Biodiesel bate recorde no Brasil enquanto EPA agita mercado de óleo de soja

O que realmente mudou nesta semana?

  • A expectativa de ampliação das isenções para pequenas refinarias nos EUA aumentou a volatilidade do óleo de soja e pressionou os preços dos RINs;
  • A China voltou a ampliar as compras de soja americana, enquanto as condições das lavouras dos EUA apresentaram leve deterioração;
  • O óleo de palma interrompeu três semanas consecutivas de valorização, mas o B50 da Indonésia e os riscos climáticos continuam limitando uma leitura mais baixista;
  • No Brasil, as vendas de biodiesel superaram a produção em julho, enquanto o consumo de óleo de soja aumentou em volume, apesar da redução de sua participação no mix de matérias-primas;
  • O Brent recuou 6,6% na semana, para US$ 88,10/barril, com o mercado alternando expectativas sobre as negociações envolvendo o Estreito de Ormuz;

“A política americana de biocombustíveis voltou a assumir papel central na formação dos preços do óleo de soja. Enquanto o mercado tenta dimensionar o impacto das possíveis isenções às refinarias, a retomada das compras chinesas e a demanda por biocombustíveis continuam oferecendo suporte ao complexo de soja e óleos vegetais” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.

Isenções às refinarias ampliam volatilidade do óleo de soja nos EUA

A discussão sobre as isenções para pequenas refinarias (SREs) dominou o mercado norte-americano de óleo de soja durante a semana. O contrato de dezembro chegou a oscilar 5,3% em uma única sessão, entre 66,02 cents/lb e 69,50 cents/lb, refletindo as mudanças nas expectativas sobre o volume das isenções e uma possível realocação futura das obrigações. Ao final da semana, o contrato encerrou cotado a 70,82 cents/lb, com valorização de 1,91% no período.

A administração norte-americana deverá ampliar significativamente as isenções concedidas às pequenas refinarias. Segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, o volume poderá superar 1,8 bilhão de RINs, acima dos 990 milhões considerados anteriormente pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Paralelamente, o governo avalia elevar as obrigações de biocombustíveis para 2027 em 500 milhões de RINs ou mais, buscando compensar parte da demanda eventualmente reduzida pelas isenções. Até o fechamento deste boletim, a decisão final ainda não havia sido publicada pela EPA.

A incerteza também atingiu diretamente o mercado de créditos. Após a postergação do prazo para o cumprimento das obrigações do RFS, os RINs D6 recuaram para US$ 1,75, menor nível desde abril, enquanto os créditos relacionados ao biomass-based diesel foram negociados próximos de US$ 1,92.

No mercado brasileiro, o óleo de soja FOB Paranaguá registrou leve valorização na semana. O enfraquecimento dos basis, entretanto, neutralizou grande parte da alta observada nos contratos futuros negociados em Chicago.

Segundo a SCA Brasil, a provável ampliação das isenções aumenta a pressão de curto prazo sobre o óleo de soja. O impacto mais duradouro, entretanto, dependerá principalmente da forma e do prazo de eventual recomposição dessa demanda nas obrigações futuras.

China amplia compra de soja enquanto farelo ganha sustentação

A China voltou a ampliar as compras de soja durante a semana, incluindo uma nova aquisição de 333 mil toneladas dos Estados Unidos para a safra 2026/27. Ao mesmo tempo, estimativas de mercado indicam que ainda há um volume relevante a ser contratado para atender à demanda entre outubro e dezembro.

Além da demanda chinesa, o farelo de soja ganhou força nas últimas sessões, em um movimento associado à cobertura de posições e à menor disponibilidade imediata de soja para as processadoras. Nos Estados Unidos, as indústrias mantêm cobertura relativamente curta para a nova safra, enquanto os produtores reduzem o ritmo de comercialização.

No Brasil, apesar da ampla disponibilidade de soja, as margens de esmagamento permanecem negativas em diversas situações, limitando uma resposta mais agressiva da indústria e, consequentemente, a ampliação da oferta de óleo de soja.

Óleo de palma recua, mas oferta futura continua no radar

Depois de três semanas consecutivas de valorização e de superar MYR 5.000/t pela primeira vez desde dezembro de 2024, o óleo de palma perdeu força e acumulou queda de 3,41% na semana. Exportações mais fracas da Malásia, aumento da produção e volatilidade do petróleo contribuíram para a correção dos preços.

Na Indonésia, a GAPKI informou produção de 4,82 milhões de toneladas em junho, alta de 15,8% em relação a maio. As exportações, por outro lado, recuaram 9,2% na comparação anual, para 3,28 milhões de toneladas, enquanto os estoques encerraram o mês em 2,84 milhões de toneladas.

Apesar do aumento da produção no curto prazo, o mercado permanece atento à disponibilidade futura. A maior absorção doméstica decorrente da implementação do B50 tende a reduzir o potencial exportador da Indonésia, enquanto o fortalecimento do El Niño adiciona risco climático à produção de palma e de outras oleaginosas na Ásia.

Biodiesel mantém leve recuperação no Brasil

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 17 e 23 de agosto, o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 5.313,73/m³, com alta de 0,44% em relação à semana anterior.

Regionalmente, o Sul apresentou a maior valorização, de 1,56%, enquanto o Norte registrou a maior desvalorização, de 2,07%.

Apesar da recuperação observada nas últimas semanas, o preço médio do biodiesel ainda acumula queda de 10,28% em 2026, permanecendo abaixo do patamar registrado no início do ano.

Mercado spot perde liquidez durante negociação dos contratos

Levantamento da SCA Brasil apontou forte redução na movimentação do mercado spot de biodiesel na semana. O volume negociado recuou 87,54%, para apenas 180 m³, enquanto o preço médio ficou em R$ 6.183/m³, queda de 0,73% em relação à semana anterior.

Cunha explica que a baixa liquidez é característica das semanas de negociação dos contratos de biodiesel, período em que as atenções dos agentes se concentram nas contratações regulares, reduzindo temporariamente a movimentação no mercado spot.

Biodiesel: Produção supera 920 mil m³ e amplia demanda por matérias-primas

A produção brasileira de biodiesel alcançou 921,1 mil m³ em julho, alta de 9% em relação a junho e de 7% na comparação com o mesmo mês de 2025. As vendas avançaram em ritmo ainda mais intenso, atingindo 936,6 mil m³, crescimento mensal de 15% e volume aproximadamente 16 mil m³ superior à produção.

O óleo de soja permaneceu como a principal matéria-prima utilizada pela indústria, com consumo de 712,9 mil m³, alta de 3,65% no mês e de 4,83% em relação a julho de 2025. Sua participação no mix, entretanto, recuou de 78,26% em junho para 74,94% em julho, refletindo o avanço de outras matérias-primas. O óleo de cozinha usado (UCO) apresentou a maior expansão no período, com crescimento mensal de 79,5%, enquanto o consumo de sebo bovino aumentou 1,7%.

“A redução da participação relativa do óleo de soja, portanto, não representa menor demanda pelo produto em termos absolutos. Ao contrário, o volume consumido pela indústria continuou crescendo, acompanhando a expansão da produção de biodiesel e evidenciando, simultaneamente, uma maior diversificação do mix de matérias-primas”, analisa Cunha.

Diesel cresce no ano, apesar de recuo em julho

As vendas brasileiras de diesel B atingiram 6,4 milhões de m³ em julho, queda de 0,4% na comparação anual. No acumulado de janeiro a julho, entretanto, o volume chegou a 40,3 milhões de m³, crescimento de 1,5% sobre 2025.

O índice ABCR mostra alta anual de 2,1% na circulação de veículos pesados nas principais rodovias pedagiadas, refletindo a atividade dos setores agropecuário e industrial. Para o conjunto de 2026, a StoneX projeta crescimento de 1,6% nas vendas de diesel B, para 60,7 milhões de m³.

Petróleo recua, mas oferta restrita mantém pressão sobre o diesel

Depois da forte alta da semana anterior, o petróleo devolveu parte do prêmio de risco. O Brent encerrou a sexta-feira a US$ 88,10/barril, queda de 6,6% na semana, enquanto o WTI caiu 4,2%, para US$ 83,40. O mercado alternou expectativas de avanço e retrocesso nas negociações envolvendo Irã e o Estreito de Ormuz.

Apesar da correção do petróleo, o mercado de derivados permaneceu apertado. Nos Estados Unidos, os estoques de diesel recuaram 2,2 milhões de barris, enquanto a utilização das refinarias alcançou 97,4%, maior nível desde 2018. Ao mesmo tempo, novos ataques a refinarias russas e interrupções na Rússia e no Cazaquistão mantiveram pressão sobre a oferta internacional de derivados.

Para o Brasil, a queda do petróleo reduz parte da pressão sobre a paridade, mas as restrições no mercado internacional de diesel continuam sendo um ponto de atenção.

O que observar na próxima semana?

De acordo com análise de Filipe Cunha, nos Estados Unidos, o principal foco continuará sendo a decisão da EPA sobre as SREs e, principalmente, o mecanismo de eventual realocação das obrigações, além da evolução das compras chinesas e das condições da safra.

Nos óleos vegetais, será importante acompanhar se a correção da palma ganha continuidade ou se os riscos ligados ao B50 e ao clima voltam a sustentar os preços.

No Brasil, o mercado deverá seguir atento ao comportamento do biodiesel após uma nova rodada de contratação, ao elevado ritmo de produção e à evolução da demanda por óleo de soja.

SCA Brasil
Boletim Semanal – 24 a 28/08/2026