Bioinsumos ganham força como resposta à dependência externa do agro

A elevada dependência brasileira de fertilizantes e defensivos importados está ampliando o debate sobre o papel dos bioinsumos na segurança e na competitividade do agronegócio. Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), as tecnologias biológicas devem integrar uma estratégia mais ampla para diversificar fornecedores, desenvolver soluções nacionais e reduzir a exposição do produtor às oscilações do mercado internacional.

O Brasil importa mais de 90% dos fertilizantes que utiliza, ficando exposto a câmbio, preços internacionais, problemas logísticos, conflitos geopolíticos e eventuais restrições comerciais. Segundo Maciel Silva, diretor técnico adjunto da CNA, essa vulnerabilidade não termina dentro da porteira.

“Quando um insumo essencial encarece ou fica indisponível, o impacto não termina no produtor. Ele começa no custo de produção, pressiona a renda e pode levar à redução ou postergação do uso do insumo, afetando a produtividade”, afirma.

Para a entidade, portanto, segurança de abastecimento deve ser tratada como uma estratégia de Estado, e os bioinsumos podem fazer parte dessa resposta.

Bioinsumos podem complementar fertilizantes

A CNA não propõe substituir os fertilizantes minerais por soluções biológicas. A avaliação é de que novas tecnologias podem complementar a adubação convencional e aumentar a eficiência no aproveitamento dos nutrientes, além de estimular soluções desenvolvidas especificamente para a agricultura tropical.

Essa convergência também está aproximando áreas antes tratadas separadamente. Nutrição mineral, microbiologia e melhoramento genético começam a formar sistemas integrados voltados ao aumento da eficiência produtiva. A mudança, segundo a entidade, exige que a regulamentação acompanhe a evolução tecnológica.

CNA pede regras proporcionais ao risco

Um dos principais pontos defendidos pela CNA é evitar que todos os produtos biológicos sejam submetidos automaticamente às mesmas exigências regulatórias. Para Silva, tecnologias destinadas à nutrição ou à eficiência na utilização de nutrientes podem apresentar riscos diferentes daqueles associados a produtos desenvolvidos para controle de pragas e doenças.

“A exigência precisa ser proporcional ao risco e à finalidade de cada tecnologia. Caso contrário, podemos criar obstáculos justamente para soluções que podem ajudar o Brasil a reduzir sua dependência externa de insumos”, afirma.

A entidade sustenta que preservar a segurança ambiental e a saúde humana deve continuar sendo requisito central, mas alerta que exigências desproporcionais podem elevar custos, atrasar inovações e restringir o número de alternativas disponíveis aos agricultores.

Outro ponto considerado estratégico é a possibilidade de produção de bioinsumos para uso próprio, desde que respeitados critérios de segurança e controle. A CNA argumenta que produção própria, pesquisa científica e mercado comercial podem coexistir. Restringir uma dessas alternativas poderia, na visão da entidade, trocar uma dependência externa por uma concentração interna do fornecimento.

“Não podemos combater a dependência externa criando uma nova dependência interna. Soberania de insumos significa ampliar a capacidade brasileira de produzir, pesquisar, inovar e escolher”, afirma Silva.

A entidade também defende proteção aos investimentos privados em pesquisa, mas considera fundamental preservar concorrência, entrada de novos agentes e diversidade tecnológica.

A discussão regulatória dos bioinsumos, portanto, ultrapassa a disputa entre produtos convencionais e biológicos. Para a CNA, o objetivo deve ser construir um sistema no qual fertilizantes tradicionais, bioinsumos, tecnologias industriais e produção própria possam coexistir.

Quanto maior a diversidade de fornecedores, tecnologias e modelos produtivos, maior tende a ser a capacidade do agronegócio de responder a crises internacionais de abastecimento. A tese central é que soberania não significa produzir todos os insumos dentro do Brasil, mas reduzir vulnerabilidades por meio de mais alternativas.

Nesse desenho, os bioinsumos deixam de ser apenas uma agenda de sustentabilidade e passam a ocupar espaço também como instrumento de segurança de abastecimento, inovação e competitividade para o agronegócio brasileiro.

Fonte: CNN Brasil – Veja na íntegra aqui