Diesel segue apertado, mas medidas de alívio entram em cena

DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 28/09 a 04/10/2026

O que realmente mudou nesta semana?

• Rússia prorrogou a restrição às exportações de diesel até o fim de outubro e a China suspendeu temporariamente embarques de derivados, mantendo a oferta global pressionada.
• Em sentido contrário, o G7 decidiu liberar 100 milhões de barris de petróleo e derivados de reservas emergenciais, enquanto os EUA retiraram, por ora, a ameaça de proibir exportações de diesel.
• Apesar das medidas de alívio, os estoques americanos de destilados recuaram para 105,2 milhões de barris, confirmando que o balanço físico continua apertado.
• No Brasil, o governo prorrogou a subvenção de R$ 2,12/litro ao diesel, enquanto o biodiesel encerrou o 4º bimestre com retirada recorde de 1,82 milhão de m³, equivalente a 98% do volume contratado.
• Nos óleos vegetais, a palma continuou pressionada, enquanto a redução de tarifas na Índia passou a favorecer principalmente o óleo de girassol, com potencial de reduzir as compras de óleo de soja.

“As medidas de emergência podem aliviar o diesel no curto prazo, mas não resolvem a restrição de oferta de derivados. Para o Brasil, custo de reposição e disponibilidade das importações continuam sendo variáveis importantes para o mercado.” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Novas restrições mantêm mercado global de derivados sob pressão

A semana trouxe novas restrições ao mercado global de derivados. A Rússia prorrogou até o fim de outubro a proibição das exportações de diesel por produtores, enquanto refinarias chinesas suspenderam temporariamente os embarques de combustíveis para destinos além de Hong Kong e Macau no início de outubro. Em setembro, a China havia exportado cerca de 1,4 milhão de toneladas de diesel, além de gasolina e querosene de aviação (QAV), tornando sua retirada temporária mais um fator de pressão sobre a oferta no mercado asiático.

A resposta ao aperto veio por meio dos estoques estratégicos. O G7 anunciou a liberação de 100 milhões de barris de petróleo e derivados nos próximos quatro meses, com uma parcela relevante de diesel prevista já para os primeiros 20 dias. Após o acordo, o presidente dos Estados Unidos afirmou que não pretende adotar uma proibição às exportações norte-americanas de diesel, afastando um importante risco adicional para o abastecimento da Europa e do Brasil.

O alívio, entretanto, ocorre em um mercado que permanece fisicamente apertado. Os estoques norte-americanos de destilados recuaram de 107,4 milhões para 105,2 milhões de barris na semana encerrada em 25 de setembro.

No petróleo, o Brent dezembro encerrou a sexta-feira cotado a US$ 102,25/barril, acumulando alta de 4,94% na semana. Neste domingo, a Opep+ manteve inalteradas as metas de produção para novembro, enquanto o Irã afirmou que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado até o cumprimento das condições negociadas com os Estados Unidos.

Na avaliação da SCA Brasil, as medidas emergenciais reduzem o risco de uma nova escalada imediata, mas não alteram a questão central: a disponibilidade global de diesel continua mais restrita do que a de petróleo bruto.

Brasil mantém subvenção ao diesel diante da volatilidade internacional

No Brasil, o governo prorrogou por mais 30 dias a subvenção total de R$ 2,12/litro ao diesel. A medida busca amortecer o impacto da volatilidade do mercado internacional sobre os preços domésticos, em um cenário ainda marcado por forte pressão sobre os derivados.

O ambiente externo permanece especialmente relevante porque o Brasil depende das importações para complementar a oferta doméstica de diesel. A retirada da ameaça de restrições às exportações norte-americanas reduz um dos principais riscos observados na semana anterior. Por outro lado, Rússia e China permanecem fora ou parcialmente afastadas do mercado internacional, mantendo limitada a disponibilidade global do combustível e elevada a atenção sobre os custos de importação.

Demanda por biocombustíveis sustenta óleo de soja nos EUA

Nos Estados Unidos, o esmagamento de soja recuou mais de 5% em agosto, para 5,72 milhões de toneladas, enquanto os estoques de óleo de soja caíram 13% no mês, para 771 mil toneladas.

Apesar da redução do processamento, a demanda estrutural permanece firme. O consumo de óleo de soja pela indústria norte-americana de biocombustíveis atingiu o recorde de 765 mil toneladas em julho, com volumes máximos tanto na produção de biodiesel quanto de diesel renovável.

No Brasil, entretanto, o cenário permanece menos conclusivo. O pico sazonal de esmagamento ficou para trás, enquanto há relatos de margens mais pressionadas e antecipação de paradas para manutenção. A combinação entre menor processamento e um período sazonalmente mais forte para a demanda por biodiesel tende a apertar o balanço doméstico de óleo de soja.

Na avaliação da SCA Brasil, ainda não há evidências suficientes para concluir que a melhora observada em alguns componentes da margem tenha resultado em uma recuperação consistente do esmagamento brasileiro.

Em Chicago, o contrato de dezembro do óleo de soja encerrou 2 de outubro cotado a 68,62 cents/lb, alta de 1,15% na semana.

Em Paranaguá, entretanto, o flat price recuou de US$ 1.235/t, em 25 de setembro, para US$ 1.226/t. A valorização registrada em Chicago foi mais do que compensada pela piora do prêmio local, que passou de -US$ 260/t para -US$ 287/t. Veja o gráfico:

Palma segue como principal vetor baixista dos óleos vegetais

A palma continuou pressionada por produção forte e exportações fracas na Malásia. Os contratos chegaram ao menor nível desde julho e encerraram setembro com queda de 5,76%, primeira retração mensal em quatro meses.

A Índia adicionou uma nova variável ao balanço dos óleos vegetais. Após zerar a tarifa básica de importação do óleo de girassol bruto, a indústria local passou a projetar aumento de 30% nas importações de girassol em 2026/27, para 3,5 milhões de toneladas. Em contrapartida, as compras de óleo de soja poderão recuar 10,7%, para 5 milhões de toneladas, enquanto as importações de óleo de palma são estimadas em cerca de 8 milhões de toneladas.

Para o óleo de soja sul-americano, a mudança no mix indiano é relevante porque pode aumentar a competição com o girassol e pressionar os prêmios de exportação. No curto prazo, a palma continua sendo o principal vetor baixista entre os grandes óleos vegetais.

Preço do biodiesel recua, mas continua acima de R$ 5.500/m³

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na semana entre os dias 21 e 27 de setembro, o preço médio do biodiesel ficou em R$ 5.512/m³, recuo de 0,72% na semana.

A região Nordeste foi a única região com variação positiva no preço (+0,33%). As regiões que registraram as maiores desvalorizações no período foram a região Centro-Oeste (-2,70%) e Sudeste (-1,01%). Apesar do período recente de recuperação, o preço médio do biodiesel ainda acumula queda de 6,93% em 2026.

No mercado spot de biodiesel, o levantamento da SCA Brasil mostrou volume negociado de 6.100 m³ (+80,21%), enquanto o preço médio ficou em R$ 6.304/m³, recuo de 1,95% em relação à semana anterior.

Biodiesel fecha 4º bimestre com recorde de retiradas

As distribuidoras retiraram 1,82 milhão de m³ de biodiesel no 4º bimestre, maior volume já movimentado em um único período bimestral. O montante representou cerca de 98% dos 1,86 milhão de m³ contratados, acima dos 94,5% observados no bimestre anterior.

O volume cresceu 2,8% em relação ao 4º bimestre de 2025, mesmo com agosto mostrando desaceleração das retiradas.

O que observar na próxima semana?

• Diesel: efeito efetivo da liberação de estoques do G7 sobre preços e cracks.
• China: retomada ou prolongamento da suspensão das exportações de derivados após o feriado.
• Brasil/diesel: custo das importações, defasagem frente ao mercado externo e sinais regionais de disponibilidade do diesel.
• Esmagamento: evolução das margens brasileiras e disponibilidade doméstica de óleo de soja.
• Óleos vegetais: estoques oficiais da Malásia e reação das compras indianas após o corte de tarifas.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 28/09 a 04/10//2026