Clima trava açúcar e mantém usinas mais voltadas ao etanol

O clima passou a comandar as decisões das usinas de cana-de-açúcar no Centro-Sul. Mesmo com a forte valorização do açúcar e uma vantagem econômica estimada em cerca de 20% sobre o etanol, o excesso de chuvas dificulta uma mudança mais intensa do mix industrial para a commodity.

As condições mais úmidas, associadas ao El Niño, aumentam o desenvolvimento vegetativo da cana, mas reduzem sua concentração de açúcar. Na prática, a matéria-prima com menor teor de açúcares recuperáveis (ATR) favorece a produção de etanol e limita a capacidade das usinas de aproveitar a valorização internacional do açúcar.

“Não estamos mais olhando para os preços de mercado para estimar a composição da produção na reta final da safra. O foco é o clima”, afirmou Marcelo Bonifácio Filho, analista de açúcar da StoneX.

Açúcar sobe, mas usinas não conseguem responder

O cenário chama atenção porque os futuros do açúcar avançaram 21% em agosto, ampliando significativamente a remuneração da commodity em relação ao biocombustível. Segundo Fábio Meneghin, da Veeries, a diferença de rentabilidade está atualmente em aproximadamente 20% a favor do açúcar. Mesmo assim, o clima impede uma resposta mais forte das usinas.

Até o início de julho, apenas 42,5% da cana havia sido destinada ao açúcar, refletindo uma safra predominantemente alcooleira, influenciada anteriormente pelos preços mais baixos da commodity e pela valorização do petróleo. Agora, embora a relação econômica tenha mudado, as condições agronômicas e industriais dificultam a alteração do mix.

Cada ponto do mix pode retirar 750 mil toneladas do mercado

A situação brasileira ganha importância para o balanço internacional porque cada ponto percentual adicional de cana direcionado ao açúcar representa aproximadamente 750 mil toneladas da commodity. Caso as usinas não consigam elevar o mix açucareiro, a oferta brasileira poderá ficar abaixo das expectativas justamente em um momento de maior atenção sobre a disponibilidade global.

A StoneX já reduziu sua perspectiva para a produção de açúcar do Centro-Sul em relação às 40 milhões de toneladas previstas inicialmente. A consultoria considera agora a possibilidade de a safra não superar 38 milhões de toneladas.

Chuvas de outubro aumentam risco de nova revisão

Além da perda de qualidade da matéria-prima, as chuvas vêm atrasando a própria colheita. Algumas áreas do cinturão canavieiro registraram um dos invernos mais chuvosos em mais de um século. Com novas precipitações previstas para o início de outubro, o mercado passa a observar dois riscos simultâneos: menor concentração de açúcar na cana e dificuldade para colher todo o volume disponível antes do encerramento da safra.

Para o setor de biocombustíveis, o cenário reforça uma mudança importante na reta final de 2026/27: mesmo com o açúcar oferecendo remuneração superior, o etanol pode continuar recebendo parcela maior da cana por uma imposição climática, e não apenas por uma decisão baseada nos preços relativos.

Fonte: Money Times – Veja na íntegra aqui