
O mercado global de açúcar deve continuar com produção maior que o consumo na safra 2025/26, mas com um excedente cada vez menor. A principal razão está nas decisões das usinas brasileiras sobre o uso da cana-de-açúcar e na revisão da safra da Índia, dois fatores que têm impacto direto no equilíbrio internacional da commodity.
Segundo estimativas da StoneX, empresa internacional de inteligência de mercado e serviços financeiros, o superávit mundial do açúcar foi reduzido de 2,9 milhões para cerca de 870 mil toneladas no ciclo atual, que vai de outubro de 2025 a setembro de 2026, diz nota do “RCN67”.
Brasil segue no centro do mercado mundial
O Brasil permanece como o principal produtor e exportador global de açúcar, e qualquer mudança na estratégia das usinas tende a repercutir no mercado internacional.
No Centro-Sul, principal região produtora do país, a safra 2025/26 deve terminar com cerca de 40,4 milhões de toneladas de açúcar. Para o próximo ciclo, no entanto, o setor pode destinar uma parcela maior da cana para a produção de etanol.
A estimativa para a safra 2026/27 aponta moagem de aproximadamente 620,5 milhões de toneladas de cana, com leve crescimento de área e recuperação parcial da produtividade agrícola.
Mesmo com esse avanço na moagem, o chamado mix açucareiro — indicador que mostra quanto da cana é transformado em açúcar — deve cair para 48,7%, abaixo dos 49,3% estimados anteriormente.
Com essa mudança, a produção brasileira de açúcar pode ficar próxima de 40 milhões de toneladas, cerca de 700 mil toneladas abaixo das projeções anteriores.
Para o analista de inteligência de mercado da StoneX, Rafael Borges, o comportamento dos preços tem influenciado diretamente essas decisões industriais.
“Com o açúcar menos valorizado no mercado internacional, muitas usinas tendem a priorizar o etanol no início da safra. Esse movimento reduz o mix açucareiro e acaba limitando o crescimento da oferta de açúcar no Brasil”, afirma.
Corte na safra da Índia reduz oferta global
Além do Brasil, outro fator que contribuiu para a revisão das estimativas foi a safra da Índia, um dos maiores produtores mundiais.
A produção indiana foi revisada de 32,3 milhões para 29,7 milhões de toneladas, reflexo do encerramento mais cedo da safra no estado de Maharashtra e de produtividade abaixo do esperado em Uttar Pradesh.
Apesar da redução nas projeções, o volume ainda representa crescimento anual próximo de 14% em relação ao ciclo anterior.
Segundo o analista da StoneX, Marcelo Di Bonifácio Filho, o mercado global ainda opera com leve excedente, mas o cenário está mais apertado.
“Apesar dos cortes recentes nas estimativas de produção de países importantes como Índia e Brasil, o mercado internacional ainda trabalha com um pequeno superávit”, explica.
Outras regiões ampliam produção
Enquanto Índia e Brasil passaram por revisões negativas, outras regiões registraram aumento na produção.
Na Europa, a safra de beterraba superou as expectativas, com volume cerca de 2 milhões de toneladas acima das estimativas anteriores, resultado de maior produtividade na União Europeia e na Ucrânia.
Já na América do Norte, a produção de açúcar no México foi revisada de 5,1 milhões para 5,4 milhões de toneladas, impulsionada por ganhos de produtividade nos canaviais.
Demanda fraca mantém preços pressionados
Mesmo com ajustes nas estimativas de produção, o mercado internacional continua convivendo com sinais de excesso de oferta.
Importações mais lentas em grandes mercados consumidores e estoques elevados têm contribuído para manter os preços relativamente baixos.
De acordo com a análise da StoneX, as cotações internacionais têm se mantido próximas de 14 centavos de dólar por libra-peso, reflexo de uma combinação entre oferta ainda confortável e demanda menos dinâmica.
A recente alta do petróleo, porém, pode influenciar esse cenário. Combustíveis mais caros costumam incentivar a produção de etanol, o que pode reduzir a quantidade de cana destinada ao açúcar.
Etanol ganha espaço no setor sucroenergético
Enquanto a oferta de açúcar tende a crescer menos, a produção de biocombustíveis deve avançar no Brasil.
A expectativa é que a produção total de etanol no Centro-Sul alcance 37,2 bilhões de litros na safra 2026/27, aumento de 10,2% em relação ao ciclo anterior e possível novo recorde histórico.
Boa parte desse crescimento vem da expansão do etanol de milho, que tem ampliado a capacidade produtiva e aumentado a flexibilidade industrial das usinas.
Para Rafael Borges, esse movimento reforça a capacidade do setor sucroenergético brasileiro de responder rapidamente às mudanças de preço entre açúcar e biocombustíveis.
“O aumento da produção de etanol, especialmente de milho, amplia a capacidade do setor de reagir rapidamente aos sinais de preço entre açúcar e biocombustível”, afirma.
Diante desse cenário, o desempenho da safra brasileira continuará sendo um dos principais fatores para definir o equilíbrio global do mercado de açúcar nos próximos meses.
Fonte: RCN67