Petróleo em alta reforça biodiesel e eleva volatilidade dos óleos vegetais

DE OLHO NO BIODIESEL BOLETIM SEMANAL DE MERCADO DA SCA BRASIL 23 a 27/03/2026

O mercado de petróleo apresentou uma semana de forte volatilidade com viés altista, impulsionado principalmente pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e pela manutenção do bloqueio do Estreito de Hormuz. Ao longo da semana, os preços oscilaram intensamente conforme as expectativas de um possível cessar-fogo avançavam ou recuavam, chegando a registrar quedas expressivas em momentos de otimismo diplomático, mas rapidamente revertendo com a retomada dos conflitos. No fechamento mais recente, o Brent voltou a operar acima de US$ 110/bbl, refletindo a percepção de que a oferta global permanece significativamente restrita.

O principal fator de sustentação segue sendo o risco de disrupção prolongada no fluxo de petróleo do Golfo Pérsico, especialmente afetando o abastecimento asiático. A ausência de avanços concretos nas negociações entre Estados Unidos e Irã, somada a eventos adicionais como restrições nas exportações russas e limitações logísticas globais, reforça um cenário de mercado apertado. Assim, mesmo com possíveis correções pontuais, os preços continuam sustentados por fundamentos de oferta restrita e elevada incerteza geopolítica.

O abastecimento de diesel no Brasil segue sob pressão, refletindo a combinação de oferta global restrita e a dependência brasileira de importações, que respondem por cerca de 30% do consumo. Apesar de episódios pontuais de escassez, como no Sul do país, o governo e a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirmam que não há, neste momento, risco sistêmico de desabastecimento, com oferta suficiente para atender o curto prazo. Ainda assim, há preocupação com os próximos meses, diante da competição internacional por cargas e incertezas logísticas.

Para mitigar os impactos nos preços e garantir o abastecimento, o governo adotou um conjunto de medidas, de caráter emergencial, incluindo subvenção de cerca de R$ 0,32/L, isenção de tributos federais (PIS/Cofins) e tentativa de articulação com estados para redução ou compensação do ICMS. Além disso, a ANP colocou o mercado em “sobreaviso”, ampliou o monitoramento de estoques, flexibilizou exigências regulatórias e incentivou a retomada de leilões e oferta pela Petrobras.

O mercado de biodiesel no Brasil, segundo dados da ANP, apresentou crescimento relevante em fevereiro, com as vendas avançando 7,4% na comparação anual, impulsionadas principalmente pelo aumento da mistura obrigatória, já que a demanda por diesel B cresceu de forma mais modesta. No bimestre, as vendas somaram cerca de 1,51 milhão de m³ (+6,8% a.a.), enquanto a produção também ganhou tração, atingindo 781,5 mil m³ no mês e acumulando recorde no início do ano.

O mercado spot voltou apresentou uma liquidez baixa durante a semana. No levantamento realizado pela SCA Brasil, foi apurado um volume de 3.925 m³ no mercado spot, com um preço médio de R$ 5.520/m³, com PIS/COFINS e sem ICMS, um aumento de 1,7% em relação à semana anterior.

Elaboração: SCA Brasil

Segundo o levantamento realizado entre 16/03 e 22/03 pela ANP, o preço médio do biodiesel negociado entre usinas e distribuidores ficou em R$ 5.038,08, desvalorização de 0,35% em relação ao valor médio da semana anterior. A região Sul apresentou desvalorização de -1,79% e a região Centro-Oeste a maior valorização, com 4,03%. O mercado acumula uma redução de 14,94% no ano.

Elaboração: SCA Brasil

O mercado de óleo de soja apresentou mais uma semana de alta volatilidade com viés altista, fortemente influenciado pela oscilação dos preços do petróleo e pelas expectativas em torno da definição das metas de biocombustíveis nos EUA. Ao longo dos dias, as cotações alternaram quedas e recuperações, reagindo principalmente às notícias sobre o conflito no Irã e possíveis avanços ou recuos nas negociações de cessar-fogo. Ainda assim, o movimento predominante foi de valorização, levando os preços para níveis próximos das máximas recentes, sustentados pelo ambiente de oferta energética restrita.

Além do petróleo, o mercado foi amplamente guiado pelo otimismo com a regulação americana, com expectativa de aumento relevante nas metas de mistura para 2026, o que reforça a demanda estrutural por óleo de soja no setor de biocombustíveis. No entanto, sinais de enfraquecimento da demanda no curto prazo — como a queda expressiva nas vendas semanais e o ritmo abaixo do esperado das exportações — limitaram movimentos mais fortes de alta. Ainda assim, fatores como a possível reaproximação comercial entre EUA e China também contribuíram para sustentar o sentimento positivo ao longo da semana.

Finalizando a semana, o contrato de maio/2026 do óleo de soja negociado na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês) fechou a 67,41 cents/libra na sexta-feira (27/03), valorização de 2,90% na semana, enquanto o prêmio de maio/2026 do óleo de soja FOB Paranaguá perdeu 10 pontos fechando a semana em -12,90 cents/lb. Dessa forma, o flat price do óleo de soja FOB Paranaguá fechou em US$ 1.201,74/ton, valorização de 3,41% em relação à semana anterior.

Elaboração: SCA Brasil

O óleo de palma acompanhou a dinâmica do óleo de soja, com oscilações ao longo da semana, mas encerrando com leve valorização, sustentado principalmente pela alta do petróleo e pelo bom desempenho das exportações da Malásia. Por outro lado, o mercado enfrentou pressões baixistas pontuais diante da expectativa de queda nas importações da Índia, reflexo de preços elevados e estoques mais confortáveis. Adicionalmente, preocupações com a oferta de fertilizantes na Malásia podem impactar a produtividade futura, trazendo um viés de suporte no médio prazo, ainda que o consumo no curto prazo mostre sinais de desaceleração.

Para a próxima semana, o mercado deve seguir sensível à evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente quanto aos impactos sobre o fluxo no Estreito de Hormuz e os preços do petróleo. Também permanecem no radar as definições regulatórias nos Estados Unidos para o setor de biocombustíveis, além de possíveis mudanças na demanda global por óleos vegetais. No Brasil, a atenção se concentra na disponibilidade de diesel, na evolução das medidas governamentais e na competitividade do biodiesel frente ao diesel importado.