O biodiesel brasileiro entra em uma nova fase de expansão, impulsionado pelo aumento da produção, pela maior participação na mistura obrigatória e pela busca do país por reduzir a dependência do diesel fóssil importado. Em 2025, as usinas produziram 9,84 milhões de m³, enquanto o diesel comercializado atualmente contém 15% de biodiesel, o B15.
Para Jerônimo Goergen, presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), o setor atravessa “o melhor momento” de sua história. Uma das apostas para consolidar esse avanço é um programa de testes financiado pela própria indústria, com investimentos de R$ 10 milhões, destinado a ampliar a segurança técnica para misturas mais elevadas.
Oferta não é gargalo para o avanço da mistura
Na avaliação de Leandro Zat, vice-presidente de Operações da Be8, a indústria dispõe de capacidade para acompanhar a evolução da demanda. Segundo ele, ao longo do programa brasileiro de biodiesel, a disponibilidade do produto sempre foi suficiente para atender aos percentuais obrigatórios.
O B15 está em vigor, enquanto a cadeia aguarda o próximo avanço da mistura. A trajetória estabelecida pela política brasileira prevê elevações graduais, com possibilidade de alcançar 20% de biodiesel no diesel até 2030.
Crise do diesel reforça segurança energética
A instabilidade internacional e a alta do petróleo também mudaram a percepção sobre o papel estratégico do biodiesel. O Brasil ainda depende do mercado externo para aproximadamente 25% do diesel fóssil que consome, deixando preços e abastecimento expostos às oscilações internacionais.
Durante a crise provocada pelos conflitos no Oriente Médio, essa diferença ficou mais evidente. Segundo Zat, enquanto o diesel chegou a atingir entre R$ 9 e R$ 10 por litro em alguns postos, o biodiesel era comercializado entre R$ 5,50 e R$ 6. Para Goergen, ampliar o uso do produto nacional significa reduzir essa vulnerabilidade. O presidente da Aprobio estima que cada ponto percentual adicional de biodiesel na mistura poderia representar economia de R$ 7 bilhões para o país.
B100 abre nova fronteira de consumo
Outro avanço é o uso voluntário de B100, biodiesel puro. Desde julho, determinadas aplicações podem utilizar o combustível mediante comunicação à ANP, sem necessidade de anuência prévia. A flexibilização abre espaço para maior participação do biodiesel em frotas cativas, transporte e atividades ligadas ao agronegócio, criando uma demanda que pode avançar independentemente da mistura obrigatória.
Biodiesel aproxima energia e agronegócio
A expansão também fortalece a industrialização da soja no Brasil. O óleo de soja responde por mais de 70% da matéria-prima utilizada na produção nacional de biodiesel. O esmagamento gera simultaneamente óleo, destinado ao combustível, e farelo, utilizado principalmente na alimentação animal.
Essa integração pode ganhar importância diante de mudanças no comércio internacional da soja, ao criar demanda doméstica para o grão e agregar valor à produção dentro do país.
O setor também destaca os ganhos ambientais e sociais. Segundo manifesto divulgado por Aprobio, Abiove e Ubrabio, o biodiesel pode proporcionar redução de até 94% nas emissões de gases de efeito estufa frente ao diesel fóssil, enquanto cerca de 300 mil agricultores familiares participam de sua cadeia produtiva.
O desafio agora é transformar capacidade industrial em maior participação efetiva na matriz energética. Para o setor, B16, misturas superiores e B100 deixam de ser apenas instrumentos de descarbonização e passam a integrar também a discussão sobre segurança de abastecimento, industrialização do agro e menor dependência energética externa.
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