DE OLHO NO BIODIESEL – BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL
Por Filipe Cunha – Head Comercial Biodiesel – Período: 17 a 21/08/2026
O que realmente mudou nesta semana?
• O óleo de palma alcançou o maior nível em 20 meses, apoiado pela expansão dos mandatos de biodiesel na Indonésia e Malásia e pela recuperação da demanda asiática.
• Nos Estados Unidos, o esmagamento recorde de soja e a queda dos estoques de óleo reforçaram o suporte dos biocombustíveis, embora a EPA tenha adicionado incerteza regulatória no curto prazo.
• O Pro Farmer estimou produtividade da soja americana em 53,3 bu/acre, acima dos 52,7 bu/acre do USDA, mantendo elevada a perspectiva de oferta.
• A Abiove reduziu marginalmente a safra brasileira para 180,46 milhões de toneladas, mas manteve o esmagamento recorde de 63,3 milhões.
• A produção brasileira de biodiesel atingiu 850,4 mil m³ em julho, maior volume mensal já registrado, apesar da manutenção do B15.
• O Brent avançou 6,6% na semana, para US$ 94,39/barril, diante da continuidade das tensões no Oriente Médio.
“A demanda por biocombustíveis continua sendo um importante fator de sustentação dos óleos vegetais. A força da palma, os estoques mais baixos de óleo de soja nos Estados Unidos e a recuperação da demanda asiática se contrapõem à perspectiva de ampla oferta de soja nas Américas e às incertezas regulatórias nos EUA” analisa Filipe Cunha, head comercial Biodiesel da SCA Brasil.
Óleo de soja encontra suporte na demanda, mas EPA amplia volatilidade
O óleo de soja voltou a operar acima de 70 cents/lb durante a semana, acompanhando a valorização do petróleo e dos demais óleos vegetais. Apesar do movimento, o contrato encerrou o período cotado a 69,35 cents/lb em Chicago, com leve queda de 0,13%.
O mercado encontrou suporte nos dados da NOPA. O esmagamento de soja nos Estados Unidos atingiu aproximadamente 5,90 milhões de toneladas em julho, recorde para o mês e volume 10,7% superior ao registrado em julho de 2025. Ao mesmo tempo, os estoques de óleo de soja recuaram 9,4% em relação a junho, para 616,9 mil toneladas, o menor nível em dez meses.
Demanda asiática reforça competitividade do óleo de soja
A demanda internacional também ganhou força. A Índia poderá importar cerca de 620 mil toneladas de óleo de soja em agosto, volume que, se confirmado, poderá representar um recorde mensal. O país já teria contratado aproximadamente 1,4 milhão de toneladas para embarques entre setembro e dezembro.
Outro fator de sustentação foi o ganho de competitividade do produto sul-americano. O óleo de soja passou a ser negociado abaixo do óleo de palma na comparação FOB, aumentando sua atratividade no mercado asiático.
EPA mantém pressão sobre RINs e biocombustíveis
Em sentido contrário, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) sinalizou a postergação do prazo para o cumprimento das obrigações do RFS de 2025, movimento que poderá reduzir temporariamente a urgência das refinarias na aquisição de créditos RIN.
A sinalização ocorre em um momento em que a geração de créditos D4 permanece atrasada. Até julho, os créditos disponíveis correspondiam a 45,9% da meta efetiva, enquanto 58,3% do ano já havia transcorrido. Essa diferença mantém a regulação americana como importante fator de volatilidade para os RINs, o óleo de soja e as margens dos biocombustíveis.
Basis sustenta óleo de soja em Paranaguá
No mercado brasileiro, o óleo de soja FOB Paranaguá registrou leve valorização na semana. O fortalecimento dos basis compensou o recuo observado nos contratos futuros em Chicago.

Óleo de palma atinge maior nível desde 2024
O óleo de palma acumulou cinco sessões consecutivas de alta e atingiu o maior patamar desde dezembro de 2024. O contrato de novembro chegou a aproximadamente US$ 1.236/t, com valorização semanal próxima de 7,2%, apesar dos sinais de enfraquecimento das exportações da Malásia em agosto.
A principal sustentação vem da perspectiva de redução da oferta disponível para exportação. Na Indonésia, a implementação do B50 deverá direcionar maior volume de óleo de palma ao mercado doméstico de biodiesel, enquanto a Malásia elevou sua mistura para B15 em junho. Do lado da demanda, a Índia importou 1,525 milhão de toneladas de óleos vegetais em julho, o maior volume em dez meses. O mercado também monitora os possíveis impactos do El Niño sobre a produção futura no Sudeste Asiático.
A valorização do óleo de palma também altera a relação de competitividade entre os principais óleos vegetais. Com o produto sul-americano negociado a preços mais competitivos em relação à palma, aumentam os incentivos para um possível redirecionamento da demanda asiática para o óleo de soja brasileiro e argentino, fator que poderá oferecer sustentação adicional às exportações da região.
Safra americana ganha potencial, mas demanda chinesa sustenta o complexo soja
O Pro Farmer Crop Tour encerrou a semana estimando produtividade média da soja americana em 53,3 bu/acre, acima dos 52,7 bu/acre projetados pelo USDA no WASDE de agosto. A estimativa reforça a possibilidade de uma safra elevada, embora o levantamento tenha encontrado condições bastante heterogêneas entre as regiões produtoras.
Do lado da demanda, a China manteve as compras de soja dos Estados Unidos, incluindo uma nova venda privada de 136 mil toneladas para a safra 2026/27. A retomada das aquisições chinesas, combinada ao elevado ritmo de esmagamento doméstico, contribui para absorver parte da maior oferta esperada.
O balanço norte-americano, portanto, segue marcado por forças opostas: de um lado, o potencial de uma safra maior exerce pressão sobre os preços da soja em grão; de outro, o forte esmagamento, as exportações e a demanda crescente por óleo de soja para biodiesel e diesel renovável oferecem sustentação ao complexo.
Abiove mantém esmagamento recorde e confirma ampla oferta de derivados
A Abiove reduziu marginalmente sua projeção para a safra brasileira de soja de 180,568 milhões para 180,464 milhões de toneladas, acompanhando a revisão mais recente da Conab. A estimativa de exportações do grão permaneceu em 115,4 milhões de toneladas, enquanto o esmagamento foi mantido no recorde de 63,3 milhões de toneladas.
Nos derivados, a produção de farelo permanece estimada em 48,7 milhões de toneladas, mas as exportações foram elevadas de 24,9 milhões para 25,3 milhões, reduzindo a projeção dos estoques finais em 8,9%, para 4,096 milhões de toneladas.
Para o óleo de soja, as projeções permaneceram inalteradas: 12,75 milhões de toneladas de produção, 11 milhões de toneladas de consumo doméstico e 1,7 milhão de toneladas de exportações.
Os dados realizados confirmam o ritmo acelerado da indústria brasileira. O processamento acumulado até junho alcançou 28,30 milhões de toneladas, crescimento de 7,7%. Somente em junho, foram esmagadas 4,95 milhões de toneladas, volume 7,3% superior ao registrado no mesmo mês de 2025.
De acordo com a SCA Brasil, a revisão praticamente não altera o quadro de ampla disponibilidade brasileira, mas confirma um ponto importante: mesmo com a manutenção do B15, o esmagamento continua avançando e o excedente de derivados encontra espaço crescente no mercado externo.
Biodiesel se manteve praticamente estável no Brasil
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre 10 e 16 de agosto, o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidoras ficou em R$ 5.290,23/m³, com leve alta de 0,16% em relação à semana anterior. Regionalmente, o Centro-Oeste registrou a maior valorização, de 1,71%, enquanto o Nordeste apresentou a maior desvalorização, de 0,49%.
Apesar da recuperação observada nas últimas semanas, o mercado de biodiesel ainda acumula queda de 10,68% em 2026, mantendo os preços em patamar inferior ao registrado no início do ano.

O levantamento da SCA Brasil apontou recuo na movimentação do mercado spot na semana, com um volume negociado de 1.325 m³ (-13,96%), a um preço médio de R$ 6.218/m³ (+1,09%). Esse baixo volume é comum nas semanas de negociação dos contratos de biodiesel.

Produção de biodiesel bate recorde mesmo sem avanço da mistura obrigatória
A produção brasileira de biodiesel alcançou 850,4 mil m³ em julho, o maior volume mensal já registrado. O resultado superou em 1,6% o recorde anterior, registrado em outubro de 2025, e ficou 6,4% acima do volume produzido em julho do ano passado, quando o B15 já estava em vigor.
“O desempenho chama atenção porque ocorreu sem aumento da mistura obrigatória e em um mês de demanda praticamente estável por diesel, com recuo preliminar de 0,3% na comparação anual”, comenta Filipe Cunha, head comercial de biodiesel, da SCA Brasil.
Cunha disse ainda que o movimento reforça a importância de acompanhar o equilíbrio entre produção, demanda e disponibilidade de biodiesel no mercado doméstico.
Regionalmente, o Centro-Oeste manteve a liderança, com produção de 377,4 mil m³, crescimento de 8,3% e acréscimo de 28,8 mil m³ em relação a julho de 2025. No Nordeste, a produção avançou 22,5%, para 78,8 mil m³. Já o Norte foi a única região a registrar retração, de aproximadamente 3,6%.
Petróleo sobe 6,6%, enquanto diesel segue pressionado
O Brent encerrou a semana a US$ 94,39/barril, alta de 6,6%, enquanto o WTI avançou 5,6%, para US$ 87,06. As negociações entre Estados Unidos e Irã permaneceram paralisadas e o tráfego pelo Estreito de Ormuz continua abaixo dos níveis anteriores ao conflito, mantendo elevado o prêmio de risco sobre o mercado de energia.
Nos derivados, as restrições de refino e exportação continuam alterando os fluxos internacionais. Estados Unidos e Índia vêm ganhando importância como fornecedores alternativos de diesel, ajudando a compensar parte da menor disponibilidade russa.
“Para o Brasil, o cenário reduz o risco imediato de falta física de produto, mas mantém pressão sobre o custo de reposição e a paridade internacional”, analisa Cunha.
O que observar na próxima semana?
Nos Estados Unidos, o mercado acompanhará a evolução da safra após as estimativas do Pro Farmer e as próximas decisões da EPA sobre RFS e isenções às pequenas refinarias.
Nos óleos vegetais, será importante observar se a palma sustenta as máximas recentes e se a forte demanda indiana continua favorecendo o óleo de soja sul-americano.
No Brasil, o foco permanece no ritmo elevado de esmagamento e produção de biodiesel, além do encerramento da rodada de negociações par os contratos do quinto bimestre.
SCA Brasil
Boletim Semanal – 17 a 21/08/2026