A guerra no Irã já produz efeitos diretos no agro brasileiro — e o impacto chega com força nos custos de produção. Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, os preços dos fertilizantes dispararam no mercado internacional e foram rapidamente repassados ao Brasil, sem que as commodities agrícolas acompanhassem esse movimento. O resultado é uma deterioração expressiva na relação de troca, que se aproxima — ou até supera — os piores níveis dos últimos cinco anos, segundo o relatório Radar Agro, do Itaú BBA.
Os números evidenciam a pressão. A ureia registrou alta de 50% em apenas 30 dias, chegando a US$ 710/t CFR Brasil, enquanto o MAP avançou 17%, para US$ 850/t. O movimento reflete não apenas o encarecimento de insumos estratégicos como enxofre e ácido sulfúrico, produzidos no Oriente Médio, mas também restrições adicionais, como a suspensão das exportações chinesas para garantir o abastecimento interno.
No campo, o impacto é direto e mensurável. Para adquirir uma tonelada de MAP, o produtor de soja passou de 29 para 34 sacas — acima da média histórica de 25 sacas. No milho, a relação saltou de 42 para 65 sacas por tonelada, enquanto, no caso da ureia, o custo praticamente dobrou: de 23 para 55 sacas. No trigo, o cenário também se agravou, com a relação de troca saindo de níveis próximos à média para patamares significativamente superiores.
Com os fertilizantes representando o principal componente de custo da lavoura, o efeito já começa a travar o mercado. As compras para a safra 2026/27, que vinham em ritmo lento, praticamente pararam. Hoje, cerca de 40% da demanda nacional foi atendida, mas no Rio Grande do Sul esse percentual não chega a 20%, refletindo a cautela dos produtores diante da escalada de preços.
O pano de fundo é estrutural. O Oriente Médio concentra parcela relevante da oferta global de insumos — com destaque para 44% das exportações de ureia e quase metade do enxofre mundial. Qualquer ruptura logística na região tem efeito imediato nos preços internacionais. A experiência recente da guerra entre Rússia e Ucrânia reforça o risco: fertilizantes que custavam US$ 500-600/t chegaram a ultrapassar US$ 1.200/t em poucos meses.
Para o Brasil, altamente dependente de importações — cerca de 90% do consumo —, o cenário é ainda mais sensível. Em 2024, o país importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, evidenciando a vulnerabilidade estrutural da cadeia.
Fonte: Correio do Povo – Veja matéria na íntegra aqui