Diesel segue pressionado, biodiesel supera R$ 5.600/m³ e óleos vegetais mostram sinais divergentes

DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 05 a 12/10/2026

O que realmente mudou nesta semana?

• O diesel global segue estruturalmente apertado, mas a retomada das exportações chinesas, as iniciativas da AIE/G7 e a recuperação parcial dos fluxos do Oriente Médio ampliaram as alternativas de oferta e reduziram o risco imediato.
• No Brasil, o governo adicionou R$ 1,40/litro à subvenção do diesel importado. A oferta projetada para outubro, de 4,18 milhões de m³, supera em 6% a demanda estimada, reduzindo o risco de falta a um custo elevado.
• O WASDE elevou a produção americana de soja, mas manteve esmagamento e produção de óleo. Os estoques finais de óleo recuaram para cerca de 815 mil toneladas e o uso em biocombustíveis ficou em 8,07 milhões de toneladas.
• Na Malásia, os estoques de palma saltaram para 3,51 milhões de toneladas, mas as exportações reagiram no início de outubro. O cenário combina ampla disponibilidade no curto prazo com a possibilidade de um balanço potencialmente mais apertado em 2027.
• A ANP retomou, por 24 meses, a restrição à venda de biodiesel entre distribuidoras e reforçou as medidas de rastreabilidade.

“O diesel ainda enfrenta restrições estruturais de oferta, mas o mercado começa a encontrar mecanismos de adaptação. No Brasil, o principal risco deixou de ser a falta física de produto e passou a ser o custo de reposição. Já nos óleos vegetais, observamos movimentos distintos: enquanto a ampla oferta de palma pressiona os preços, o óleo de soja norte-americano encontra sustentação na demanda por biocombustíveis”, analisa Filipe Cunha, head comercial de Biodiesel da SCA Brasil.

Diesel global: alívio cresce, mas normalização ainda está distante

A semana trouxe sinais de reorganização da oferta. A China retomou exportações com cota de 3,7 milhões de toneladas para gasolina, diesel e querosene da aviação (QAV). Paralelamente, a Agência Internacional de Energia (AIE) discute a liberação de 100 milhões de barris de petróleo e diesel, enquanto a retomada das operações do oleoduto Leste-Oeste, na Arábia Saudita, contribuiu para reduzir a pressão imediata sobre o abastecimento.

Essas alternativas, entretanto, ainda não representam normalização. As restrições de refino no Oriente Médio e na Rússia, os ataques na região de Ormuz e estoques baixos de destilados ainda sustentam o diesel, que permanece mais apertado que o petróleo bruto.

Na avaliação da SCA Brasil, o risco de uma ruptura aguda no abastecimento diminuiu, mas o prêmio de escassez do diesel continua relevante. O mercado ganhou tempo, porém ainda não recuperou a folga necessária para absorver novos choques de oferta.

Brasil reduz risco de desabastecimento, mas eleva custo para garantir oferta

O governo anunciou subvenção adicional de R$ 1,40/litro ao diesel importado por 30 dias. Somada aos R$ 2,12/litro já em vigor, a ajuda chega a R$ 3,52/litro, buscando manter economicamente viáveis as compras externas.

Para outubro, o governo projeta oferta de 4,18 milhões de m³, 6% acima da demanda de 3,95 milhões de m³. As importações representam cerca de 1,4 milhão de m³, ou um terço da oferta, com os EUA respondendo por aproximadamente 68% desse volume.

Na análise da SCA Brasil, o risco de desabastecimento diminuiu, mas a segurança da oferta está sendo sustentada por subsídios, importações e elevada concentração de fornecedores externos. Nesse cenário, a principal variável deixa de ser apenas a disponibilidade física de diesel e passa a ser o custo necessário para manter o mercado brasileiro abastecido.

WASDE: aumento da produção de soja não se traduz em maior oferta de óleo

O WASDE de outubro elevou a produção americana de soja de 4,535 para 4,562 bilhões de bushels, cerca de 124,2 milhões de toneladas, mas manteve o esmagamento em 2,780 bilhões de bushels e a produção de óleo em 14,94 milhões de toneladas. Para o biodiesel, esse é o principal destaque: o aumento da produção de soja em grão não se traduziu em maior disponibilidade de óleo.

Com estoques iniciais menores, o USDA reduziu os estoques finais de óleo de soja de 851 mil para cerca de 815 mil toneladas e manteve 8,07 milhões de toneladas destinadas a biocombustíveis, aproximadamente 54% do consumo doméstico projetado.

Na comparação com 2025/26, a produção de óleo cresce cerca de 7%, mas o uso em biocombustíveis avança mais de 20%. As exportações devem cair para aproximadamente 181 mil toneladas, menos da metade do volume da temporada anterior.

Na avaliação da SCA Brasil, o relatório apresenta um cenário confortável para a oferta de soja em grão, mas não para o óleo. Com o esmagamento inalterado e os biocombustíveis absorvendo a maior parte do crescimento da produção, o balanço norte-americano de óleo de soja permanece sustentado pela demanda.

No mercado físico brasileiro, o flat price FOB Paranaguá oscilou entre US$ 1.208/t e US$ 1.226/t, no período de 2 a 9 de outubro, encerrando a US$ 1.220/t. O prêmio local apresentou leve recuperação, passando de -US$ 287/t para -US$ 280/t, movimento que não alterou significativamente a leitura dos fundamentos do mercado.

Óleo de palma: estoques elevados pressionam preços, mas 2027 pode trazer menor oferta

O Conselho de óleo de Palma da Malásia (MPOB) confirmou forte aumento da disponibilidade de óleo de palma em setembro. A produção de CPO subiu 16,5%, para 2,12 milhões de toneladas, enquanto os estoques avançaram 24,5%, para 3,51 milhões. As exportações recuaram 12,1%, reforçando o viés baixista de curto prazo.

Em outubro, porém, ITS e AmSpec apontaram reação de 33% a 38% nas exportações dos primeiros dez dias. No médio prazo, B50 na Indonésia e os efeitos do El Niño mantêm o risco de menor excedente exportável em 2027.

Na avaliação da SCA Brasil, os estoques recordes continuam determinando a tendência de curto prazo, mas a recuperação das exportações merece atenção. O óleo de palma permanece como o principal vetor baixista entre os grandes óleos vegetais, embora o balanço de oferta e demanda possa se tornar menos confortável em 2027.

Preço do biodiesel sobe 2% e supera R$ 5.600/m³ pela primeira vez desde janeiro

Segundo a ANP, entre 28 de setembro e 4 de outubro, o preço médio do biodiesel ficou em R$ 5.623/m³, alta de 2,00% na semana. Foi a primeira vez desde janeiro que o indicador voltou a superar R$ 5.600/m³.

Todas as regiões valorizaram, com destaque para Norte (+2,73%) e Centro-Oeste (+2,41%). Mesmo após a recuperação recente, o preço médio ainda acumula queda de 5,06% em 2026.

No mercado spot de biodiesel, o levantamento da SCA Brasil mostrou volume negociado de 2.755 m³ (-55%), enquanto o preço médio ficou em R$ 6.279/m³, quase estável (-0,4%) em relação à semana anterior.

ANP reforça rastreabilidade do biodiesel

A ANP aprovou, por 24 meses, a retomada da restrição à comercialização de biodiesel entre distribuidoras. A medida entra em vigor no primeiro dia do mês seguinte à publicação no Diário Oficial e busca reforçar a rastreabilidade do B100 usado na mistura obrigatória.

Segundo a Agência, a experiência anterior reduziu inconsistências sem afetar a disponibilidade. Em paralelo, a Consulta Pública 17/2026 propõe ampliar o acesso da ANP às NF-e de biodiesel, diesel A e diesel B, permitindo acompanhamento mais próximo das movimentações.

O que observar na próxima semana?

• Diesel global: decisão da AIE em 14 e 15/10 sobre a liberação de estoques, além dos cracks e fluxos pelo Oriente Médio.
• Brasil: chegada das importações de outubro, PPI e sinais regionais de disponibilidade após a ampliação da subvenção.
• Palma: continuidade da recuperação das exportações diante dos estoques recordes da Malásia.
• Regulação: publicação da decisão da ANP e desdobramentos da consulta sobre rastreabilidade via NF-e.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 05 a 12/10/2026