O encarecimento dos fertilizantes e a redução das importações começam a elevar os riscos para a agricultura brasileira em 2027. Relatório do J.P. Morgan alerta que uma oferta global mais restrita pode levar produtores a postergar compras ou reduzir a aplicação de nutrientes, afetando o potencial produtivo das próximas safras.
Os sinais já aparecem no Brasil. Entre janeiro e julho de 2026, as importações recuaram 7,4%, para 22,4 milhões de toneladas. Mesmo com menor volume, os gastos cresceram 7,3%, chegando a US$ 8,8 bilhões. Em junho, o preço médio da tonelada importada estava 26% acima do registrado um ano antes. A produção nacional também caiu 17% nos cinco primeiros meses.
Oriente Médio amplia risco sobre a oferta
O conflito colocou o Estreito de Ormuz no centro das atenções do mercado de fertilizantes. Além de petróleo e gás, a região concentra parcela expressiva do comércio de ureia, amônia e enxofre, matéria-prima fundamental para os fosfatados.
O impacto já chegou às cotações brasileiras. Em março, a ureia atingiu cerca de US$ 600 por tonelada, enquanto, em determinado momento da escalada do conflito, os preços nos portos avançaram mais de 15% em uma semana. O nitrato de amônio chegou a registrar alta próxima de 28%.
A preocupação é que uma recuperação completa da produção internacional afetada pelos conflitos possa levar, segundo o J.P. Morgan, de um a quatro anos.
Relação de troca pressiona decisão do produtor
O encarecimento também reduziu o poder de compra no campo. Em março, eram necessárias entre 35 e 40 sacas de soja para adquirir uma tonelada de ureia, ante 28 a 32 sacas em 2025. Para o milho, a relação passou de 50–60 para 60–70 sacas.
Esse cenário aumenta a possibilidade de ajuste no pacote tecnológico. O produtor pode manter a área plantada, mas reduzir doses de fertilizantes para preservar caixa — decisão que eleva o risco de perda de produtividade.
A exposição varia conforme a cultura. A soja depende menos de fertilizantes nitrogenados devido à fixação biológica de nitrogênio, mas continua demandando fósforo e potássio. Já o milho apresenta maior sensibilidade aos custos da ureia e de outros nitrogenados.
Dependência externa aumenta vulnerabilidade
Mais de 80% dos fertilizantes utilizados pelo agronegócio brasileiro ainda são importados. Entre janeiro e julho, as compras provenientes da Rússia recuaram 28% e as da China, 20%, enquanto as importações do Oriente Médio diminuíram 16%. O aumento dos embarques de Canadá e Marrocos não compensou integralmente essas perdas.
O problema não envolve apenas preço. A concentração das compras mais perto do plantio pode aumentar a disputa por produto, pressionar fretes e gerar gargalos na distribuição até as regiões produtoras.
Risco pode chegar aos alimentos com defasagem
O J.P. Morgan não aponta risco de desabastecimento de alimentos no Brasil, mas alerta para uma cadeia de efeitos: fertilizante mais caro → menor aplicação → possível queda de produtividade → custos agrícolas maiores → pressão posterior sobre alimentos.
Globalmente, o banco estima que o choque nos fertilizantes pode elevar temporariamente a inflação de alimentos para uma faixa de 4% a 5%.
Para o Brasil, o principal risco não está na safra 2025/26, estimada pela Conab em 360,1 milhões de toneladas de grãos, mas nas decisões de compra, adubação e investimento para os próximos ciclos.
Nesse contexto, ampliar a produção doméstica ganha relevância estratégica. A retomada das fábricas de fertilizantes nitrogenados da Petrobras na Bahia e em Sergipe, somada à unidade do Paraná, pode representar cerca de 20% da demanda brasileira de ureia.
O cenário reforça um ponto central para 2027: disponibilidade, logística e planejamento das compras podem ser tão determinantes quanto o próprio preço dos fertilizantes para proteger o potencial produtivo das lavouras brasileiras.
Fonte: CNN Brasil – Veja na íntegra aqui