou até 30 de setembro as restrições às exportações de diesel, enquanto a OPEP+ manteve as cotas de produção para outubro. A combinação entre restrições logísticas, tensões geopolíticas e perdas de capacidade de refino mantém elevada a pressão sobre os derivados.

EPA reduz incerteza, mas não elimina volatilidade do óleo de soja

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) concedeu 1,76 bilhão de RINs em isenções para pequenas refinarias, acima dos 990 milhões considerados originalmente. Para compensar a diferença, sinalizou a realocação integral de aproximadamente 770 milhões de RINs entre as obrigações de 2026 e 2027.

O mercado reagiu inicialmente com forte valorização, e o contrato de dezembro avançou 7,2% em três sessões. Parte desse movimento, entretanto, foi posteriormente devolvida com a realização de lucros. O contrato de outubro encerrou a semana cotado a 68,89 cents/lb, com queda de 2,73% no período.

Os fundamentos físicos, porém, continuaram oferecendo suporte. O consumo de óleo de soja pelos biocombustíveis americanos atingiu 707,6 mil toneladas em junho, alta de 49% a.a. e novo recorde, elevando sua participação nas matérias-primas para 41,2%. O esmagamento também bateu recorde em julho, com 6,04 milhões de toneladas processadas.

No Brasil, o óleo de soja FOB Paranaguá valorizou na semana, com o basis compensando a queda de Chicago. Veja o gráfico:

De acordo com a SCA Brasil, a maior demanda efetiva e a perspectiva de recomposição das obrigações mantêm suporte estrutural para o óleo de soja.

“O foco agora migra do volume das isenções para a forma como a demanda será recomposta”, avalia Cunha.

China amplia compras enquanto condição da soja americana piora

O USDA confirmou novas vendas de 530 mil toneladas de soja para a China, realizadas em três dias consecutivos e destinadas à safra 2026/27. Ao mesmo tempo, apenas 58% das lavouras norte-americanas foram classificadas em condições boas ou excelentes, ante 60% na semana anterior.

A perspectiva de uma safra elevada permanece, mas a combinação entre a deterioração das condições das lavouras e o aumento da demanda chinesa reduz parte da pressão baixista que uma oferta elevada exerceria, isoladamente, sobre as cotações em Chicago.

“A combinação entre o aumento das compras chinesas de soja dos Estados Unidos e a revisão para baixo da safra norte-americana reforça um cenário altista para a soja na Bolsa de Chicago. Com a valorização internacional e a menor disponibilidade de soja no Brasil neste período de final de safra, o produtor tende a encontrar maior atratividade nas exportações. Isso aumenta a disputa pela matéria-prima no mercado doméstico e pode elevar o custo de aquisição da indústria de esmagamento. Como consequência, esse movimento tende a dar sustentação não apenas aos preços da soja no Brasil, mas também aos seus derivados, como óleo e farelo, com reflexos sobre os custos de produção do biodiesel”, observa Filipe Cunha, head de Biodiesel da SCA Brasil.

Palma segue dividida entre estoques e risco climático

O contrato novembro encerrou a semana com alta de 0,76%, sustentado pelas preocupações com o El Niño. A GAPKI reduziu sua estimativa de produção da Indonésia para 58,5 milhões de toneladas em 2026 e 56,8 milhões em 2027, enquanto o B50 continua ampliando a absorção doméstica.

No curto prazo, estoques malaios estimados em 2,76 milhões de toneladas, alta de 4,9% em agosto, limitam os preços. Em sentido contrário, a Índia importou volume recorde de 601 mil toneladas de óleo de soja e 780 mil toneladas de palma.

Biodiesel mantém sequência de recuperação no Brasil

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 24 e 30 de agosto, o preço médio do biodiesel ficou em R$ 5.362,81/m³, alta de 0,92% em relação à semana anterior.

Todas as regiões registraram valorização, com destaque para o Sudeste (+1,15%) e o Sul (+1,02%). Apesar da recuperação recente, o preço ainda acumula queda de 9,45% em 2026.

Mercado spot permanece com pouca liquidez

Levantamento da SCA Brasil apontou outra redução na movimentação do mercado spot de biodiesel na semana.

O volume negociado recuou 8,33%, para apenas 165 m³, enquanto o preço médio ficou em R$ 6.271/m³, subida de 1,42% em relação à semana anterior.

Biodiesel: contratação avança e fees mostram recuperação

A contratação de biodiesel para o 5º bimestre alcançou 1,8 milhão de m³, envolvendo 53 usinas e 104 distribuidoras. O volume recuou 3,32% em relação ao bimestre anterior e 0,81% na comparação anual. No acumulado de 2026, entretanto, as contratações registram alta de 8,41%.

Levantamento divulgado pela Argus apontou aumento dos fees em todas as regiões analisadas, com valores variando de R$ 19/m³ na Bahia a R$ 166/m³ no sul de Goiás. Na média, a recuperação ficou próxima de R$ 100/m³.

O movimento confirma uma recuperação dos fees após os níveis mais pressionados observados nos últimos bimestres, embora ainda sem recomposição integral das margens dos produtores. A elevada disponibilidade de biodiesel e as condições do mercado de óleo de soja continuam limitando o espaço para avanços mais expressivos.

Fiscalização avança para maior rastreabilidade no mercado de biocombustíveis

A agenda de fiscalização do mercado de combustíveis continuou avançando. A ANP abriu consulta pública para ampliar o uso de dados fiscais eletrônicos no monitoramento do cumprimento da mistura obrigatória, permitindo confrontar, de forma mais ágil, informações sobre estoques, compras de biodiesel e vendas de diesel B. A Consulta Pública nº 17/2026 permanece aberta até 13 de outubro.

Em paralelo, a Comissão de Infraestrutura do Senado aprovou, nesta semana, o PLP 109/2025, que amplia o acesso da ANP aos dados das notas fiscais dos agentes regulados.

As duas iniciativas reforçam a tendência de maior rastreabilidade da cadeia e de uma fiscalização mais próxima do tempo real, ampliando a capacidade de monitoramento do cumprimento das regras no mercado de combustíveis.

O que observar na próxima semana?

• EUA: condições das lavouras e WASDE de setembro, com novas projeções para soja e óleo;
• Ásia: dados do MPOB em 10/09 e eventual confirmação do aumento dos estoques de palma;
• Energia: hostilidades no Oriente Médio, tráfego por Ormuz e capacidade de refino russa;
• Brasil: evolução dos preços e dos fees após o início do 5º bimestre.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 31/08 a 06/09/2026