O setor sucroenergético brasileiro pode dar um salto de produtividade nas próximas décadas. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) estabeleceu a meta de dobrar a produtividade da cana-de-açúcar até 2040, elevando a média de 74 para 148 toneladas por hectare (TCH), sem depender da expansão da área plantada.
Batizado de Visão 2040, o plano combina melhoramento genético, biotecnologia, novas práticas de manejo e uma transformação no sistema de implantação dos canaviais. A estratégia busca aumentar tanto o potencial produtivo das plantas quanto a eficiência das operações no campo.
Semente sintética pode transformar o plantio da cana
Uma das apostas mais disruptivas está nas sementes sintéticas. Atualmente, a implantação de um hectare exige aproximadamente 16 toneladas de cana utilizadas como material de propagação. Com a nova tecnologia, esse volume poderia cair para cerca de 400 quilos de sementes por hectare.
Além de reduzir transporte, diesel e movimentação de máquinas, o sistema pretende aumentar a uniformidade e a sanidade do plantio, diminuir falhas e acelerar a chegada de variedades geneticamente superiores às áreas comerciais.
A tecnologia também permitiria converter áreas hoje destinadas aos viveiros de mudas em lavouras comerciais. Em abril de 2026, o CTC inaugurou em Piracicaba (SP) uma Unidade de Produção de Sementes, resultado de investimento superior a R$ 100 milhões. A capacidade inicial é suficiente para atender até 500 hectares por ano, em um turno. A tecnologia é desenvolvida desde 2013 e poderá acumular aproximadamente R$ 1 bilhão em investimentos até seu lançamento comercial.
Genética e biotecnologia entram na corrida por produtividade
Outra frente da Visão 2040 é acelerar a renovação varietal. A série CTC Advana, por exemplo, foi desenvolvida para combinar produtividade, maior teor de açúcar, longevidade do canavial e características que facilitem a colheita mecanizada. A primeira variedade, Advana1, apresentou desempenho superior aos padrões de comparação em 95% dos ensaios realizados e ganhos de até 16% em toneladas de açúcar por hectare, segundo dados divulgados pelo CTC.
A biotecnologia complementa essa estratégia ao tentar preservar o potencial produtivo alcançado pela genética. A plataforma VerdPRO2 reúne resistência à broca-da-cana e tolerância ao glifosato, buscando reduzir perdas causadas por pragas e facilitar o controle de plantas daninhas.
Dobrar produtividade exige combinar tecnologias
O desafio não se resume à criação de variedades mais produtivas. A expansão da cana para regiões com solos, regimes de chuva e condições agronômicas diferentes das áreas tradicionais ajuda a explicar por que os avanços genéticos nem sempre se traduziram em crescimento equivalente da produtividade média nacional. Por isso, atingir 148 toneladas por hectare dependerá da combinação entre genética, proteção da cultura, qualidade do plantio, manejo e renovação mais rápida dos canaviais.
O resultado potencial é relevante para toda a cadeia: produzir mais matéria-prima na mesma área significa ampliar a disponibilidade de açúcar, etanol e bioenergia sem depender proporcionalmente da expansão territorial.
Mais cana também exigirá novos mercados para o etanol
Se a produtividade dobrar, entretanto, o desafio deixa de estar apenas no campo. Uma oferta significativamente maior exigirá também novas fontes de demanda para o etanol.
Além dos veículos leves, começam a ganhar espaço alternativas como transporte pesado, combustíveis marítimos e SAF, cuja produção pode utilizar o etanol como matéria-prima em determinadas rotas tecnológicas.
Assim, a Visão 2040 coloca duas transformações no horizonte do setor sucroenergético: produzir muito mais cana por hectare e, simultaneamente, construir mercados capazes de absorver essa produtividade adicional.
Fonte: Money Times – Veja na íntegra aqui